ANTIFASCISMO

Trabalhadores articulam resistência global ao neoliberalismo na 1ª Conferência Antifascista

Atividade segue até domingo (29), com o objetivo de consolidar propostas concretas e fortalecer redes de cooperação

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Após uma manhã dedicada à análise da ofensiva da extrema direita no mundo e ao governo de Javier Milei, o debate da tarde enfatizou estratégias de resistência internacional da classe trabalhadora
Após uma manhã dedicada à análise da ofensiva da extrema direita no mundo e ao governo de Javier Milei, o debate da tarde enfatizou estratégias de resistência internacional da classe trabalhadora | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

A terceira mesa da 1ª Conferência Internacional Antifascista realizada na tarde desta sexta-feira (26), no Hotel Embaixador, em Porto Alegre, reuniu lideranças sindicais e políticas de diferentes países para debater “O enfrentamento dos trabalhadores ao neoliberalismo e ao fascismo”. Após uma manhã dedicada à análise da ofensiva da extrema direita no mundo e ao governo de Javier Milei, o debate da tarde enfatizou estratégias de resistência internacional da classe trabalhadora.

A mesa contou com representantes do Brasil, Argentina, Uruguai, México, País Basco e França, entre outros países. A mediação foi do professor Fábio de Moraes, secretário-geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e dirigente do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp).

Na abertura, Moraes definiu o encontro como um momento decisivo diante do avanço global da extrema direita. Segundo ele, a conferência “é o respiro para os povos do mundo que estão sendo massacrados pelos fascistas” e deve apontar “grandes respostas de enfrentamento”.

Fábio de Moraes | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

A avaliação de que o cenário exige coordenação internacional foi recorrente ao longo da mesa, tanto nas falas de dirigentes latino-americanos quanto europeus.

Memória histórica e ataques ao sindicalismo

O argentino Hugo Yasky, da Central Sindical dos Trabalhadores (CTA), situou o debate em uma perspectiva histórica ao lembrar que o movimento sindical sempre esteve no centro das ofensivas autoritárias. Ele destacou que o Brasil, ao eleger Luiz Inácio Lula da Silva, um ex-metalúrgico, representa um contraponto direto ao neoliberalismo e ao neofascismo.

Hugo Yasky | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Yasky associou a atual conjuntura a processos históricos como o Operação Condor, ressaltando que, na década de 1970, o imperialismo articulou repressões violentas contra trabalhadores organizados. “Na Argentina houve 30 mil desaparecidos, a maioria do movimento sindical”, afirmou, destacando que os alvos eram jovens trabalhadores e dirigentes de base.

Anti-imperialismo e resistência no México

Representando o Sindicato Mexicano de Eletricistas (SME), Humberto Montes de Oca trouxe a perspectiva da América do Norte. Ele afirmou que o país vive uma forma específica de neofascismo e reiterou o histórico de conflitos com os Estados Unidos.

Humberto Montes de Oca | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

O dirigente criticou propostas como o muro defendido por Donald Trump e ressaltou que há resistência tanto no território mexicano quanto “nas próprias entranhas do imperialismo”. Segundo ele, o anti-imperialismo faz parte da formação histórica do povo mexicano.

Disputa pelo conceito de soberania

O sindicalista Aitor Mugia, do País Basco, chamou atenção para a disputa ideológica em torno do conceito de soberania na Europa. Segundo ele, a extrema direita tem se apropriado do termo para justificar militarização, guerras e políticas anti-imigração.

Aitor Mugia | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Mugia destacou que essa ressignificação associa soberania à segurança e à exploração de recursos naturais, o que, em sua avaliação, distorce o sentido defendido por movimentos populares e sindicais. Ele também ressaltou a importância da participação de sindicatos menores no debate internacional.

Críticas aos embargos

Carlos Martinez, da Federação Sindical Mundial no Cone Sul, criticou a geopolítica internacional e denunciou o bloqueio a Cuba. O dirigente também questionou a capacidade dos movimentos de intervir em crises regionais, como as de Cuba, Haiti e Venezuela, e apontou a necessidade de reflexão sobre estratégias políticas no continente.

