Risco de agressões

‘Situação de máxima gravidade’, diz Valério Arcary sobre escalada de tensão entre EUA e Irã

Historiador aponta que Washington conta com imobilismo de Pequim e Moscou, como foi com o sequestro de Maduro

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Irã e Estados Unidos iniciam terceira rodada de negociações em Genebra
Irã e Estados Unidos iniciam terceira rodada de negociações em Genebra | Crédito: Reprodução / @badralbusaidi / X

A tensão entre Estados Unidos e Irã atingiu um novo patamar nesta semana. Enquanto Donald Trump acusava Teerã de buscar armas nucleares e anunciava novas sanções, o Ministério das Relações Exteriores iraniano denunciava uma “campanha sinistra de desinformação”. Em meio às acusações, os dois países seguem reunidos em Genebra para negociar sobre o programa nuclear – mas o clima é de ultimato, não de diálogo.

“Seria de uma ingenuidade imperdoável desconhecer que os Estados Unidos deslocaram para a região do Golfo Pérsico uma força militar, tanto naval quanto aérea, que só pode ser comparada com aquela que antecedeu, 20 anos atrás, a invasão do Iraque”, observa o historiador e professor Valério Arcary. “Estamos numa situação de máxima gravidade”, acrescenta ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.

Ele lembra que essa demonstração de força é uma forma de pressão, mas não significa compromisso com solução negociada. “Pelo contrário.”

O historiador traça um paralelo com a recente agressão à Venezuela. “O ataque cirúrgico de 3 de janeiro, que culminou com o bombardeio de Caracas e o sequestro de Nicolás Maduro e Cilia Flores, não encontrou resposta à altura. Os países latino-americanos fizeram notas de protesto – é justo, mas muito insuficiente. Rússia e China tampouco foram além dos protestos diplomáticos.”

Para Arcary, essa reação tímida abre caminho para novos ataques. “Por que está colocada a possibilidade de uma agressão militar contra o Irã? Porque eles podem fazê-lo. Os Estados Unidos têm um dispositivo de força internacional que pode operar em escala mundial sem comparação com qualquer outro país.”

Ele cita números: 11 porta-aviões americanos contra dois da China, dois da Rússia, quatro da França e três do Reino Unido. “Ocorreu um deslocamento de forças no sistema internacional que permite que Trump vá a este limite da ousadia: uma intervenção militar, como de resto já fizeram no ano passado, atacando as centrífugas de enriquecimento de urânio do Irã.”

Arcary denuncia a fragilidade dos argumentos da Casa Branca, comparando com a acusação de que o Iraque tinha armas de destruição em massa. “Os argumentos são fraudulentos. Não há nenhuma evidência de que o enriquecimento de urânio a 60% possa construir ogivas nucleares – são necessários pelo menos 90%, e a destruição provocada nas centrífugas torna mais provável que o Irã precisaria de vários anos para chegar a esse nível, mesmo se quisesse.”

Ele lembra que, há mais de 30 anos, Estados Unidos e Israel denunciam que o Irã estaria na iminência de construir armas nucleares. “É o intervalo de uma geração. E, no entanto, isso não se confirmou. Isto sugere que, por parte do governo iraniano, há uma limitação de natureza política e ética contra as armas nucleares. O que o Irã tem interesse é em construir capacidade de soberania energética com produção de eletricidade através de técnicas nucleares.”

Arcary é categórico sobre os reais objetivos de Washington. “O objetivo de Trump, de Washington e das administrações anteriores – não só republicanas – é derrubar o governo iraniano. Nós temos que ter a lucidez de compreender que quem não sabe contra quem luta não pode vencer.”

“Trata-se de garantir o domínio do Oriente Médio através da supremacia de Israel com a cumplicidade norte-americana. O Irã tem um governo independente no sistema internacional, o que é uma anomalia do ponto de vista dos interesses imperialistas dos Estados Unidos. Eles querem preservar a qualquer preço sua supremacia mundial”, explica.

Sobre a possibilidade de reação de outras potências, Arcary é direto, uma vez que no caso da Venezuela ficou sem resposta da Rússia e China, os Estados Unidos esperam a mesma atitude.

O historiador analisa as declarações contraditórias que marcam o momento. De um lado, o presidente iraniano fala em “chances de um bom resultado” nas negociações. De outro, o secretário de Estado Marco Rubio ameaça: “O governo do Irã vai ter grandes problemas se resistir a discutir o alcance dos mísseis”.

“A flexibilidade do governo iraniano responde ao seu projeto estratégico: preservar posições e não provocar Washington. O Irã sabe que não pode enfrentar militarmente uma ofensiva norte-americana associada a Israel”, pontua.

Mas ele alerta contra a ingenuidade. “Seria de um infantilismo imperdoável acreditar no que dizem Trump e Marco Rubio. Uma potência imperialista que está lutando para manter o controle do mundo. Trump mente todos os dias.”

“Estamos falando de um poder que mente como se não houvesse amanhã. E estas declarações não diminuem o perigo. Estamos na iminência de uma possibilidade real, e grande, de uma operação militar para derrubar o regime iraniano”, alerta o historiador.

O Irã já prometeu resposta feroz a qualquer ataque, indicando que pode atingir bases militares estadunidenses no Oriente Médio. Mas, para Arcary, a correlação de forças é desfavorável. “A situação é de máxima gravidade. Ela remete a uma mudança na relação de forças desde o início do ano, que se expressa também no cerco contra Cuba. O que está em jogo é a manutenção da supremacia mundial dos Estados Unidos – e eles estão dispostos a tudo para preservá-la.”

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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