A semana política foi marcada por movimentos intensos no Congresso, nas pesquisas eleitorais e nos debates sobre direitos trabalhistas. A quebra de sigilo do filho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, na CPMI do INSS, o empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno, a ofensiva do empresariado contra o fim da escala 6×1 e a defesa do ministro Camilo Santana por um vice do MDB na chapa presidencial pautaram as discussões.
“Essa quebra de sigilo é uma medida eleitoreira da bancada da direita para tentar prejudicar a candidatura do Lula”, avalia Paulo Niccoli Ramirez, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Ele lembra que a própria Polícia Federal (PF) afirmou que o nome de Fábio Luís é citado nos documentos do “Careca do INSS”, mas sem nada comprometedor. “É bem possível, como vimos no caso Epstein, uma série de nomes citados que não participaram daquelas orgias. Não é via de regra que o fato de ser citado signifique envolvimento.”
O professor traça um paralelo com a Lava Jato. “Não é a primeira vez que isso acontece. Na Lava Jato, tanto se falava que o filho do Lula era dono da JBS, mas nunca foi dono de nada. Inventaram-se várias histórias com a ideia de deturpar a imagem do presidente Lula e reforçar sua prisão injusta. São artimanhas que a direita utiliza para desviar o foco.”
“Há muitos nomes ligados a partidos de centro e de direita dentro dessas associações que literalmente roubaram dinheiro dos aposentados. Mas a tentativa é desviar o foco exatamente porque nesta semana o Ministério Público do Rio reabriu o caso de Carlos Bolsonaro e as rachadinhas”, aponta.
Pesquisa Atlas Intel: Flávio Bolsonaro encosta, mas sem propostas
Sobre a pesquisa Atlas Intel que mostra empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro, Ramirez destaca que o único que venceria o Lula no segundo turno seria Tarcísio, que “está com toda essa polêmica com o vice, denunciado por corrupção. Pode ser uma grande furada para ele ser candidato”.
Para ele, Lula tem a vantagem de estar com 45% no primeiro turno e ter, a seu favor, a máquina do governo em andamento e políticas concretas. “Lula tem dados positivos da economia: baixo desemprego, salários aumentando, inflação estabilizada, isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil.“
“O que fez Flávio Bolsonaro para ter 33% a 37%? Nada. Essa pergunta ninguém tem resposta, a não ser defender o próprio pai. Ele pode ter gastado boa parte do seu combustível em função da herança política do pai, mas eleição não se decide unicamente com capital político de outros”, declara.
O professor aponta fragilidades do candidato, já que não fez nenhuma proposta, “não abre a boca a não ser para falar da anistia do pai”. E acrescenta: “Tem posicionamento extremamente vago. Diz que vai repetir Paulo Guedes, mas não diz qual é o plano econômico.”
O lobby contra a escala 6×1
Paulo Niccoli Ramirez fez uma análise contundente da ofensiva empresarial contra o fim da escala 6×1. “Isso mostra a hipocrisia da burguesia brasileira. Ela tem mais acesso à informação, mas é ignorante e não tem conhecimento matemático para entender por que é possível reduzir a jornada de trabalho.”
“Traz benefícios a todos, não só em termos de saúde do trabalhador, especialmente aquele que precisa se deslocar da periferia, duas, três horas de trânsito que não são contabilizadas como horas de trabalho. Essa mesma burguesia nunca se responsabilizou por dar dignidade no ir e vir”, lista.
O professor conecta o debate a questões mais amplas como a ligação aos ODS da ONU, que exigem qualidade de vida no trabalho. “Burnout, depressão, ansiedade, estresse: o trabalho hoje é o grande responsável pelos afastamentos. Uma boa parcela dos gastos da previdência se dá por conta de trabalhadores afetados pela jornada.”
Sobre o presidente da Câmara, Hugo Motta, que se declarou favorável à pauta, Ramirez ironiza. “Ele quer se manifestar a favor do projeto porque é ano de eleição. Talvez internamente nem seja a favor, mas politicamente, sim, porque sabe que isso tem custo eleitoral.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
