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Todos os conteúdos de produção exclusiva e de autoria editorial do Brasil de Fato podem ser reproduzidos, desde que não sejam alterados e que se deem os devidos créditos.

'Desprezo pela arte'

Em dois dias, Prefeitura de SP e governo Tarcísio destroem Teatro de Contêiner Mungunzá e jogam estrutura na avenida do Estado

Ato abrupto no fim de semana choca artistas e órgãos federais, que criticam falta de diálogo e desinteresse pela cultura

  • 23.mar.2026 - 19:27
  • São Paulo (SP)
  • Beatriz Drague Ramos
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Estruturas do Teatro de Contêiner Mungunzá no centro de São Paulo destruídas.
Estruturas do Teatro de Contêiner Mungunzá no centro de São Paulo destruídas | Crédito: Teatro de Contêiner Mungunzá

A demolição das estruturas do Teatro de Contêiner Mungunzá, espaço cultural na região central de São Paulo, concluída na noite do último domingo (22), gerou repúdio e preocupação entre órgãos federais e a sociedade civil. 

O Ministério da Cultura (MinC) e a Fundação Nacional de Artes (Funarte) manifestaram sua perplexidade e repúdio, enquanto a Companhia Mungunzá de Teatro, responsável pelo espaço, denunciou a ação como arbitrária e sem aviso prévio.

A ação da Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB) e do governo do Estado, chefiado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), prosseguiu no domingo (22) com a desmontagem integral das unidades e o transporte dos materiais para um depósito municipal na Avenida do Estado. Segundo integrantes da companhia teatral, equipes da Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab) promoveram a retirada das estruturas do local.

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Um post compartilhado por Teatro de Contêiner Mungunzá (@teatrodeconteiner)

Os representantes do centro de teatro afirmaram que a operação ocorreu sem a apresentação de alvará, sem identificação de responsável técnico e com um processo judicial ainda em curso.

De acordo com uma nota à imprensa divulgada pela Cia Mungunzá, a demolição ocorreu de forma inesperada. “Fomos surpreendidos com a demolição das estruturas do Teatro de Contêiner, sem comunicação prévia, sem apresentação de alvará, sem identificação de responsável técnico, e desconsiderando a disputa judicial ainda em andamento”, afirma a companhia. 

A remoção do telhado teve início ainda no sábado (21) e a demolição completa do complexo, com a retirada dos materiais para um terreno municipal na Avenida do Estado, foi concluída no dia seguinte. Segundo os integrantes, a estrutura do Teatro foi deixada em um local sem um espaço adequado para receber os contêineres. “Simplesmente a gestão do terreno disse que não irá receber [os contêiners], além de não receber esse telhado não passa. Os contêiners vão ficar na rua.”

A interdição do Teatro de Contêiner em janeiro de 2026 já havia gerado tensões. A Cia Mungunzá relata que, ao longo de 2025, buscou uma solução digna para a realocação do espaço, apresentando diversas propostas. 

No entanto, o poder público teria se mantido irredutível quanto à exigência de que a transferência fosse concluída ainda naquele ano, desconsiderando o tempo e os estudos técnicos necessários. Um acordo firmado no final de 2025 previa a cessão de um terreno na Rua Helvetia, mas, desde a interdição, o diálogo com a prefeitura e o governo estadual foi interrompido, inviabilizando qualquer mudança efetiva.

O Ministério da Cultura e a Funarte corroboram a dificuldade de comunicação. Em nota oficial, os órgãos federais expressaram “perplexidade e repúdio com o início das intervenções por parte da Prefeitura de São Paulo para a demolição definitiva do Teatro de Contêiner”. 

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Um post compartilhado por Cia. Mungunzá de Teatro (@ciamungunza)

Eles destacam que, desde a interdição, vêm solicitando à Prefeitura de São Paulo que retome as negociações para a reinstalação do Teatro em outro terreno municipal, conforme pactuado, mas a administração municipal tem se mantido “irredutível em apresentar qualquer alternativa.”

A Cia Mungunzá tentou diversas vias de diálogo, incluindo federações, o Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões no Estado de São Paulo) e parlamentares, mas as respostas recebidas foram evasivas, com alegações de que “não era o momento de dialogar” e que o prefeito, governador e secretários estariam “contrariados com o fato de terem sido associados à ideia de ‘inimigos da cultura’”, segundo a nota da companhia. 

O coletivo critica a falta de planejamento e o desinteresse pela cultura. “A decisão acarreta prejuízos incalculáveis à cidade e aos seus espaços culturais.”

Atualmente, as atividades da Cia Mungunzá estão sendo acolhidas temporariamente no Complexo Cultural Funarte São Paulo. O governo federal, por meio da Superintendência do Patrimônio da União, disse em nota estar empenhado na busca de um terreno de sua propriedade para a reconstrução do Teatro. A Federação continua sendo um ponto de apoio na reconstrução, buscando terrenos da União que possam abrigar a continuidade do espaço cultural. 

“É estarrecedor que o fato aconteça às vésperas do Dia Mundial do Teatro, celebrado na próxima sexta, 27 de março. Desde a total interdição do Teatro, em janeiro de 2026, o MinC e a Funarte vêm solicitando à Prefeitura de São Paulo que retome as negociações com a Cia Mugunzá para a reinstalação do Teatro de Contêiner em outro terreno municipal, como já havia sido pactuado. Lamentavelmente, a Prefeitura tem se mantido irredutível em apresentar qualquer alternativa para a permanência das atividades do Teatro de Contêiner”, disse em nota o órgão federal.

“O uso que o Teatro de Contêiner consolidou no campo cultural da cidade é maior do que qualquer ressentimento pessoal por parte dos governantes de São Paulo. Trata-se de um equipamento de enorme relevância artística e social”, diz a companhia exigindo esclarecimentos formais sobre a ausência de diálogo e a medida precipitada.

“Diante disso, exigimos esclarecimentos formais sobre a ausência de diálogo e sobre a adoção dessa medida precipitada e injustificável, que revela falta de planejamento e desinteresse pela cultura. Essa decisão acarreta prejuízos incalculáveis à cidade e aos seus espaços culturais. Que cidade estamos construindo, se a própria cultura é tratada como obstáculo e não como patrimônio de todas as pessoas?”, conclui a Cia Mungunzá.

O local era conhecido por oferecer espetáculos gratuitos de teatro, música e dança, além de acolher pessoas em situação de vulnerabilidade social com cursos, oficinas e áreas de descanso.

Histórico de conflitos

Em maio de 2025, houve uma primeira ordem de desocupação. Em agosto do mesmo ano, uma ação da Guarda Civil Metropolitana (GCM) para retirar artistas de um prédio anexo, marcada pelo uso de spray de pimenta gerou forte repúdio do Ministério da Cultura (MinC). Na época a ministra da Cultura, Margareth Menezes, e um representante da Funarte chegaram a atuar como mediadores junto à gestão municipal.

Na ocasião, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) concedeu uma liminar garantindo a permanência do grupo por 180 dias.

Em setembro, a companhia denunciou tentativas de demolição parcial mesmo com a liminar vigente, o que levou o Ministério Público a investigar a conduta de agentes públicos por possível abuso de autoridade. 

No fim do ano passado, houve tentativas de negociação. A prefeitura ofereceu terrenos alternativos, mas o grupo alegou que os locais eram inadequados e que as promessas de auxílio financeiro não foram formalizadas em contrato.

“Continuamos o processo pleiteando que a prefeitura tivesse cuidado com o teatro e fizesse a mudança para rua Helvetia. O desembargador pediu para a prefeitura se pronunciar, mas antes da decisão do desembargador, eles correram e destruíram tudo. Nesse momento estamos tentando recolher os cacos e achar uma saída jurídica e política, estamos todos assustados com tamanha violência e desprezo. O governo do estado em parceria com a prefeitura destruiu o teatro em dois dias e duas madrugadas”, afirmou Marcos Felipe, ator e também gestor do local.

Impasse logístico e financeiro

Embora o grupo tenha aceitado a transferência para um terreno na rua Helvetia, os artistas alegam falta de suporte para fazer a mudança dos 11 contêineres que compõem a estrutura. O custo do novo projeto está estimado em R$ 2 milhões. A Justiça, porém, considerou que o prazo da liminar se esgotou e que a ocupação em área pública era irregular e a prefeitura ofereceu um suporte de R$ 100 mil.

Marcos Felipe já recorreu às redes sociais para explicar que o grupo precisava de mais tempo para organizar a retirada do equipamento. Segundo ele, os integrantes tentam diálogo com a prefeitura desde dezembro, sem sucesso. 

“A Prefeitura não está nos recebendo para conversar. Faço esse apelo: conversem com a gente. Agentes públicos, chamem a gente para o diálogo”, pediu.

Lucas Beda ressaltou que uma nova estrutura demanda auxílio do poder público. Ele criticou a forma como a interdição foi conduzida. “Nós não somos intransigentes, a gente já aceitou, sabe? Intransigência é a gente chegar no espaço e ele estar interditado, lacrado, sem o mínimo de comunicação. Nós não merecemos isso. Somos um grupo que atua há 18 anos em prol da cidade de São Paulo.”

Procurada a Prefeitura de São Paulo afirmou que o Teatro de Contêiner Mungunzá ocupou irregularmente a área da rua dos Gusmões por quase dez anos. Segundo o ente municipal,” a gestão atual dialogou por cerca de um ano com o grupo, repassou R$ 2,5 milhões às atividades da companhia e ofereceu quatro alternativas de terrenos para a transferência, mas seus representantes preferiram, perto do prazo final determinado pela Justiça, criar obstáculos para desocupação do terreno.”

A Subprefeitura Sé informa que todos os itens retirados do Teatro de Contêiner estão sendo armazenados em um depósito da Prefeitura, garantindo a preservação das estruturas e dos materiais. “A ação faz parte do processo de destinação do terreno à habitação de interesse social, conduzido com respaldo legal. O terreno sempre foi público, e o grupo responsável foi previamente orientado a realizar a retirada integral da estrutura, o que não ocorreu.”

Já o governo do estado não respondeu à reportagem. O espaço segue aberto para o posicionamento.

Uma década de ocupação

O projeto nasceu em 2016, quando a Cia. Mungunzá ocupou um terreno abandonado que servia como descarte de lixo. O local transformou-se em um premiado centro cultural que, ao longo dos anos, recebeu cerca de R$ 2,5 milhões em verbas públicas via editais. 

A retirada do teatro mobilizou até nomes como Fernanda Montenegro e Marieta Severo, que enviaram cartas ao prefeito defendendo a permanência do grupo como essencial para a segurança e a vida do bairro.

Em 2023, o Sesc São Paulo indicou o projeto como exemplo de inovação em arquitetura teatral para o International Theatre Engineering and Architecture Conference (Iteac), evento especializado realizado em Londres, no Reino Unido. 

Editado por: Luís Indriunas
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