Memória

‘Nunca más’: ato em São Paulo, na terça (24), relembra 50 anos do golpe militar na Argentina

Argentinos e movimentos populares vão se reunir em frente ao consulado da Argentina para 'defender memória e justiça'

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Milhares de pessoas se reúnem na Praça de Maio, em Buenos Aires, para lembrar o 49º aniversário do golpe militar de 1976, que deu início às ditadura na Argentina, e protestar contra o governo de Javier Milei, em 24 de março de 2025
Milhares de pessoas se reúnem na Praça de Maio, em Buenos Aires, para lembrar o 49º aniversário do golpe militar de 1976, que deu início às ditadura na Argentina, e protestar contra o governo de Javier Milei, em 24 de março de 2025 | Crédito: Juan Mabromata/AFP

Na passagem dos 50 anos do golpe militar de 24 de março de 1976 na Argentina, argentinos residentes no Brasil e movimentos populares que constroem a Alba Movimentos convocam para ato nesta terça-feira (24), às 14h, em frente ao Consulado da Argentina, na Avenida Paulista. A mobilização chama os participantes a levarem lenços, em referência ao símbolo histórico das Mães e Avós da Praça de Maio.

A convocatória fala em “defender a memória” e reafirma palavras de ordem que atravessam décadas da luta argentina por verdade e justiça. “Nunca más” é uma das frases aparece no chamado para o ato, que deve reunir militantes, argentinos e argentinas que vivem em São Paulo e integrantes de organizações populares brasileiras.

Para Florencia Abregú, integrante da secretaria operativa da Alba Movimentos, o 24 de março segue sendo uma data central “pelo exercício da memória” e pela exigência permanente de justiça pelos desaparecidos e detidos ilegalmente. Segundo ela, a lembrança do golpe não se limita ao passado e se conecta ao cenário político atual do país.

A proposta é que o gesto do lenço branco faça a ponte entre a memória argentina e o presente político da região. “Queremos fazer uma foto e um pañuelazo entre todos e todas, levantando esse lenço pela memória, pela verdade e pela justiça”, disse Abregú.

A data tem peso histórico e político. O golpe que deu início à última ditadura argentina inaugurou um regime de terrorismo de Estado que, ao longo de 2.818 dias, estruturou uma política sistemática de perseguição, sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento forçado. Organismos de direitos humanos estimam em cerca de 30 mil o número de desaparecidos, além de centenas de bebês apropriados pelo regime e mais de 800 centros clandestinos de detenção espalhados pelo país.

Na entrevista enviada à reportagem, Abregú também sustenta que há, no governo de Javier Milei, uma ofensiva contra a organização popular, os direitos sociais e a memória histórica construída desde a redemocratização.

Ela afirma que a gestão atual “reivindica o terrorismo de Estado”, relativiza os crimes da ditadura e reprime mobilizações populares. “Vamos seguir em resistência contra esse modelo de fome e de desintegração ao qual esse projeto libertário quer nos levar e fortalecer, sobretudo, a organização popular desde baixo”, disse.

Organizada em São Paulo, a atividade se conecta a uma mobilização mais ampla na Argentina, onde organismos como Madres de Plaza de Mayo, Abuelas de Plaza de Mayo e H.I.J.O.S. convocaram marchas pelos 50 anos do golpe com os lemas “Son 30 mil” e “Que digan dónde están”. Neste ano, o chamado também convida cada participante a levar a imagem de um desaparecido, transformando as ruas em um memorial coletivo.

Memória em disputa

O ato na capital paulista ocorre num momento em que a disputa pela memória da ditadura voltou ao centro da cena política argentina. Críticos do governo Milei denunciam o avanço de discursos revisionistas, o questionamento ao número de desaparecidos e o enfraquecimento de políticas públicas de memória e direitos humanos.

Ao mesmo tempo, as buscas por verdade seguem produzindo novos resultados. Em março deste ano, a Justiça argentina confirmou a identificação de 12 pessoas desaparecidas pela ditadura a partir de restos mortais encontrados em escavações realizadas em 2025 no antigo centro clandestino de La Perla, em Córdoba. A identificação foi feita pela Equipe Argentina de Antropologia Forense, referência internacional no trabalho de localização e reconhecimento das vítimas do terrorismo de Estado.

Editado por: Luís Indriunas

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