Samba resiste

Reduto da cultura negra de SP, Samba do Cruz pode ser despejado por Ricardo Nunes a qualquer momento

Clube não assina contrato de concessão por ameaça a eventos de samba e mobiliza abaixo-assinado com 20 mil assinaturas

Samba do Cruz organizado pelo Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança.
Samba do Cruz organizado pelo Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança. | Crédito: Samba do Cruz

A Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB), pode despejar em breve o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, sede do popular Samba do Cruz, na zona norte da capital. O local é considerado um dos redutos da cultura negra na cidade e integra o complexo Campo de Marte. A demolição do espaço faz parte da concessão para a iniciativa privada dos campos e espaços dos clubes que ocupam a área do ente municipal. 

O terreno de 385 mil metros quadrados será gerido pela Concessionária Campo de Marte SPE S/A, que venceu o edital de concessão finalizado no início do ano passado. A concessionária é liderada pela empresa Progen S.A, formada por donos da Allegra Pacaembu, que administra o estádio. 

Além dos jogos de futebol de várzea, o Cruz da Esperança também realiza eventos de samba durante os finais de semana, as atividades ajudam o clube a manter as despesas de uniformes, campeonatos e manutenção do espaço que também dispõe de bares. 

A possibilidade iminente da demolição da sede do Cruz motivou a busca por apoio da população que frequenta o local. Na última quinta-feira (12) foi divulgado um abaixo-assinado para coletar assinaturas que serão apresentadas à Prefeitura de São Paulo ainda nesta semana. O documento soma mais de 20,5 mil assinaturas, segundo Tio Toninho, dirigente do time.

“Fundado em 12 de outubro de 1958 por um grupo de taxistas pretos. Ao longo de mais de seis décadas, o espaço consolidou-se como importante ponto de convivência comunitária, sociabilidade e preservação cultural, sendo referência para o samba de raiz, para o futebol de várzea e para práticas culturais associadas à cultura negra paulistana”, diz um trecho da carta que compõe o abaixo-assinado.

Por que o samba pode acabar

O complexo do Campo de Marte é composto por seis campos, de seis clubes distintos de futebol de várzea. No local, os campos formaram a associação dos clubes do Campo de Marte. O Cruz da Esperança existe desde 1958 e cada campo foi inaugurado em anos diferentes. Parte da área do complexo da Prefeitura integra um pacote de locais passados à gestão da iniciativa privada, tal como a gestão do Parque do Ibirapuera e do Vale do Anhangabaú. 

O contrato assinado por quatro dos seis clubes em 22 de janeiro de 2025 com a concessionária inclui a construção de novos campos. Desde então, a Secretaria do Verde e Meio Ambiente (SVMA) da prefeitura vem notificando as agremiações que assinaram o acordo a desocupar as sedes para gestão da concessionária. Com isso, os centros de convivência anexos aos campos de várzea passaram a ser considerados “ocupações irregulares”.

Os clubes, por sua vez, queriam continuar ocupando o espaço mesmo que durante eventuais obras. Com isso, foi negociada verbalmente a possibilidade de os clubes desocuparem os espaços para a posse da concessionária e reocuparem após 15 dias. Além disso, em no máximo 18 meses seriam entregues novos campos e as equipes permaneceriam nos mesmos espaços. Dos clubes da associação, quatro concordaram em assinar: Pitangueira, Baruel, Sade e Paulista. 

A solução entretanto não pareceu razoável para o Cruz da Esperança, que não assinou o contrato de concessão. De acordo com Tio Toninho, presidente do Cruz, o acordo com a empresa poderia decretar o fim do samba do Cruz, além de obrigar o fim da comercialização de bebidas e alimentos na sede. Atualmente, cerca de 15 a 20 mil pessoas passam por lá por final de semana. 

“Nesse contrato, havia uma cláusula dizendo que teríamos que sair por 15 dias e depois voltaríamos, mas isso era fictício. Como eu vou acreditar em um contrato desses? Além disso, o documento não menciona nada sobre o samba e estabelecia que o local abriria às 7 horas e fecharia às 19 horas. Eu não concordei, pois o meu clube vive do que se arrecada no samba. Não temos uma rede de associados com mensalidade, é o samba que paga as despesas com uniformes, campeonatos e manutenção. Sem isso, é melhor fechar as portas”, avalia o gestor do espaço. 

Como o acordo não foi assinado, o Cruz se vê sem um futuro certo, uma vez que o samba não foi considerado no contrato, bem como a forma de funcionamento do evento, que invade as madrugadas. “Acho que foi uma jogada muito suja, porque desde o início deveriam ter falado dos eventos que acontecem nos campos, como as festas das crianças e o grande torneio de futebol feminino que atrai mais de 50 times”, complementa Tio Toninho. 

