A crise climática deixou de ser um alerta distante e impacta diretamente o cotidiano das cidades, especialmente quando falamos das favelas, subúrbios e periferias. O mais negacionista do tema já não tem mais argumento para ignorar o que está posto aos seus olhos: enchentes cada vez mais frequentes, calor extremo atingindo em cheio a saúde dos trabalhadores, falta d’água. Falar desse tema hoje exige encarar uma realidade tantas vezes negligenciada, que é a relação direta entre saneamento básico, saúde pública e racismo ambiental. O Rio vive diversas crises políticas e, em um ano eleitoral, essa discussão não pode ser secundária. É preciso colocar no centro do debate aquilo que define quem vive com dignidade e quem segue exposto à precariedade.
No Rio de Janeiro, essa realidade escancara uma desigualdade histórica. Dados recentes do Instituto Trata Brasil mostram que o estado tem quatro municípios entre os 20 piores do país em saneamento básico, como Belford Roxo, São Gonçalo, Duque de Caxias e São João de Meriti. Não é coincidência que essas cidades estejam na Baixada Fluminense e em regiões periféricas. É o retrato do racismo ambiental, onde a ausência de políticas públicas atinge de forma mais dura a população negra, pobre e trabalhadora.
A precariedade do saneamento não aparece só nos números, impõe-se no cotidiano, nas histórias que vemos e vivemos diuturnamente.
É a água que some e não chega, o esgoto que corre a céu aberto, a casa que alaga com qualquer chuva mais forte. Quantas reportagens já vimos de famílias humildes colocando seus eletrodomésticos em cima de tijolos porque a casa vira uma piscina sempre que chove no verão? Há quantos anos a mesma coisa? Esse cenário amplia doenças, sobrecarrega o sistema de saúde e aprofunda desigualdades.
Não se trata apenas de péssima infraestrutura, mas de uma violação contínua do direito à vida, que se repete todos os dias nos mesmos territórios.
Enquanto isso, o poder público insiste em um modelo que transforma direitos em mercadoria. A entrega da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) à iniciativa privada foi vendida como solução, mas a população sabe, e sente no bolso e na rotina outra realidade: tarifas mais altas e serviços que seguem desiguais. E ruins, deveras ruins! A água, que deveria ser garantida como direito humano, é tratada como produto, aprofundando dia após dia a exclusão de quem mais precisa.
Não é normal nem aceitável que, em pleno século 21, ainda existam territórios no Rio de Janeiro sem acesso adequado à água e ao saneamento, onde falta saneamento, aumentam as internações hospitalares, as doenças e a insegurança ambiental. Amigos, defender saneamento básico é defender a vida, é enfrentar a crise climática com justiça social e é garantir que nenhum cidadão seja tratado como descartável!
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É absolutamente urgente colocar esse tema no centro das decisões políticas. Fiscalizar concessionárias, garantir transparência, ampliar investimentos e assegurar acesso universal à água são medidas que precisam ser assumidas como prioridade. Em ano de eleição, é preciso cobrar: quem não apresenta compromisso com o saneamento básico não está comprometido com a vida da população. Desconfie de quem não se importa com essa pauta e fala de defesa à vida.
Monitoramento popular
Na semana passada, demos um passo importante com o lançamento do site da plataforma De Olho na Água, uma iniciativa construída coletivamente por movimentos sociais, pesquisadores da Fiocruz e com relação direta com o nosso mandato desde a sua criação.
A plataforma reúne dados em tempo real, com georreferenciamento, gráficos e registros feitos pela própria população sobre acesso à água, esgotamento sanitário e outras condições de saneamento. É um instrumento de denúncia, monitoramento e pressão política.
Acesse www.deolhonaagua.eco.br, participe, registre sua realidade e faça a sua denúncia!
A transformação engrena quando a população se organiza, produz e dissemina informação e cobra seus direitos. E aí, tá de olho na água?
*Dani Monteiro é deputada estadual (Psol/RJ) e presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
