Diálogos Feministas

Diversos Coletivos Feministas do RS se uniram em 2020 e criaram um espaço de debates chamado Diálogos Feministas. A partir do diálogo surgiu a necessidade de escrever e assim nasce a coluna Diálogos Feministas, trazendo artigos semanais, assinados por diferentes militantes feministas.

Nossa solidariedade não se dobrará à repressão policial: seguiremos denunciando o genocídio na Palestina, no Irã e no Líbano

No audio source provided.
Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino
Manifestação em Porto Alegre foi organizada pela Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino | Crédito: Divulgação

Seguiremos denunciando o genocídio na Palestina, no Irã e no Líbano

Cláudia Santos*

A Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino organizou uma manifestação no último dia 9, com concentração em frente ao Carrefour, onde João Alberto Silveira Freitas foi assassinado em Porto Alegre (RS), com o intuito de homenagear as 168 meninas assassinadas na escola primária feminina, Shajareh Tayyebeh (A boa árvore), em Minab, no Irã. A escola foi bombardeada por mísseis tomahawk estadunidenses no dia 28 de fevereiro, no início da mais nova agressão imperialista EUA/israel ao país persa.

Tomamos essa decisão porque nos importamos com as crianças iranianas e existe um silêncio avassalador da mídia ocidental sobre os acontecimentos devastadores na região e também da nossa população em relação ao ocorrido. O mesmo silêncio existente por oito décadas frente ao projeto colonial na Palestina, um projeto expansionista, que une sionistas e imperialistas estadunidenses na busca por apropriação ilegal de terras, minérios, fontes de gás natural e energéticas com intuito de favorecer economicamente grupos financeiros, do mercado imobiliária, empresas bélicas e os interesses geopolíticos do imperialismo dos EUA: controle de distribuição energética e domínio de rotas comerciais. Durante oito décadas de limpeza étnica, apartheid e genocídio, o mundo permaneceu em silêncio e conivência com crimes contra a humanidade.

A Frente seguiu o planejamento e seus integrantes concentraram-se em frente ao Carrefour, uma das multinacionais cúmplices do Regime de Apartheid Israelense e que auxilia na normalização de crimes contra a humanidade ao mesmo tempo que lucra muito com uma filial estabelecida em Território Palestino Ocupado Ilegalmente. Dali partimos em caminhada até a frente do consulado dos EUA na Avenida Assis Brasil onde fomos brutalmente abordados pela Brigada Militar, que impediu que a manifestação ocorresse.
A polícia militar tem reprimido todas as manifestações que a Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino tem feito em frente ao consulado desde outubro de 2023. No entanto, a violência recrudesceu após a invasão militar dos EUA na Venezuela e o sequestro do presidente eleito Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores.

Um ato chamado por diversos movimentos e organizações em janeiro de 2026 em frente ao consulado dos EUA foi duramente reprimido e 3 manifestantes foram brutalmente espancadas e arrastadas para o batalhão da BM e posteriormente para a delegacia da polícia federal, de forma totalmente arbitrária. Nós estávamos presentes também nessa manifestação porque temos plena consciência de que a luta pela libertação da Palestina está diretamente conectada a luta pela libertação de todos os povos oprimidos. A Venezuela, por tanto, incluída sob esse prisma, país que vem sofrendo sanções unilaterais dos EUA desde 2006, sanções essas completamente ilegais, pelo que é estabelecido no direito internacional, afetaram o povo venezuelano no passado e continuam afetando hoje.

Mais do que por inferências, vemos as mesmas práticas utilizadas em Gaza sendo replicadas na América Latina. Já dizíamos, há tempos, que a Faixa de Gaza era o laboratório de exportação de armas, tecnologias militares e de controle, e que permitir que tais crimes hediondos se desenvolvessem sem nenhuma punição acarretaria na exportação do modelo de bloqueio asfixiante e genocídio intensificado em Gaza para outros países. A impunidade faz com que essas tecnologias e até mesmo os treinamentos israelenses sejam exportados para as polícias no mundo todo.

