O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, declarou nesta terça-feira (7) que a Rússia está recebendo um grande número de pedidos de recursos energéticos em meio à crise energética global.
“Há um número enorme de pedidos para a compra de nossos recursos de fontes alternativas. Estamos negociando da maneira que melhor atenda aos nossos interesses”, declarou o porta-voz do Kremlin.
Ao comentar sobre possíveis contatos com países europeus, Peskov mencionou a cooperação com a Sérvia e a Hungria. Ele acrescentou que o mundo já está imerso em uma crise econômica e energética bastante séria, cuja escala aumenta a cada dia. “É claro que o mercado e as condições de mercado no setor de energia mudaram completamente”, acrescentou.
As declarações do porta-voz do Kremlin surgem em meio a um cenário de desequilíbrio energético global provocado pela guerra dos EUA e Israel iniciada contra o Irã, desestabilizando o mercado global. Moscou, no entanto, vem atuando de forma estratégica, buscando ampliar sua influência e se posicionar como um ator relevante nesse contexto.
O economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada da Academia Russa de Economia Nacional, Andrey Zubarev, em entrevista ao Brasil de Fato, aponta que Moscou tem ampliado a sua gama de oportunidades em meio ao conflito no Oriente Médio. Em primeiro lugar, por conta da alta dos preços do petróleo, alavancando os dividendos relacionados à exportação de petróleo.
Ao mesmo tempo, há maior margem de manobra para o uso da “frota fantasma” por parte da Rússia, através da qual a Rússia utiliza navios sob bandeiras de diversos países para contornar sanções impostas pelo Ocidente. Zubarev nota que, devido à urgência do conflito atual, o controle sobre essa frota pode ter sido temporariamente relaxado.
Zubarev acrescenta que, se o conflito e o bloqueio no Estreito de Ormuz se prolongar, as reservas estratégicas dos países começarão a acabar, o que “levará a um ponto de alta turbulência e choque no mercado global”.
“No momento, os atores tentam manter uma aparência de calma para estabilizar as expectativas. Após um mês e meio de conflito, muitos países podem começar a enfrentar problemas com fornecimento de petróleo”, afirma o analista.
Neste contexto, a Rússia tem alavancado um posto estratégico em meio à instabilidade energética global, beneficiando da reconfiguração das rotas de fornecimento e do aumento dos preços internacionais de petróleo.
Diante da incerteza em torno do bloqueio logístico do Estreito de Ormuz, e a dificuldade de reposição imediata de estoques estratégicos por parte de economias dependentes de importação, Moscou amplia seu poder de barganha ao redirecionar fluxos energéticos para mercados considerados mais “amigáveis”.
Em 30 de março, foi noticiado que a Sérvia havia concordado com a Rússia em estender seu contrato de fornecimento de gás por três meses em condições favoráveis. Segundo o presidente sérvio, Aleksandar Vucic, o acordo foi alcançado durante uma conversa telefônica com o presidente russo, Vladimir Putin.
No entanto, em 5 de abril, surgiram relatos de que explosivos haviam sido descobertos perto do gasoduto que liga a Sérvia à Hungria. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, classificou o incidente como uma ameaça à infraestrutura, e o ministro das Relações Exteriores, Péter Szijjártó, afirmou que a tentativa de sabotagem constitui um ataque à soberania do país.
Zelensky propõe ‘trégua energética’
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, por sua vez, anunciou nesta terça-feira (7) que Kiev, por meio de intermediários dos EUA, transmitiu a Moscou uma proposta para que ambos cessassem ataques à infraestrutura energética entre os dois países.
“Se a Rússia estiver disposta a cessar os ataques ao nosso setor energético, estaremos dispostos a responder da mesma forma. E o lado russo tem essa proposta — por meio dos americanos”, disse Zelensky em um pronunciamento gravado.
Ele acrescentou que as Forças Armadas da Ucrânia buscam limitar a capacidade da Rússia de lucrar com a crise no setor petrolífero causada pela guerra entre os EUA, Israel e Irã.
“Tudo o que os russos puderem ganhar com a queda dos preços do petróleo será usado para financiar a guerra. Essa prioridade ainda não mudou. Portanto, qualquer restrição que impusermos à sua capacidade de exportar petróleo é correta”, afirmou o presidente ucraniano.
Atrevés da mediação do presidente dos EUA, Donald Trump, a Rússia suspendeu temporariamente os ataques às instalações energéticas ucranianas no início do ano. O “cessar-fogo energético” durou quatro dias, de 29 de janeiro a 1º de fevereiro.
Recentemente, a Ucrânia intensificou seus ataques às instalações petrolíferas russas. O porto de Ust-Luga, na região de Leningrado, tem sido alvo de ataques repetidos. Já na região de Novorossiysk, o maior terminal petrolífero do sul da Rússia também chegou a ser atingido.
