SERVIÇO PÚBLICO

Greve de trabalhadores de universidades e institutos federais chega à terceira semana no RS

Com mobilização da Assufrgs no estado, paralisação nacional avança e pressiona por cumprimento de acordo firmado em 2024

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Assembleia do comando local de greve foi realizada nesta terça-feira (17), no campus central da Ufrgs, em Porto Alegre
Assembleia do comando local de greve foi realizada nesta terça-feira (17), no campus central da Ufrgs, em Porto Alegre | Crédito: Christofer Dalla Lana

A adesão dos servidores técnico-administrativos do Rio Grande do Sul à greve das instituições federais de ensino completa três semanas nesta quinta-feira (20), com crescimento da mobilização e indicativos de intensificação do movimento. A paralisação atinge trabalhadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (Ufcspa) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), que estiveram reunidos nesta terça-feira (17) para assembleia do comando local de greve, no campus central da Ufrgs.

A mobilização teve início em 26 de fevereiro, após aprovação em assembleia do Sindicato dos Técnico-Administrativos em Educação da Ufrgs, Ufcspa e IFRS (Assufrgs), e integra um movimento nacional coordenado pela Federação de Sindicatos de Trabalhadores Técnico-Administrativos em Instituições de Ensino Superior Públicas do Brasil (Fasubra Sindical). Em todo o país, mais de 45 universidades e institutos federais já aderiram à greve.

Entre os principais pontos da pauta estão o cumprimento integral do acordo de 2024 realizado entre a categoria e o governo federal, a defesa da jornada de 30 horas sem redução salarial, a inclusão de aposentados nos benefícios da carreira e a implementação do Reconhecimento de Saberes e Competências (RSC) para todos os servidores. A categoria se posiciona contra mudanças aprovadas pelo Congresso Nacional (PL 5.874/2025, incorporado ao PL 6.170/2025) que tratam da reestruturação das carreiras do Executivo federal e restringem direitos historicamente conquistados.

“Com a aprovação do PL no Senado, sem nenhuma emenda das que nós propusemos, a tendência é a greve endurecer cada vez mais”, afirmou Maristela Piedade, da coordenação-geral da Assufrgs. Ela destaca que a mobilização segue em fase de crescimento e cobra do governo federal o cumprimento integral do acordo, incluindo a jornada de 30 horas, o reposicionamento de aposentados e a ampliação do RSC.

Piedade ressaltou a especificidade do trabalho dos técnico-administrativos nas instituições federais, com atuação contínua ao longo do dia. “Nós somos uma categoria que atende as universidades públicas federais de 7h da manhã até às 10h30 da noite, porque nós temos cursos noturnos também”, afirmou, ao defender que a dinâmica exige uma atenção diferenciada nas negociações com o governo.

Segundo a dirigente, a categoria garante o funcionamento cotidiano das universidades, em setores como bibliotecas, laboratórios e atendimento à comunidade acadêmica. Para ela, a valorização da passa pelo reconhecimento dessas funções e pelo cumprimento integral dos compromissos assumidos após a mobilização histórica de 2024.

Açãs de envelopalemento na Faculdade de Veterinária da Ufrgs, em Porto Alegre
Açãs de envelopalemento na Faculdade de Veterinária da Ufrgs, em Porto Alegre | Crédito: Christofer Dalla Lana

Mobilização cresce na base

Integrante do comando local de greve da Assufrgs, Myrela Leitão destacou o avanço da mobilização no estado a partir das ações de base realizadas nos campi e setores da Ufrgs. Segundo ela, os chamados “arrastões”, que são visitas aos locais de trabalho para dialogar com a categoria, têm ampliado a adesão à paralisação. “A greve de uma semana para outra duplicou de tamanho”, afirmou.

Segundo Leitão, o processo de convencimento passa pela circulação de informações entre os trabalhadores, o que tem contribuído para aumentar o engajamento. “Na hora que a gente começa a informar e deixar as pessoas esclarecidas com relação ao não cumprimento do acordo por parte do governo, as pessoas se sentem indignadas e estão vindo realmente para a greve”, disse.

Agenda de mobilização

A agenda definida pelo comando local combina atividades de mobilização interna e ações públicas. Ao longo desta semana, a Assufrgs está realizando arrastões e panfletagens em diferentes unidades da Ufrgs, em Porto Alegre, além de atividades em unidades do IFRS na região Metropolitana e no Litoral.

Comando de greve tem passado em setores das instituições para dialogar com os servidores sobre as pautas da greve

Também integram a programação da semana um seminário sobre o RSC e impactos da aprovação do PL 6170/2025 pelo Congresso Nacional, às 9h desta quarta-feira (18), no auditório do Instituto de Psicologia, Serviço Social e Comunicação Humana da Ufrgs, em Porto Alegre; e um ato nacional da greve, às 17h de quinta-feira (19), na Esquina Democrática, no centro da capital gaúcha.

As atividades de rua buscam dar visibilidade às reivindicações junto à população e expor os motivos da paralisação. “Mostrar para a sociedade por que a universidade hoje tem um acordo com o governo que não está sendo cumprido e por isso está em greve”, explicou Leitão.

Dimensão política da greve

Presente na assembleia, Rejane de Oliveira, que integra a executiva nacional da CSP-Conlutas, manifestou apoio à greve dos técnico-administrativos e situou a mobilização como parte de um processo mais amplo de organização da classe trabalhadora. Para ela, o movimento cumpre um papel pedagógico ao evidenciar a necessidade de autonomia política frente aos governos. “A luta de vocês ensina e ajuda a classe trabalhadora a compreender o que é a independência de governos, a independência de classe”.

Ao relacionar a paralisação com o cenário nacional, Oliveira afirmou que “a crise atual na educação, em especial nas universidades, é fruto da política do arcabouço fiscal”. Ela avalia que essa política “regra e limita os gastos com aquilo que é importante para a população, que são as questões sociais, os direitos e o investimento na educação, na saúde, na segurança, para esse dinheiro cair na mão do agronegócio e dos grandes empresários”.

Relatos de Brasília

Durante a assembleia, servidores que estiveram em Brasília acompanhando a agenda nacional da mobilização relataram o cenário das negociações e os desafios para consolidar a greve em todo o país. Entre os pontos destacados, houve críticas à postura de integrantes do governo federal diante da aprovação do projeto de lei, além da preocupação com dispositivos que podem ampliar a terceirização no serviço público, incluindo a contratação temporária de trabalhadores para o atendimento a pessoas com deficiência.

A avaliação apresentada é de que apenas o fortalecimento da greve em nível nacional poderá pressionar pelo cumprimento integral do acordo de 2024, com a garantia do RSC irrestrito e da jornada de 30 horas para toda a categoria.

Editado por: Katia Marko

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