Assim também funciona com a Brigada Militar no RS, recentemente, em julho de 2025, em pleno genocídio televisionado, o governador Eduardo Leite assinou protocolo de intenções com a AEL Sistemas, subsidiária da Elbit Systems, maior fornecedora de drones e obuseiros para o exército genocida israelense. A AEL Sistemas, que produz e fornece sistemas avançados de integração e suporte logístico para aplicação militar, tecnologias para sistemas aviônicos, de comando e controle, comunicação tática, veículos remotamente pilotados, eletro-ópticos e defesa cibernética para o exército genocida israelense.

O protocolo de intenções, que viola decisões da Corte Internacional de Justiça emitidas em 2024, oficializa interesse do governo do estado do RS em estabelecer parceria com a empresa militar Israelense para a adoção de tecnologias na segurança pública e na formação de agentes de segurança, inclusive nesses sistemas eletrônicos militares e espaciais, com foco nos segmentos aeroespacial, defesa e segurança fornecidos ao exército israelense. Tal protocolo importa a violência e letalidade do genocídio em Gaza para o RS e coloca o governo Leite em total cumplicidade com o apartheid, os assentamentos ilegais israelenses, a ocupação militar expansionista e com o genocídio que prossegue em curso.

A medida que acordos militares, comerciais e energéticos entre Brasil e “israel” seguem intactos, sem que qualquer sanção ou embargo seja levantado pelo governo brasileiro para impedir a continuidade de crimes lesa humanidade, mais acordos vão se estabelecendo entre governos estaduais e municipais pelo Brasil todo, ampliando a violência policial e a sua letalidade nos territórios brasileiros. Nesse contexto, chamamos atenção para a repressão e a forma com que fomos abordados, numa evidente tentativa de criminalização daqueles que ousam se manifestar e chorar pelas meninas iranianas assassinadas, demonstrando nas ruas, de forma pública, solidariedade com as mães e pais iranianos, que perderam suas filhas num ataque brutal a uma escola primária. Local protegido pelas convenções internacionais e pelo direito internacional humanitário.

Fomos impedidos de nos manifestar democraticamente em frente ao consulado dos EUA, fomos abordados sob a ameaça de fuzis, vimos as bonecas que confeccionamos com jornal e plástico bolha serem destruídas, enquanto éramos obrigados a nos manter com as mãos na cabeça sob revista invasiva de policiais. Aquelas bonecas que representavam as meninas assassinadas por ataques com mísseis em pleno expediente escolar, bonecas simbolizando as meninas iranianas bombardeadas, também foram violadas pela força policial militar. Fomos hostilizados por carregar bandeiras da Palestina, keffyehs, imagens de meninas brutalmente assassinadas. Nosso intuito de tentar fazer a humanidade se expressar nas ruas ampliando solidariedade e consciência nas ruas de Porto Alegre, tornou-se um motivo para mais violência.

O ápice da violência da Brigada Militar foi tentar convencer os militantes da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino a assinar termo circunstanciado acusando um palestino de “perturbação da paz”. Os policiais repetiram por diversas vezes, diante das nossas negativas, que estaríamos “livres” bastava assinarmos o termo acusando injustamente um palestino de “perturbação da paz”. Ao concluírem que jamais assinaríamos o termo, diante das nossas afirmações de que havíamos organizado a manifestação conjuntamente e que se o Nader fosse levado preso iríamos também, por tanto, resolveram levar somente o Nader numa viatura para a delegacia. Ao que exigimos que informassem para onde estavam levando nosso nobre e solidário companheiro de luta, recebemos a afirmação de que estávamos “livres” e poderíamos ir para casa. Após mais insistência da nossa parte nos informaram que estavam levando o Nader para a 2ª DP na av Ipiranga. Não fomos informados em nenhum momento sobre quem teria ordenado a ação racista e xenofóbica e quem teria denunciado a suposta “perturbação” autorizando a ação policial arbitrária.

Por óbvio, a violência policial não nos impedirá de continuarmos exigindo o fim de toda a cumplicidade com o genocídio e o Regime de Apartheid Israelense, da mesma forma, exigimos sanções ao imperialismo dos EUA. Trump, seu conselho de criminosos de guerra, Netanyahu e todas as lideranças sionistas são ameaças à paz mundial, não nós, que não nos omitimos e não silenciamos quando centenas de meninas são assassinados no Irã, na Palestina, no Líbano ou na América Latina.

