Ao anunciar a filiação do governador de Goiás, Ronaldo Caiado, no fim de janeiro, o PSD, partido de Gilberto Kassab, passou a ter nada menos que três postulantes ao cargo de presidente da República: além do goiano, os também governadores Ratinho Júnior (Paraná) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) também já foram anunciados como pré-candidatos. Para o cientista político Pedro Fassoni Arruda, professor da PUC-SP, isso mostra a força de Kassab no cenário político nacional, mas terá pouco efeito prático na disputa presidencial.
“Nenhuma dessas candidaturas se mostra viável. Qualquer candidatura do PSD, seja Ratinho Júnior, Eduardo Leite, ou o Ronaldo Caiado”, resumiu o especialista, entrevistado desta quinta-feira (5) do podcast BdF Entrevista. Fassoni afirma que a disputa será polarizada entre Lula e o candidato oficial do bolsonarismo, que, ao que tudo indica, será mesmo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). “Nenhum dos presidenciáveis do PSD tem projeção nacional”.
Ex-prefeito de São Paulo, Kassab transita por todos os meios políticos. Foi ministro de Estado nos governos de Dilma Rousseff e Michel Temer, além de secretário de João Doria e do bolsonarista Tarcísio de Freitas no governo do estado de São Paulo. Seu partido, fundado em 2011, segue a mesma toada, ocupando cargos no governo Lula e em gestões de direita e extrema direita pelo país.
“O PSD é um partido de quadros. Não é um partido com inserção popular, com capilaridade. É um partido que tem uma máquina bem azeitada. A capilaridade vem dos diretórios municipais, dos governos. É o partido que tem o maior número de prefeitos, o maior número de governadores, uma das maiores bancadas na Câmara dos Deputados, mas não é um partido com o qual a população se identifica”, resumiu.
Apesar de contar com três “presidenciáveis” em seus quadros, Kassab já deixou claro que seu favorito para concorrer à presidência é Tarcísio de Freitas, hoje filiado ao Republicanos. O governador insiste que vai tentar a reeleição. Até que as candidaturas sejam formalmente registradas, porém, o jogo pode mudar.
“A gente pode dizer que o PSD é um partido que tem um dono, que é o Gilberto Kassab. E ele é muito próximo do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é uma espécie de primeiro-ministro do governo estadual, e já deixou muito claro que se o Tarcísio for candidato à presidência da República, ele o apoia. E o Tarcísio não é nem do partido dele, é de outro partido”, lembrou.
Fassoni afirma que o PSD faz parte de uma direita liberal, que, até alguns anos, era capitaneada pelo PSDB e o antigo Democratas (que, mais recentemente, se fundiu ao PSL para criação do atual União Brasil). Esse grupo perdeu espaço no cenário político brasileiro na última década.
“Essa direita dita ‘moderada’ acabou pagando um alto custo pela sua adesão ao golpismo de 2016, com o golpe que eles chamam ‘impeachment’ contra a presidenta Dilma. Eles acreditavam que o governo cairia no colo deles. Era a estratégia do Aécio Neves e de tantos outros: derrubaram uma presidenta legitimamente eleita pelo voto popular e prepararam o terreno para que a extrema direita assumisse. A gente sempre sabe como um golpe começa. É difícil saber como termina”, afirmou.
O especialista destacou, porém, que os ideais dessa direita e do bolsonarismo se aproximam, e, com uma eventual candidatura presidencial do PSD, isso poderá ser visto durante a campanha eleitoral deste ano.
“A gente vai ver que não existe diferença fundamental entre o programa. Qualquer que seja o candidato à presidência do PSD, vai ficar muito claro que existe muito mais semelhança entre eles e o Flávio Bolsonaro do que diferenças”, disse.
Para ouvir e assistir
O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 16h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h
