Há 62 anos, o 1º de abril de 1964 se tornou um marco do período mais sombrio da história recente do Brasil: o da ditadura cívico-militar, que duraria até 1985. Apesar das mais de seis décadas, o pensamento autoritário dos que promoveram o golpe na democracia continua vivo.
“Os ecos estão aí. As feridas não estão cicatrizadas e essa história continua nos assombrando. Ela está viva, não é uma página virada”, avalia o jornalista e historiador Moacir Assunção em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “A nossa briga é constante para tentar ultrapassar essa história, mas ela está presente, lamentavelmente.”
Assunção atribui à falta de punição dos militares envolvidos na ditadura e aos crimes cometidos no período a certa permissão para que a ideia de ruptura democrática fosse normalizada. O episódio mais recente que comprova isso foi a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. “Como não houve a devida punição aos militares golpistas, havia quem achasse natural, normal que os militares dessem golpe em pleno século 21. A gente poderia ter vivido uma farsa horrível em função do governo anterior, de alguém que apoiava e admirava a ditadura, e tinha influência nos militares que ainda tinham essa ideia incrustrada no pensamento”, avalia.
O historiador também atribui a continuidade do pensamento golpista a outros dois fatores. “Até pouco tempo, havia a crença, por parte dos militares, que eles eram o grupo escolhido para guiar os rumos do país, e isso não desapareceu. O excesso de poder de algumas instâncias da sociedade, notoriamente o parlamento, também é uma herança autoritária. É como se a gente tivesse um ditador dentro da gente e, às vezes, ele aparece”, afirma.
Para Assunção, as eleições desse ano vão ser bastante definidoras. “Vamos optar pela continuidade de um governo que, com todos os problemas que sabemos que existem, segue respeitando a Constituição e as liberdades democráticas, ou vamos partir para uma aventura de um senador absolutamente inexpressivo [Flávio Bolsonaro] que, aliado ao governador de Goiás [Ronaldo Caiado], é defensor da ruptura? O Caiado já disse que o primeiro ato [caso se torne presidente] será anistiar os que atentaram contra a democracia”, diz.
Moacir Assunção elogia as recentes produções do cinema nacional Ainda estou aqui e O agente secreto como forma de trazer conhecimento aos brasileiros sobre o que, de fato, aconteceu durante o período da ditadura. Além disso, o historiador considera importante que, tendo essa consciência, a população se manifeste contra os arroubos golpistas. Um dos exemplos que ele cita é o processo de mobilização popular contra a PEC da Blindagem. “O povo na rua é uma excelente vacina contra o autoritarismo”, conclui.
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