Carlos Martinez | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

“No meio de tudo isso, nós nos perguntamos o que fazer. Porque não vamos solucionar os problemas de Cuba, do Haiti, ou da Venezuela”. E apontou o caminho da frente ampla: “Desde os anos 90 falamos sobre o processo de governo da frente ampla, se a frente ampla estivesse em uma constância, talvez hoje estaríamos aí”. 

Capital transnacional e “uberização” do trabalho

Mónica Gurina, da Central Autonoma dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Argentina, afirmou que é fundamental “fazer memória, buscar a verdade e, sobretudo, exigir justiça”, denunciando o que classificou como a cumplicidade do sistema judicial argentino com o genocídio e com o governo de Javier Milei.

Mónica Gurina | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

A dirigente destacou que a mobilização envolve trabalhadores, operários, mulheres, comunidades e movimentos sociais, que, segundo ela, “denunciam e rejeitam de forma absoluta a ingerência criminosa dos Estados Unidos no mundo”.

Já a eurodeputada Leila Chaibi (LFI, França), destacou que o enfrentamento ao neoliberalismo também atravessa as empresas transnacionais como principais adversárias dos trabalhadores.

Leila Chaibi | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Segundo Gurina, essas corporações se organizam em escala global para maximizar lucros e enfraquecer a organização coletiva. Entre os exemplos, citou a “uberização” do trabalho, que fragmenta e precariza as relações trabalhistas, dificultando a mobilização sindical.

Projeto de desenvolvimento 

O presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Adilson Araújo, defendeu a construção de um projeto nacional de desenvolvimento como resposta ao avanço neoliberal. Ele criticou a concentração de renda no Brasil, afirmando que o 1% mais rico ampliou significativamente sua participação na riqueza nacional após a pandemia.

Adilson Araújo | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Araújo também alertou para a necessidade de unidade política entre os trabalhadores e rejeitou disputas de protagonismo dentro do campo progressista. “O que nos reforça é a necessidade de um projeto de desenvolvimento sustentável e inclusivo”, afirmou.

Organização da classe e disputa de consciência

Representando a Central Única dos Trabalhadores e Trabalhadoras (CUT), Quintino Severo enfatizou a necessidade de fortalecer a consciência política da classe trabalhadora. Segundo ele, o avanço da extrema direita entre trabalhadores evidencia a dificuldade do debate.

Quintino Severo | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

“Se fosse fácil, nossos associados não votariam na direita”, afirmou. Para o dirigente, o fascismo se alimenta das crises do capitalismo, o que exige maior capacidade de argumentação e organização por parte dos movimentos sindicais.

Nas intervenções finais, representantes de sindicatos brasileiros reforçaram a necessidade de ações concretas. Jair dos Santos, do Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas, defendeu a construção de uma greve geral para reverter reformas aprovadas ainda nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Jair dos Santos | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Ele também relembrou o histórico de Porto Alegre como sede do Fórum Social Mundial e destacou a importância de retomar a articulação internacional dos trabalhadores.

Já Danilo Serafim, professor da rede estadual do Rio de Janeiro, defendeu a construção de uma frente antifascista global. Ele citou conflitos internacionais e denunciou ações de governos como o de Benjamin Netanyahu, apontando a necessidade de uma resposta coordenada da classe trabalhadora.

Danilo Serafim | Crédito: 1ª Conferência Internacional Antifascista/Reprodução

Ao longo da mesa, as falas convergiram para a avaliação de que o avanço do neoliberalismo e do fascismo exige respostas articuladas em nível global. A conferência foi apontada como um espaço inicial para a construção dessa agenda comum, com foco na unidade, na soberania dos povos e na reorganização do movimento sindical internacional.

A conferência segue até domingo (29), com o objetivo de consolidar propostas concretas e fortalecer redes de cooperação global. Confira aqui a programação completa.

Editado por: Marcelo Ferreira

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