Petróleo é o foco

‘Estados Unidos estão usando a guerra para expandir mercados’, observa analista sobre conflito contra Irã

Filipe Giuseppe Ribeiro analisa resistência iraniana, a reação interna a Trump e falta de apoio dos aliados europeus

No audio source provided.
Estreito de Ormuz
Estreito de Ormuz | Crédito: Jacques Descloi/Wikimedia Commons

Enquanto o Irã confirma a morte de duas importantes lideranças — o chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Ali Larijani, e o ministro da Inteligência, Esmail Khatib —, o país segue sua estratégia de resistência, mirando ataques a bases militares e estruturas estratégicas no Golfo Pérsico. O objetivo, segundo analistas, é pressionar a economia global e forçar Washington a recuar.

O professor da Pós-Graduação em Política e Relações Internacionais da FESPSP, Filipe Giuseppe Ribeiro, contextualiza o impacto das mortes de lideranças. “Nunca é tranquilo quando uma das principais lideranças de defesa é eliminada. Isso certamente tem impacto no Irã. Mas o país é um Estado com instituições bem consolidadas — presidência, congresso, estruturas políticas que conseguem organizar a defesa e a resistência.”

No Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele explica que o Irã não ataca desenfreadamente: “Eles têm dado preferência a estruturas militares em países do Golfo — Bahrein, Emirados Árabes, Catar, Arábia Saudita, Kuwait. A ideia é pressionar internacionalmente causando aumento no preço do petróleo, o que gera problemas em cadeia em escalas inimagináveis.”

O controle do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, é a principal arma iraniana. “É a saída do Golfo Pérsico para o Golfo de Omã, que abastece mercados asiáticos — Índia, China, Japão, Coreia do Sul. São países que dependem fortemente do petróleo da região.”

Ribeiro chama atenção para um aspecto pouco debatido: a guerra como forma de expansão de mercados. “Antes da guerra da Ucrânia, a Rússia era a maior exportadora de gás para a Europa. Com as sanções e a destruição do Nord Stream 2, o mercado europeu foi ocupado pelo GNL estadunidense. Agora, com o fechamento de Ormuz, quem se prejudica são concorrentes dos EUA, como Catar (terceiro maior exportador de gás) e Arábia Saudita (grande exportadora de petróleo).”

Para o analista, há um interesse claro. “Os EUA estão usando a guerra para expandir mercados. Eles já são os maiores exportadores de derivados de petróleo do mundo. Essa é uma guerra de expansão imperialista, como as do século 19, mas com tecnologia moderna.”

Sobre a recusa da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) em ajudar a desbloquear o estreito, Ribeiro aponta o cansaço europeu. “Os europeus avaliam que a tarefa é custosa e perigosa. Eles já arcam com os esforços da guerra na Ucrânia e enfrentam baixo crescimento, aumento do custo de vida, perda de poder aquisitivo. Estão fatigados.”

A mensagem dos europeus a Trump, segundo ele, é clara. “Nós temos nossos problemas. Esse conflito foi desencadeado pela aliança dos EUA com Israel. A responsabilidade de abrir o estreito é de vocês.”

Ribeiro destaca que o prolongamento da guerra pode afetar diretamente as eleições de meio de mandato nos EUA. “A guerra não é popular entre os norte-americanos. O aumento do preço da gasolina e do diesel afeta o bolso do consumidor, em um cenário já pressionado pela guerra comercial e pela inflação.”

Trump já admitiu publicamente que perder o Congresso e o Senado pode complicar sua situação, inclusive com risco de impeachment. “Ele tem que avaliar os custos políticos internos. O Irã quer exatamente isso: pressionar os EUA politicamente.”

O analista alerta que os efeitos da guerra chegarão ao Brasil. “O aumento do preço dos combustíveis afeta toda a cadeia produtiva em escala mundial. Nós vamos sentir isso em breve. A pressão internacional sobre os EUA para que cheguem a um acordo que contemple as exigências do Irã vai crescer — e isso será considerado uma derrota geopolítica para Trump.”

Enquanto isso, o Irã segue sua estratégia de resistência, com instituições consolidadas e um plano claro de desgaste. A guerra, longe de ser um conflito local, revela-se mais um capítulo da disputa imperialista por mercados e recursos, com consequências que se espalham por todo o planeta.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

|

Newsletter