AMÉRICA LATINA

‘El Derecho de Vivir en Paz’: soberanias de Venezuela e Cuba em risco

O que está em jogo em Cuba e na Venezuela é o direito de decidir o próprio fluxo da vida social

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Política migratória do governo Trump é alvo de protestos massivos nos Estados Unidos.
Política migratória do governo Trump é alvo de protestos massivos nos Estados Unidos. | Crédito: Roberto Schmidt/AFP

Essa música de Victor Jara não é uma relíquia do passado. É um retrato do presente. Ela denuncia o direito de viver em paz, e o que vemos hoje na América Latina é justamente a negação desse direito por meio de uma guerra orquestrada pelos centros hegemônicos do capital.

Quando olhamos para Cuba e Venezuela, não estamos diante de meras “crises humanitárias” ou conjunturas de escassez. Observamos a manifestação mais aguda do imperialismo contemporâneo: a tentativa de desarticular a soberania nacional mediante o controle estratégico dos fluxos vitais — energia, alimentos, insumos básicos. É precisamente essa dinâmica que o Livro II d’ O Capital nos fornece instrumentos para decifrar.

Os Estados Unidos promovem, ao intensificarem o bloqueio a Cuba e ao buscarem desestabilizar a Venezuela — inclusive com o sequestro de seu presidente —  uma tentativa de ruptura do ciclo do capital, tal como Marx o concebe. Aprendeu-se a sufocar o metabolismo social por dentro, interrompendo o fluxo que permite a reprodução não apenas do capital, mas da vida material nesta sociedade regida pelo imperativo do lucro.

O sequestro da dinâmica política na Venezuela e o impedimento do envio de petróleo para Cuba — há dois meses — não configuram atos isolados. Trata-se da orquestração planejada de um colapso. Sem energia, o ciclo do capital é forçado à paralisação.O objetivo estratégico é esvaziar o conteúdo político, cultural e social do projeto socialista cubano.

O ataque às soberanias dos países latino-americanos incide, exatamente, sobre os limites estruturais impostos pelo imperialismo às formações dependentes — limites que não se restringem à esfera produtiva, mas que atravessam a totalidade das relações sociais. Neste contexto de crise estrutural do capitalismo mundial, a condição de dependência agudiza as desigualdades históricas e impõe, como imperativo, a retomada do internacionalismo — aqui compreendido especialmente como unidade latino-americana — enquanto fundamento indispensável para uma práxis de libertação.

A dependência, portanto, atravessa as relações sociais — nossa base tecnológica, nossos padrões de consumo, nossa matriz energética, a própria organização do trabalho, a execução de políticas públicas e mobilização de recursos, o sequestro do Fundo Público — não por uma suposta “falta” ou “atraso” endógeno, mas porque fomos estruturalmente inseridos na divisão internacional do trabalho para operar como exportadores de mais-valor.

Quando uma potência imperialista bloqueia o acesso à energia de uma nação inteira, envia uma mensagem inequívoca: “Você não tem o direito de decidir o que produzir, como educar, como alimentar seu povo”. Estamos diante do capitalismo operando o controle logístico como arma de guerra.

A resistência histórica demonstrada pelos povos cubano e venezuelano também alcança seu imperativo político. Se a dependência nos constitui e nos vulnerabiliza, a resposta não pode ser o nacionalismo estreito, tampouco a expectativa de soluções provenientes do Norte global. A alternativa, necessariamente, há de ser coletiva, na afirmação da luta internacionalista — e, em particular, a unidade latino-americana. Trata-se de uma exigência material para qualquer projeto de libertação.

Portanto, ao analisarmos o contexto atual de nossa América Latina, carreguemos essa lente crítica: a análise do circuito do capital é, também, em última instância, a análise da disputa pela própria existência, na defesa da soberania. O que está em jogo em Cuba e na Venezuela é o direito de decidir o próprio fluxo da vida social. Mas esse direito só será plenamente conquistado quando formos capazes de construí-lo coletivamente, como povos irmãos de uma mesma pátria grande. É, como clama a canção, lutar pelo direito de viver em paz.

*Letícia Chimini é pesquisadora do LEMARX_TMD/UFRJ e professora do do Curso de Serviço Social/UNILA.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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