É mais um dos tantos lugares originais da Cidade Baixa. Cada um com propostas diferentes. É o caso da Macun, na Octávio Corrêa, 67, uma verdadeira livraria ‘florestal”, cafeteria, espaço para leituras e até gente que vai ali e aproveita o espaço para se entreter com os seus computadores portáteis e pessoais. O conceito de origem é a literatura ligada a diversos ecossistemas brasileiros, como o Cerrado, Amazonas, Caatinga e Pampa.
Logo na entrada, ainda na rua, tem um pé de pau-brasil, também chamado arabutã, ibirapiranga, ibirapitá, ibirapitanga, orabutã, pau-de-tinta, pau-pernambuco, pau-de-pernambuco e pau-rosado, uma planta leguminosa nativa da Mata Atlântica brasileira.
Macun, o nome do local, pode soar estranho, mas é uma corruptela (alteração na forma original de palavras, expressões ou textos, resultando em novas formas linguísticas, com pronúncia popular ou rápida reprodução) de Macunaíma, o herói sem caráter e obra-prima do modernismo brasileiro, escrito por Mário de Andrade e lançado em 1928.

O famoso filme homônimo, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade e estrelado por Grande Otelo, foi lançado em 1969 e se tornou uma lenda do cinema, visto por milhões de expectadores. Pois é esse Macun, que dois companheiros de vida, o catarinense André Lisboa e o pernambucano Pedro Nambuco, ambos com 44 anos, fundaram em outubro de 2023.
O local está dando mais do que certo. Quase sempre lotado. Pessoas lendo, mesas ocupadas com trabalhadores virtuais ou simpáticas senhoras conversando sobre a vida e se encontrando com as amigas. Pedro é o atendente permanente ali, junto com alguns funcionários. André é funcionário público, escritor, surfista, mora em Florianópolis, e vem ajudar o amigo quase todos os finais de semana.
Mergulho na literatura

“Mergulhamos no universo de Macunaíma há cinco anos, pesquisando, lendo, visitando locais que nos interessavam, ligados ao personagem. O conceito da livraria foi pesquisado na Argentina e no Uruguai, mas tem cara e alma bem brasileira. Nossos livros flertam entre o popular e o erudito”, garante Pedro, morando há 20 anos no RS, onde, além de sócio do local, é ator teatral e professor de geografia, com interesse específico em cartografia (ciência, arte e técnica de representar a superfície terrestre através de mapas, cartas e plantas).
“Usamos a cor vermelho rouge por causa do pau-brasil. Queremos trabalhar com nossos frequentadores um novo conceito de Macunaíma globalizado, que se refere a um Brasil muito mais global do que quando o pessoal começou a escrever lá nos anos do modernismo de Macunaíma na década de 1920. Se, naquela época, o país estava em uma busca de sua identidade, atualmente vemos um Brasil muito mais estabelecido mundialmente, mesmo com todas as diferenças que existem por aí”, explica Pedro.
Os livros que ali estão à venda são especiais mesmo. Só obra de qualidade, que deixa qualquer leitor voraz e contumaz com a boca aberta, querendo arrematar tudo. “É o tal conceito de globalização que nós oferecemos. A disposição dos livros é definida pela nacionalidade dos autores.”

“Se quero literatura nórdica, vai ter naquela seção. Se procuro um escritor cubano, vai ter a seção de Cuba ali. Acho que é uma ideia legal para conhecer um pouco daquele país através da literatura. Queremos tentar fazer um incentivo para consumir literatura de uma outra forma, que não seja só best-seller”, conta Pedro. E há também opções de literatura indígena para os interessados no tema e livros de autores de outras regiões brasileiras.
Gastronomia
Além de dois espaços no salão central – livraria e cafeteria – há um outro, separado por uma porta, com flores, plantas e representações dos vários ecossistemas brasileiros. E uma sala com dezenas de livros, que podem ser alugados por 15 dias para moradores do bairro sem qualquer custo. Uma biblioteca bem legal e com muitos títulos interessantes.

Ali também são realizadas oficinas literárias e clubes de leitura. “A maioria do nosso público é 30+ e podemos realizar também variados tipos de eventos culturais, palestras, lançamentos de livros e saraus”, afirma.
A parte gastronômica da operação conta com um café, que oferece tortas, bolos e salgados, mas também opções para o jantar. Inicialmente, os empreendedores pretendem oferecer uma carta de vinhos e chopes, mas existe um plano para, futuramente, disponibilizar drinques aos seus clientes. Entre as coisas gostosas que ali servem estão bolos de pamonha, de aipim, chocotorta, sorvetes, tostadas, cafés de várias origens e procedências e chocolates.

Além disso, a livraria pretende, mensalmente, dar destaque para a literatura de algum território, país ou região. Os empreendedores vão chamar a iniciativa de Ciclos e pretendem contar com eventos culturais e curadoria de livros para destacar a literatura do país escolhido naquele mês.
Para encerrar o roteiro pelo Macun, o visitante/cliente ainda pode curtir postais originais de Porto Alegre, elaborados por fotógrafos e artistas plásticos parceiros ou sair com uma ecobag do estabelecimento em cores variadas, principalmente o verde, significando a cor das matas dos sistemas ecológicos nacionais.
