Desde o dia 3 de janeiro, quando os Estados Unidos bombardearam a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro junto a sua esposa, a deputada nacional Cilia Flores, a situação do país é complexa, segundo a perspectiva de quase todos os analistas políticos consultados pelo Brasil de Fato.
A recente suspensão das sanções contra a presidente interina, Delcy Rodríguez, pelo Departamento do Tesouro estadunidense, anunciada na última quarta-feira (1º), movimentou as redes sociais com críticas e respaldos.
Internamente, após viver o terror das bombas, a maioria dos analistas busca ponderar as decisões tomadas pelo governo interino com o contexto de ameaças e a necessidade de desescalar a relação com a potência do norte.
O analista político venezuelano Reinaldo Tamires vai nessa direção, considerando a retirada das sanções uma vitória da “diplomacia de paz” levada a cabo pela Venezuela.
“A tendência indica um impacto profundamente positivo para a figura de Delcy Rodríguez, emergindo como a arquiteta de uma vitória diplomática e econômica. A estabilidade interna parece garantida desde que se mantenha a firmeza na redistribuição da riqueza e a vigilância para que este novo ciclo não desvirtue o horizonte socialista e a luta pela soberania”, avalia Tamires.
Para o especialista em política internacional, ao contrário da retórica do governo estadunidense sobre um eventual “controle” da política venezuelana, a geopolítica do capital teve que ceder diante da resistência do modelo venezuelano e o fim das sanções “representa uma derrota implícita da estratégia de ‘Estado paralelo’ utilizada pelo império”.
“A gestão da presidenta encarregada Delcy Rodríguez transformou a resistência em uma nova diplomacia bolivariana de paz, consolidando-se como uma figura de continuidade institucional e legitimidade ao liderar diálogos com atores de peso, incluindo a administração Trump em seu retorno ao poder. O levantamento das medidas coercitivas unilaterais (MCU) valida a tese do ‘Modelo Antibloqueio’, posicionando o Estado venezuelano como um ator indispensável para a estabilidade energética global”, aponta o cientista político.
“No que concerne à estabilidade política interna, o fim das sanções é encarado como uma ferramenta para a emancipação e para o fortalecimento do Poder Popular”, destaca, afirmando ainda que o governo venezuelano está focado “na melhoria dos serviços públicos e na proteção social, buscando garantir que o novo fluxo de capital alimente os motores produtivos e as comunas.”
Por outro lado, Tamires não despreza os riscos que ainda persistem, diante de uma relação delicada e complexa com os EUA, inaugurada após o 3 de janeiro.
“Existe o risco do surgimento de uma ‘paz burguesa’ que beneficie apenas o capital transnacional”, alerta o analista. “O desafio da práxis reside em transformar a renda petroleira recuperada em meios de produção nas mãos do povo, combatendo a tentativa do sistema-mundo capitalista de reabsorver a Venezuela e recuperar espaços econômicos perdidos pelos EUA”, conclui.
Após o anúncio de suspensão das sanções contra Delcy Rodríguez, a presidenta interina utilizou as redes sociais para celebrar a “normalização e o fortalecimento” das relações bilaterais recém-retomadas, e disse esperar que esse seja o primeiro passo para a suspensão de todas as sanções vigentes contra o país.
“Confiamos em que este avanço permita a suspensão das sanções vigentes sobre o nosso país, que permita edificar e garantir uma agenda de cooperação binacional efetiva em benefício dos nossos povos”, afirmou.
Enquanto isso, Nicolás Maduro e Cilia Flores seguem sob custódia do governo estadunidense em Nova York. Eles são acusados de possuir relações com o tráfico de drogas, embora os advogados de defesa denunciem que não foram apresentadas quaisquer provas das acusações. O próprio presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a desementir a si próprio, afirmando a inexistência do chamado Cartel de los Soles, utilizado como argumento para justificar a agressão militar e o sequestro do casal presidencial.