“Como vou manter meu time?”, questiona ele. Diante disso, Toninho, que retornou a gestão do Cruz em abril do ano passado, depois de anos afastado, decidiu fazer uma carta e se retirar da associação para lutar “com muita gente” que está os ajudando. “O samba tem toda uma questão cultural de um público negro que frequenta o local há muito tempo, e isso foi desconsiderado”, diz ele. 

Com o cenário incerto imposto ao clube, a ideia defendida por eles é que o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança se torne Patrimônio Cultural Imaterial da cidade de São Paulo. Para tentar implementar essa medida foi criado um grupo administrativo, segundo Toninho. Se aprovado o procedimento administrativo garantiria a continuidade do clube e dos eventos no local com gestão autônoma. 

Fora isso, os integrantes do clube buscam diálogo com a Prefeitura e com a concessionária. “Também estamos em contato com o setor do Verde e do Meio Ambiente e pretendemos falar com a concessionária. A tendência é crescermos cada vez mais para não perdermos nosso cantinho, que é uma verdadeira família”, defende Tio Toninho. 

Ao encontro do que diz Toninho, a historiadora do esporte e pesquisadora Aira Bonfim destaca que o jogo de futebol não está correndo o risco de desaparecer, mas sim algo muito maior que tem a ver com a relação do clube popular. “Que é a relação de associativismo e o envolvimento de várias gerações na manutenção de uma atividade complexa que envolve o encontro, a prática esportiva, o lazer, a comida e a festa.”

O movimento do Cruz de não aceitar o acordo com a Prefeitura e a empresa privada legitima que “esse fazer pertence à população e está intrínseco na Constituição desde 1988 como um lazer autogestionado que atende a públicos diferentes”, diz Bonfim. 

“Essa é uma característica importante: não é para uniformizarmos todos que vão usar esse parque, a ideia é que esses diferentes públicos continuem usando. É um lazer de baixo custo, uma vez que a cidade já provou como é capaz de colocar camadas que excluem o acesso das pessoas. Por si só, o terreno do jeito que ele é hoje cumpre um uso social da terra de maneiras diferentes, de forma muito democrática e sem nenhum custo ou demanda do próprio poder público”, explica a historiadora.

Aira questiona o fato da concessionária ter vencido a licitação. “Apesar de vários problemas e da falta de pagamento com tantos fornecedores acumulados em todos esses anos da obra do Pacaembu, ela é capaz de ganhar uma licitação de mais 35 anos na mesma cidade. Isso por si só já é muito estranho, porque, se eu não pago uma conta, não consigo nem colocar a internet em minha casa.”

O contrato acessado pela reportagem menciona outras limitações aos dirigentes dos times: eles não poderão cobrar pelo uso do espaço e podem precisar mudar o regime de trabalho e talvez sejam proibidos de vender bebidas também. 

Sobre os horários, a concessionária poderá definir a distribuição. O contrato indica que a concessionária ficará com uma parte dos horários reservados. “Pode ocorrer um sufocamento econômico dos clubes, a depender de como serão conduzidas as negociações e dos seus impactos nas fontes de renda tradicionais das agremiações”, explica Beatriz Calheta, advogada e frequentadora do local.

Um dos anexos fala na disponibilização de 50% do período de funcionamento para horas livres aos usuários, mas o “termo é ambíguo”, avalia a advogada. “Não está claro se a associação terá voz sobre a distribuição desses 50% entre concessionária e clubes, ou como isso será fiscalizado. São imprecisões que geram insegurança jurídica.”

Sobre a participação popular no processo de concessão, houve audiências públicas virtuais. Embora esse mecanismo possa incluir quem não pode estar presente, ele muitas vezes faz com que demandas comunitárias passem despercebidas por falta de inclusão digital ou de informação, comenta Calheta.

“A maioria dos frequentadores não ficou sabendo das audiências, que foram esvaziadas. Nas reuniões com os clubes, muitas questões continuaram ambíguas ou pouco claras. No ano passado, houve uma promessa verbal de que os clubes poderiam ficar durante as obras, mas logo depois receberam notificações de desocupação. O diálogo é truncado e as conquistas, como a inclusão de cinco sedes no projeto, vieram após muita pressão popular e repercussão na imprensa”, conclui ela.