Para encerrar o artigo da coluna feminista dessa semana reafirmo que o genocídio praticado em Gaza é permeado pela misoginia, assim como os bombardeios imperialistas dos EUA/israel ao Irã, que não por acaso, escolheram uma escola primária exclusiva para meninas como seu primeiro alvo em 2026, uma semana antes do 8 de março. Também deixo aqui os números e informes do que não aparecerá nos jornais e mídias hegemônicas daqui.

Desde 28 de fevereiro, aumentaram os assassinatos de palestinos na Cisjordânia, gangues de colonos acompanhadas de soldados israelenses assassinaram 11 palestinos e deixaram mais de uma dezenas de feridos. Postos de controle e barreiras colocadas nas entradas e saídas das cidades, aldeias e vilas palestinas são usados pela ocupação militar israelense para limitar o movimento da população Palestina na Cisjordânia. Estima-se que 1000 barreiras e postos de controle militares foram levantados na região, o que implica uma vigilância constante da vida e da mobilidade dos palestinos. Enquanto escrevo esse texto assisto a entrevista de um menino sobrevivente da família Bani Odeh. No domingo, 4 membros dessa família foram assassinados na Cisjordânia, entre os mortos duas crianças, uma de 5 e outra de sete anos, baleadas na cabeça e no rosto. A família voltava das compras para preparar o fim do Ramadã. Não satisfeitos, os soldados impediram a chegada da ambulância para ajudar a família, que acabou morrendo e torturaram duas outras crianças sobreviventes da família. Os soldados comemoraram o massacre dizendo: “ Nós matamos cães.”

Em Gaza o genocídio persiste, famílias seguem deslocadas e refugiadas sob tendas, a situação de falta de estrutura, bombardeios às tendas que queimam pessoas vivas, ausência de água potável, insumos básicos e falta recursos energéticos para cozinhar e manter hospitais em funcionamento piora com uma tempestade de areia que chegou nesse final de semana. O bloqueio asfixiante, da mesma forma que os bombardeios, persiste. Dezesseis palestinos foram assassinados por bombardeio nas últimas 24 horas. Os que se dizem “salvadores das mulheres” e construtores “da Paz” seguem com seus planos de limpeza étnica e construções de resorts sobre pilhas de cadáveres palestinos. Os Estados seguem cúmplices, pela ação ou pela omissão. As mídias ocidentais seguem replicando mentiras sionistas para encobrir seus crimes.

Líbano e Irã seguem sob bombardeio do imperialismo EUA/israel numa repetição dos bombardeios incessantes praticados na Faixa de Gaza desde 2023. Os principais alvos são as escolas, as universidades, hospitais e centros culturais. Durante o dia de ontem o sul do Líbano foi bombardeado com fósforo branco. No Irã 153 centros médicos foram atacados, incluindo um hospital para crianças PCD, 56 centros culturais foram bombardeados por EUA/Israel e 65 escolas e universidades.

Nós da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino conclamos mais uma vez à população gaúcha a juntar-se conosco nas ruas. Entre os dias de 21/03 a 29/03/2026 ocorrerá a semana internacional de luta contra o Apartheid israelense. No dia da Terra, dia 30/03/2026 faremos uma atividade especial contra a limpeza étnica e relembrando a história de resistência e luta incessante do povo palestino. Acompanhe a nossa página no Instagram, @frentegauchapalestina. Nos siga e compareça às nossas atividades. A humanidade deve ser extravasada nas ruas, que nos mobilizemos pelo fim das investidas militares imperialistas desde a América Latina até a Palestina! É o momento de iniciar greves, pressionar nossos governantes a agir e agirmos para barrar a chegada de mercadorias israelenses e a saída de aço, dispositivos eletrônicos e petróleo para “israel”. Vamos nos juntar às caravanas de solidariedade à Cuba e à flotilha rumo à Gaza! Pelo mar ou em terra pressionaremos pela chegada de ajuda humanitária e pelo fim do bloqueio. Seguimos firmes exigindo o fim de toda a cumplicidade com o Regime colonial Genocida Israelense, pelo cancelamento do protocolo de intenções entre o governo Leite e a AEL Sistemas, embargo militar e energético â “israel”, que o governo brasileiro pare de enviar petróleo brasileiro para “israel” e envie petróleo à Cuba! Sanções imediatas à AEL Sistemas e seus CEOS!

*Cláudia Santos é militante da Frente Gaúcha de Solidariedade ao Povo Palestino.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter