Oriente Médio

‘Estados Unidos não esperavam essa capacidade de resposta do Irã’, avalia professor do Prolam

Gustavo Menon analisa recuo de Trump na guerra contra o Irã e as ameaças à soberania de Cuba, Colômbia e Brasil

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Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Jim Watson/AFP

Enquanto o mundo acompanha as idas e vindas de Donald Trump na guerra contra o Irã, com ameaças de ataques, recuos e promessas de negociação, o cenário geopolítico se torna cada vez mais imprevisível. O presidente estadunidense, que prometeu uma vitória rápida, agora enfrenta a resistência iraniana, o desgaste interno e a crescente insatisfação até mesmo entre sua base eleitoral.

O docente da Universidade Católica de Brasília (UCB) e do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM-USP), Gustavo Menon, avalia que as últimas declarações de Trump, demonstram um erro de cálculo do presidente dos EUA sobre a ideia de atacar o Irã. “Estamos observando sinais de desgaste por parte da Casa Branca. Donald Trump não esperava essa capacidade de resposta por parte do governo iraniano e da Guarda Revolucionária. Muitos alvos vinculados ao poderio bélico estadunidense foram atingidos”, destacou.

Ele destaca que a estratégia iraniana de fechar o Estreito de Ormuz pressionou não só o preço do petróleo, mas gerou uma onda inflacionária em diferentes economias. “Os Estados Unidos cada vez mais não conseguem ser esse ator hegemônico no plano internacional. Vêm perdendo espaço, perdendo protagonismo diante da emergência das economias da Ásia e do Pacífico”, aponta ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

Menon chama atenção também para o desgaste doméstico de Trump. “Estamos em um ano eleitoral e Trump vem corroendo a própria base de campanha. Muitos setores do MAGA (sigla de Make América Great Again, lema da extrema direita estadunidense) estão completamente insatisfeitos, porque a promessa de ‘America First’ não vem sendo cumprida, avalia. “

Ele aponta que a tentativa de revitalizar a indústria fracassou e a sociedade americana vive sob pressões inflacionárias, agora agravadas pelas consequências de uma guerra iniciada pelo próprio Trump. “Há muitas insatisfações no interior do Partido Republicano. O custo dessa guerra é extremamente elevado para dar vazão a essa política beligerante”, avalia Menon.

O professor faz um contraponto importante entre a intervenção na Venezuela e a resistência iraniana. “Estamos falando de um país milenar, com mais de 80 milhões de pessoas, que vem se mobilizando para não aceitar esse ataque que vitimou meninas indo à escola. A despeito da morte do líder supremo, o governo iraniano conseguiu impor o fechamento do Estreito de Ormuz, pressionando o preço do petróleo e gerando inflação global.”

O escudo das Américas e os novos conflitos na região

Menon alerta para a tentativa de Trump de implementar um “escudo das Américas”, com aliados regionais apostando em políticas de força alinhadas a Washington. “O objetivo é romper com a pretensão da política externa brasileira de consolidar a América do Sul como uma região de paz”, afirma.

Ele cita a tensão recente entre Colômbia e Equador, onde um ataque em solo colombiano vitimou 27 pessoas. “Donald Trump se silenciou sobre esse ataque que violou o princípio da integridade territorial colombiana. O Equador de Daniel Noboa tem se aproximado cada vez mais de Trump”, explica.

Menon também lembra que a proposta de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas faz parte dessa estratégia, assim como acusou que outros governos progressistas estariam ligados ao tráfico de drogas. “A pretexto do combate ao narcotráfico, Trump tenta interferir em assuntos domésticos de governos progressistas na região.”

Sobre a situação em Cuba, Menon é enfático. “O bloqueio se acentuou nos últimos tempos. A economia da ilha está completamente estrangulada em razão do episódio na Venezuela e do sequestro de Maduro. As remessas de petróleo foram interditadas. Os Estados Unidos, do ponto de vista ideológico, querem pôr fim às conquistas da Revolução Cubana de 1959”, avalia.

Menon conclui que o cenário é de um mundo em conflagração, com os Estados Unidos tentando se reposicionar através da força, sem encontrar instituições que o impeçam. “Precisamos observar como atores contra-hegemônicos — Irã, aliança sino-russa — estão forjando um novo mundo, uma ordem multilateral fundamentada em princípios de um destino compartilhado. Não temos fóruns de governança regional que possam dar respostas eficazes ao combate a esses crimes transnacionais. É preciso construir sinergia com outras economias do Sul Global para pensar um outro mundo possível, livre dessas políticas intervencionistas”, conclui.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Rodrigo Gomes

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