“A divisão internacional do trabalho consiste em que uns países se especializam em ganhar e outros em perder.”
Eduardo Galeano, em “As Veias Abertas da América Latina”
A ONG Transparência Internacional divulgou no último dia 10 de fevereiro, o relatório anual chamado Índice de Percepção da Corrupção (IPC).
O documento faz uma análise qualitativa sobre avanços e retrocessos do país – e de diversos outros países – no combate à corrupção no último ano.
Já aviso ao leitor que o relatório da Transparência Internacional (TI) é portador de uma forte carga ideológica em favor dos países brancos do Hemisfério Norte, e em descarado prejuízo dos países do Sul Global – quase todos vítimas de exploração colonial desde o século 16 até meados do século 20.
O tema da corrupção é quase um lugar-comum em toda a América Latina, sobretudo em período eleitoral, quando a direita moralista (e corrupta) abusa de surrados chavões para criticar candidatos populares e/ou de esquerda.
Hoje mesmo, o relatório da TI, certamente, já está inspirando e abastecendo a extrema direita brasileira com seus dados subjetivos – portanto, falsos – para enxovalhar seus adversários do campo nacional-popular.
TI – Que organização é essa?
A Transparência Internacional (TI) é uma organização não-governamental (ONG), sem fins lucrativos. A TI se apresenta como um “movimento global” com uma secretaria internacional em Berlim e escritórios em mais de 100 países.
É financiada por uma combinação de governos ocidentais, fundações privadas, corporações multinacionais e bilionários avulsos. É justamente essa estrutura de financiamento, com forte presença estatal e gente muito rica, que alimentam as principais críticas à sua isenção, especialmente de países que se sentem prejudicados por seus rankings.
Agências governamentais que financiam a TI: Departamento de Estado dos USA, Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, DFID (Reino Unido), Irish Aid, governos da Dinamarca, Suécia, Nova Zelândia, Liechtenstein, Lituânia.
O UK Foreign, Commonwealth & Development Office também financiou o escritório britânico.
Financiamento corporativo: temos Amazon Inc., Shell Oil e Siemens AG.
Outros financiadores privados e corporativos estão listados abaixo (1).
A suspeita sobre um viés na “pesquisa” (o Índice de Percepção da Corrupção) se conecta diretamente com esses questionamentos sobre quem financia a organização e, por consequência, quais interesses podem estar indiretamente representados em seu trabalho.
A lista de financiadores deixa claro e cristalino que o produto IPC é suspeito e merece olho clínico quanto aos objetivos da TI.
Ninguém é ingênuo para crer que a “percepção de corrupção” é um exercício benemerente e voltado a auxiliar políticas públicas do Brasil.
A “percepção de corrupção” é, pois, um produto ideológico embalado e vendido aos povos de todo o mundo. Neste caso, a ideologia funciona como um véu que encobre o real.
Objetivo: autodegradar os pobres e – indiretamente – exaltar os países ricos, os mesmos que foram protagonistas ativos de saques, pirataria, roubo generalizado e ações criminosas de extermínio populacional contra o Sul Global das Américas, Ásia e sobretudo da África.
O IPC, na prática, cristaliza a falsa versão de que a corrupção é um problema exclusivo do Sul Global.
O modelo de autovalidação da “percepção”
Os documentos revelam um ciclo vicioso que transforma preconceito em “fato científico”.
O IPC não mede corrupção real, mas “percepções” subjetivas de um grupo restrito de especialistas e empresários, muitas vezes estrangeiros.
Essas fontes citam umas às outras ou à própria Transparência Internacional, criando um ecossistema fechado de reforço mútuo que ignora a realidade factual.
O índice ganha legitimidade (provisória e precária) por ser produzido por uma ONG sediada no Norte Global.
Governos, investidores e a própria população dos países mal avaliados passam a usar o IPC como referência, internalizando a “percepção” externa como um diagnóstico preciso de sua própria realidade.
Ora, ato contínuo, a mídia corporativa – golpista, direitista – do Sul Global publica tais relatórios sem um grão de crítica. E assume: nosso país é corrupto, nosso povo é desonesto e de moralidade discutível, nossos governantes são complacentes, o Estado é estruturalmente uma máquina corrupta e corruptora etc. Neste pacote indigesto já consta sempre a demonização da política como algo que constitui a raiz mesmo da corrupção pública.
O fazer político de hoje é associado (causa e efeito) à corrupção de amanhã.
Os editoriais dos grandes jornais do Brasil são prolíficos em examinar a chamada “moralidade cediça do brasileiro”. Adotam o padrão moral dos nossos opressores. A régua comportamental é sempre trazida da Europa, USA ou de ambos.
A corrupção como identidade nacional
Neste ponto da história, quando um ranking internacional, repetido ano após ano pela imprensa local e por líderes políticos, diz que seu país é um dos mais corruptos do mundo, a mensagem internalizada não é “nosso sistema de justiça é falho” ou “nosso sistema político precisa de reformas”.
A mensagem internalizada é “nós somos corruptos”.
A corrupção deixa de ser um problema a ser combatido e passa a ser uma identidade nacional. Uma mancha indelével na alma popular. Uma fatalidade para a qual não há solução.
