A terceira mesa da 1ª Conferência Internacional Antifascista realizada na tarde desta sexta-feira (26), no Hotel Embaixador, em Porto Alegre, reuniu lideranças sindicais e políticas de diferentes países para debater “O enfrentamento dos trabalhadores ao neoliberalismo e ao fascismo”. Após uma manhã dedicada à análise da ofensiva da extrema direita no mundo e ao governo de Javier Milei, o debate da tarde enfatizou estratégias de resistência internacional da classe trabalhadora.
A mesa contou com representantes do Brasil, Argentina, Uruguai, México, País Basco e França, entre outros países. A mediação foi do professor Fábio de Moraes, secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e dirigente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).
Na abertura, Moraes definiu o encontro como um momento decisivo diante do avanço global da extrema direita. Segundo ele, a conferência “é o respiro para os povos do mundo que estão sendo massacrados pelos fascistas” e deve apontar “grandes respostas de enfrentamento”.

A avaliação de que o cenário exige coordenação internacional foi recorrente ao longo da mesa, tanto nas falas de dirigentes latino-americanos quanto europeus.
Memória histórica e ataques ao sindicalismo
O argentino Hugo Yasky, da Central Sindical dos Trabalhadores (CTA), situou o debate em uma perspectiva histórica ao lembrar que o movimento sindical sempre esteve no centro das ofensivas autoritárias. Ele destacou que o Brasil, ao eleger Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico, representa um contraponto direto ao neoliberalismo e ao neofascismo.

Yasky associou a atual conjuntura a processos históricos como o Operação Condor, ressaltando que, na década de 1970, o imperialismo articulou repressões violentas contra trabalhadores organizados. “Na Argentina houve 30 mil desaparecidos, a maioria do movimento sindical”, afirmou, destacando que os alvos eram jovens trabalhadores e dirigentes de base.
Anti-imperialismo e resistência no México
Representando o Sindicato Mexicano de Eletricistas (SME), Humberto Montes de Oca trouxe a perspectiva da América do Norte. Ele afirmou que o país vive uma forma específica de neofascismo e reiterou o histórico de conflitos com os Estados Unidos.

O dirigente criticou propostas como o muro defendido por Donald Trump e ressaltou que há resistência tanto no território mexicano quanto “nas próprias entranhas do imperialismo”. Segundo ele, o anti-imperialismo faz parte da formação histórica do povo mexicano.
Disputa pelo conceito de soberania
O sindicalista Aitor Mugia, do País Basco, chamou atenção para a disputa ideológica em torno do conceito de soberania na Europa. Segundo ele, a extrema direita tem se apropriado do termo para justificar militarização, guerras e políticas anti-imigração.

Mugia destacou que essa ressignificação associa soberania à segurança e à exploração de recursos naturais, o que, em sua avaliação, distorce o sentido defendido por movimentos populares e sindicais. Ele também ressaltou a importância da participação de sindicatos menores no debate internacional.
Críticas aos embargos
Carlos Martinez, da Federação Sindical Mundial no Cone Sul, criticou a geopolítica internacional e denunciou o bloqueio a Cuba. O dirigente também questionou a capacidade dos movimentos de intervir em crises regionais, como as de Cuba, Haiti e Venezuela, e apontou a necessidade de reflexão sobre estratégias políticas no continente.

“No meio de tudo isso, nós nos perguntamos o que fazer. Porque não vamos solucionar os problemas de Cuba, do Haiti, ou da Venezuela”. E apontou o caminho da frente ampla: “Desde os anos 90 falamos sobre o processo de governo da frente ampla, se a frente ampla estivesse em uma constância, talvez hoje estaríamos aí”.
Capital transnacional e “uberização” do trabalho
Mónica Gurina, da Central Autonoma dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Argentina, afirmou que é fundamental “fazer memória, buscar a verdade e, sobretudo, exigir justiça”, denunciando o que classificou como a cumplicidade do sistema judicial argentino com o genocídio e com o governo de Javier Milei.

A dirigente destacou que a mobilização envolve trabalhadores, operários, mulheres, comunidades e movimentos sociais, que, segundo ela, “denunciam e rejeitam de forma absoluta a ingerência criminosa dos Estados Unidos no mundo”.
Já a eurodeputada Leila Chaibi (LFI, França), destacou que o enfrentamento ao neoliberalismo também atravessa as empresas transnacionais como principais adversárias dos trabalhadores.

Segundo Gurina, essas corporações se organizam em escala global para maximizar lucros e enfraquecer a organização coletiva. Entre os exemplos, citou a “uberização” do trabalho, que fragmenta e precariza as relações trabalhistas, dificultando a mobilização sindical.
Projeto de desenvolvimento
O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, defendeu a construção de um projeto nacional de desenvolvimento como resposta ao avanço neoliberal. Ele criticou a concentração de renda no Brasil, afirmando que o 1% mais rico ampliou significativamente sua participação na riqueza nacional após a pandemia.

Araújo também alertou para a necessidade de unidade política entre os trabalhadores e rejeitou disputas de protagonismo dentro do campo progressista. “O que nos reforça é a necessidade de um projeto de desenvolvimento sustentável e inclusivo”, afirmou.
Organização da classe e disputa de consciência
Representando a Central Única dos Trabalhadores e Trabalhadoras (CUT), Quintino Severo enfatizou a necessidade de fortalecer a consciência política da classe trabalhadora. Segundo ele, o avanço da extrema direita entre trabalhadores evidencia a dificuldade do debate.

“Se fosse fácil, nossos associados não votariam na direita”, afirmou. Para o dirigente, o fascismo se alimenta das crises do capitalismo, o que exige maior capacidade de argumentação e organização por parte dos movimentos sindicais.
Nas intervenções finais, representantes de sindicatos brasileiros reforçaram a necessidade de ações concretas. Jair dos Santos, do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas, defendeu a construção de uma greve geral para reverter reformas aprovadas ainda nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Ele também relembrou o histórico de Porto Alegre como sede do Fórum Social Mundial e destacou a importância de retomar a articulação internacional dos trabalhadores.
Já Danilo Serafim, professor da rede estadual do Rio de Janeiro, defendeu a construção de uma frente antifascista global. Ele citou conflitos internacionais e denunciou ações de governos como o de Benjamin Netanyahu, apontando a necessidade de uma resposta coordenada da classe trabalhadora.

Ao longo da mesa, as falas convergiram para a avaliação de que o avanço do neoliberalismo e do fascismo exige respostas articuladas em nível global. A conferência foi apontada como um espaço inicial para a construção dessa agenda comum, com foco na unidade, na soberania dos povos e na reorganização do movimento sindical internacional.
A conferência segue até domingo (29), com o objetivo de consolidar propostas concretas e fortalecer redes de cooperação global. Confira aqui a programação completa.
