Entre o município de Santana de Parnaíba e o Pico do Jaraguá, em São Paulo, 23 anos de luta transformaram um acampamento em escola, em fábrica de alimentos saudáveis, em berço de cultura e símbolo do que a reforma agrária pode significar para o conjunto da sociedade.
A Comuna da Terra Irmã Alberta, território do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), foi palco no último sábado (21) de uma grande assembleia que marcou o lançamento de um comitê em defesa da comuna. O ato reuniu militantes, aliados, amigos e familiares — todos unidos em torno de uma pauta que transcende os limites do movimento: a conquista definitiva da terra e sua regularização.
“Foi uma assembleia e, ao mesmo tempo, um ato de solidariedade à luta da classe trabalhadora”, resume Renata Adrianna, militante do MST na região. “Nós entendemos que esse ano é um ano decisivo no que diz respeito à conquista desse território”, acrescenta no Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
A Comuna Irmã Alberta não é apenas um acampamento. Ao longo de mais de duas décadas, o espaço se consolidou como um território produtivo, educativo e ambiental. As famílias produzem alimentação saudável que abastece bancos de alimentos na cidade de São Paulo.
“É um território já consolidado no que diz respeito ao cuidado com o bem comum, com resguardar os recursos naturais que aqui existem”, afirma Renata. “Nós resguardamos nascentes. Temos aqui um corredor ecológico que liga Santana de Parnaíba ao Jaraguá.”
O nome do território homenageia Irmã Alberta, religiosa que dedicou sua vida à luta por justiça social e tornou-se uma referência para o movimento. A comuna hoje abriga não apenas produção agroecológica, mas também teatro, ciranda para as crianças, espaços de comercialização e formações políticas.
“Nós plantamos no nosso bosque Neusa Pavão, passamos o dia concentrados para esse diálogo”, descreve Renata sobre o evento de lançamento do comitê. “Foi um caráter de comer junto, de colocar nossas crianças no teatro, de pôr os nossos produtos na comercialização. Toda a beleza que esse território produziu.”
O símbolo que desafia o governo Tarcísio
A Comuna Irmã Alberta se tornou um símbolo ainda mais potente diante da postura do governo do estado de São Paulo. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) afirmou publicamente que não assentaria famílias no estado, uma declaração que escancara o descaso do poder público estadual com a reforma agrária e com a função social da terra.
Diante da negativa do governo estadual, o movimento intensifica a pressão para que a regularização ocorra por meio do governo federal, que já sinalizou positivamente. Desde julho do ano passado, o MST mantém diálogo com o superintendente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) e com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira. Em evento no Memorial Marielle Franco, o ministro apontou publicamente a necessidade de “zerar a situação” da área.
“Nós seguimos em diálogo. É um assunto que o governo está dialogando para que seja sanado. Aguardamos a consolidação por parte da empresa em relação com o Incra”, explica Renata, referindo-se aos trâmites burocráticos que envolvem a desapropriação da área.
A expectativa do movimento é que a conquista definitiva da Comuna Irmã Alberta ocorra ainda este ano. Por isso, o lançamento do comitê de defesa cumpre um papel estratégico: colocar a pauta como interesse comum, pressionar os poderes públicos e ampliar a solidariedade em torno da luta.
Agroecologia e clima: o território como laboratório
Em um momento de crescente crise climática, a experiência da Comuna Irmã Alberta se torna ainda mais relevante. Quem vive no campo e ocupa territórios urbanos como este está na linha de frente dos impactos ambientais. Mas também está na linha de frente da construção de respostas.
“A gente tem enfrentado o avanço dessas questões climáticas. E, sobretudo, quem vive no campo está mais exposto quando acontecem essas crises”, afirma Renata. “Então a gente precisa estudar, estudar, estudar sobre essa temática. Entender aonde o nosso pé pisa. A cabeça entende onde o pé pisa.”
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