Se a corrupção é vista como uma “essência” do povo ou uma fatalidade histórica, a luta por transparência e justiça perde sentido.
O véu ideológico funciona como um anestésico político: se o problema é o nosso caráter, e não nossas instituições ou a herança colonial, então não há o que fazer além de aceitar.
A baixa autoestima nacional gerada por esses rankings é funcional para a manutenção das relações de poder globais.
Países que se veem como inerentemente corruptos são mais propensos a aceitar pacotes de “ajuda” e “conselhos técnicos” do Norte Global sem questionamento, perpetuando um ciclo de dependência que remonta ao trágico período colonial.
O Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, quando analisado criticamente, revela-se não como um instrumento científico de diagnóstico, mas como uma artimanha ideológica de “produção de consentimento”.
Funciona como um véu que encobre e inverte a realidade, naturaliza a desigualdade e desmobiliza as periferias sociais.
Apresenta os facilitadores da corrupção global (Norte) como exemplos de virtude, e as vítimas desse sistema (Sul) como responsáveis pela fraude.
Traduz pobreza e não-branquitude como “falta de caráter nacional”: ao fazer com que as populações despossuídas interiorizem uma identidade negativa, envenena e anula sua capacidade de luta e organização por justiça e democracia substantiva.
O índice IPC funciona como um “espelho invertido” que reflete a culpa do colonizador como defeito do colonizado. Enquanto as populações das ex-colônias continuarem a se olhar nesse espelho, o véu ideológico cumprirá seu papel mais perverso: fazer com que os condenados da terra aceitem suas penas como destino irremediável.
O ocultamento seletivo dos verdadeiros corruptos
O mais curioso de tudo isso é que a TI deixa em segundo plano as tenebrosas transações nas praças financeiras de Londres (City of London e Canary Wharf), bem como de Zurique, Berna, Lugano, etc.
Sem esquecer o flagrante caso dos três estados-paraíso-fiscal USA de Delaware, Nevada e Wyoming, ligados a estratégias de elisão fiscal, blindagem patrimonial e, em casos extremos, lavagem de dinheiro. A bandalheira não ocorre no “breu das covas”, mas à luz do dia e com a indulgência de autoridades de Estado.
A TI-UK (o braço britânico da organização) tem sido uma das vozes ativas na crítica ao papel de Londres como destino de dinheiro sujo, ilícito.
Em 2015, a TI publicou um relatório afirmando que o sistema britânico de combate à lavagem de dinheiro era “lamentavelmente inadequado e estruturalmente falho”, classificando-o como uma miscelânea de 22 instituições com desempenho “muito ruim”.
A Transparência Internacional reconhece, pois, o problema dos centros financeiros do Reino Unido, Suíça e USA, como também possui escritórios nacionais nesses países que produzem relatórios críticos sobre seus próprios sistemas.
O recrudescimento dos paraísos fiscais
Hoje, o globo terrestre está coalhado de paraísos fiscais, as chamadas “jurisdições offshore”, um evidente eufemismo. São territórios que estimulam, viabilizam e amplificam a corrupção em escala globalitária. Um obscuro prefeito corrupto e bem instruído acessa tais facilidades praticamente sem obstáculos.
A função primária de um paraíso fiscal é romper o vínculo entre o dinheiro e seu verdadeiro dono. Para o corrupto, o maior medo não é roubar, mas ser descoberto. Os paraísos fiscais oferecem o instrumental para garantir o anonimato.
Eles não são meros receptáculos passivos de dinheiro, sua estrutura legal e financeira é a engrenagem essencial que permite que a corrupção deixe de ser um crime local e se transforme em um fenômeno global e impune.
Através de múltiplas transferências entre empresas fantasmas em diferentes jurisdições (Suíça, Singapura, Panamá etc.), o rastro do dinheiro se torna um emaranhado impossível de seguir para a maioria das autoridades.
Uma vez “limpo” e abrigado no offshore, esse dinheiro pode ser reinvestido no mundo real. Pode comprar imóveis de luxo em Miami, apartamentos em Londres, edifícios inteiros em Santa Catarina, participar de fundos de investimento ou simplesmente render juros em contas bancárias respeitáveis. O dinheiro sujo se integra à economia global como se fosse legítimo.
É interessante que saibamos que essas catedrais do crime e da bandalheira mundial estão sediadas – quase 100% – no Hemisfério Norte, justamente na geografia dos países ricos e ex-colonizadores do Sul Global.
A TI sabe disso, por óbvio, mas os seus relatórios – pelos menos os que são largamente divulgados no Brasil – ignoram essa singela e atroz verdade.
No próximo artigo, continuaremos tratando deste candente tema.
Exemplo: contaremos de como o presidente Barack Hussein Obama II trouxe para os EUA ações obscuras que eram praticadas apenas pelos bancos suíços. E de como a lavagem de dinheiro se comporta com a quase extinção do dinheiro de papel e a transição para a moeda digital total. Aguardem.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
*** Link para o site da Transparência Internacional: https://www.transparency.org/en/about
