Enquanto o Brasil debate o fim da escala 6×1 e o futuro dos direitos trabalhistas, um nome do passado insiste em se fazer presente: Getúlio Vargas. Mais de 70 anos após sua morte, o ex-presidente continua no centro das disputas políticas e sociais. A obra Trabalhadores do Brasil: discursos à nação, organizada pelo jornalista e biógrafo Lira Neto, reúne pronunciamentos de Vargas sobre o mundo do trabalho desde sua juventude até os anos 1950 — e escancara a atualidade de um debate que parece nunca se esgotar.
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Lira Neto analisa a permanência de Vargas na agenda contemporânea, as resistências históricas aos direitos trabalhistas e as conexões entre os discursos do passado e as mobilizações de hoje, como a luta pelo fim da escala 6×1.
Lira Neto explica que a ideia do livro surgiu de um convite do editor Rafael Valim, que desejava reunir os discursos de Getúlio sobre o trabalho. “Como passei muito tempo estudando a Era Vargas, eu tinha mapeado essas falas. Fiz questão de contemplar não só episódios significativos para o próprio Getúlio, mas para a história do Brasil como um todo.”
A seleção inclui discursos desde a juventude de Vargas, como orador da faculdade de Direito, passando por sua atuação como deputado, governante do Rio Grande do Sul e, claro, os 18 anos no poder. “Todos os discursos são acompanhados de notas de contextualização sobre o momento em que foram feitos”, detalha.
Questionado se a visão de Vargas sobre o trabalho mudou ao longo do tempo, Lira Neto aponta uma coerência marcante. “Desde seus primeiros atos após a chegada à presidência, em 1930, ele já começa a aplicar legislação trabalhista no sentido de tentar uma aliança entre capital e trabalho.”
Ele lembra o contexto histórico. “Estamos falando de um período ainda muito recente da abolição da escravatura. As relações entre patrão e empregado ainda eram muito contaminadas pelo aspecto escravagista. Havia uma demanda reprimida dos movimentos sociais, principalmente dos sindicatos anarquistas e comunistas.”
Getúlio, segundo o biógrafo, teve o “senso histórico” de, ao mesmo tempo, tirar a pressão desses movimentos e se afirmar como o “pai dos pobres”. “Ele se apropriou das bandeiras do próprio movimento sindical. Isso já em 1930, 1931, com as primeiras leis que depois seriam consolidadas na CLT.”
CLT: avanço e limite sob o mesmo teto
Sobre a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), Lira Neto destaca a necessidade de revisitar o legado sem cair em anacronismos. “Negar a CLT em bloco é uma fantasia. Entre o capital e o trabalho tem que haver regulamentação, senão vira a lei do mais forte.”
Ele conta um episódio revelador: Getúlio, após uma reunião com empresários refratários às leis trabalhistas, teria dito a um ajudante de ordens: “Esses tubarões não percebem que eu estou tentando salvá-los. O que estou tentando fazer é diminuir a pressão deste caldeirão social.”
Mas o biógrafo também aponta os limites da legislação varguista. “O sindicato tinha que ter uma tutela do Estado. A CLT proibia a organização de centrais sindicais. É importante lembrar que nada em Getúlio é simples. Tudo é complexo, ambíguo, tem dubiedades.”
Ele recorda que o próprio Luiz Inácio Lula da Silva, então sindicalista, era um “antigetulista ferrenho” justamente por essas limitações. “Hoje, no prefácio deste livro, ele diz que, a partir da leitura da biografia, passou a compreender Getúlio e a admirá-lo, apesar de todas as limitações que a CLT impunha.”
Sobre a mobilização atual pelo fim da escala 6×1, Lira Neto estabelece uma ponte direta com o passado. “O discurso alarmista de que a redução da jornada vai quebrar as empresas é o mesmo que se fazia na época da implantação da legislação trabalhista. É o mesmo discurso que faziam os proprietários de terra quando da abolição da escravatura.”
Ele aponta que o Brasil chega atrasado a esse debate. “Enquanto parte do mundo discute a redução para quatro dias de trabalho, aqui ainda se discute se devemos ou não reduzir. As mesmas resistências que Getúlio enfrentou à época, nós vemos hoje se repetirem com o mesmo discurso oportunista e, por que não dizer, cínico.”
Para ouvir e assistir
O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira às 07h da manhã na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