Vereadores se mobilizam pela permanência do Cruz da Esperança

Além da forte mobilização da sociedade civil, alguns parlamentares da Câmara Municipal de São Paulo estão apoiando a permanência do clube e dos respectivos eventos no local. É o caso do vereador Nabil Bonduki (PT-SP). Para o vereador essa situação reflete o que ocorre em diversos pontos da cidade: a política de concessão da gestão Ricardo Nunes. 

“Trata-se de uma estratégia de governo para rentabilizar espaços públicos, entregando áreas municipais para empresas privadas explorarem com foco na lucratividade, muitas vezes sem respeito à memória ou ao uso social desses locais. A prefeitura trabalha para transformar parques em áreas comerciais”, critica.

Ele explica que no caso específico dessa área do Campo de Marte, ela não era originalmente um parque, mas uma área da Aeronáutica. Após um longo acordo judicial, a Prefeitura cedeu a maior parte do terreno ao Governo Federal em troca da quitação de dívidas e ficou com esse trecho de quase 400 mil metros para criar um parque.

No entanto, em vez de elaborar um projeto ouvindo quem já ocupava a área ou promover uma discussão pública, a gestão realizou uma licitação que poucos conseguiram acompanhar, explica o vereador. 

“Dentro dessa concessão, há um acordo que descaracteriza os times de futebol. A lógica da concessionária é financeira: ela precisa que o espaço renda para manter o parque. Isso certamente levará à substituição dos bares comunitários por restaurantes e comércios da própria empresa. A cultura desses clubes, que une o jogo ao churrasco e à cerveja, gerando renda para a própria manutenção, corre o risco de desaparecer.”

Quanto à estratégia de solicitar o tombamento dos campos como solução, ele vê a medida com preocupação, já que o Conpresp [Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo] é “dominado pela prefeitura e tem dificultado a aprovação de qualquer projeto que não seja do interesse do governo”, pondera. 

Nesse contexto, a solução, no momento, parece ser fundamentalmente política e de mobilização social. “Os advogados podem tentar medidas judiciais para postergar as reintegrações, mas, sem uma decisão dos órgãos de patrimônio ou uma mudança de postura política da prefeitura, a tendência é que a justiça mantenha a retomada das áreas.”

Ele destaca que a mobilização da sociedade, como o abaixo-assinado é essencial para tentar sensibilizar o poder público. Há um valor cultural imenso, especialmente no caso do samba, analisa. “Infelizmente, a prefeitura tem desconsiderado essas questões antropológicas e sociais, passando por cima da história da cidade em nome da exploração comercial.”

Além de Nabil, a vereadora Luna Zarattini (PT) também destacou a importância do clube. Em visita ao local ela conversou com a comunidade que está aflita. “Desde 1958, este espaço é o coração do samba de raiz e do futebol de várzea da nossa ‘Pequena África’ paulistana. Não podemos permitir o apagamento da memória da população negra que construiu este clube com tanto suor e identidade”, declarou a vereadora em uma postagem

A reportagem procurou a prefeitura de São Paulo e a empresa Progen S.A para falar sobre as demandas do Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança. Em nota, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) não respondeu se irá acatar as reinvindicações do clube e informou que a administração municipal acionou o Judiciário para garantir a retomada da área pública e a continuidade da implantação do parque.

Confira a nota na íntegra:

A Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) informa que um acordo foi firmado entre a concessionária responsável pelo Parque Municipal Campo de Marte e a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes e Lazer do equipamento para uma gestão compartilhada dos futuros campos de futebol de várzea do local. O Clube Cruz da Esperança da Casa Verde/Samba do Cruz participou inicialmente das tratativas, mas abandonou o processo. Cabe destacar que ele também nunca solicitou à Prefeitura autorização para a atividade Samba do Cruz, comercializando irregularmente bebidas alcoólicas no local, e descumpriu notificações para desocupação voluntária do terreno. A administração municipal acionou o Judiciário para garantir a retomada da área pública e a continuidade da implantação do parque. Todo o processo vem sendo conduzido com transparência, diálogo e participação das partes envolvidas. A SVMA ressalta que os parques municipais são espaços de acesso livre para promoção de lazer, cultura e esporte de forma democrática. Manifestações artísticas e esportivas são incentivadas, desde que em conformidade com as normas de uso, preservação ambiental e utilização coletiva.

A Concessionária Campo de Marte informou que ainda não assumiu a gestão da área concedida e que acompanha o processo de liberação do local, em reuniões periódicas com a Prefeitura de São Paulo. A companhia destacou que a Concessionária sempre “esteve aberta ao diálogo com os interessados e que todos que se dispuseram a conversar para encontrar soluções à manutenção das atividades no local, até o início das obras de implantação do parque, foram recebidos e ouvidos.”

Editado por: Nathallia Fonseca

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