Entrevista

‘Irã mostra que soberania vem de autossuficiência bélica e anticolonialismo’, diz professora iraniana

Som das explosões formou o pano de fundo da solidariedade em meio às manifestações diárias em Teerã, diz Zenaib Ghasemi

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A professora de estudos americanos da Universidade de Teerã, Zeinab Ghassemi Tari | Crédito: Reprodução

Os EUA e seus aliados levaram poucas horas para confirmar a desconfiança das autoridades e do povo iranianos em relação ao ainda frágil cessar-fogo na guerra ilegal contra o Irã. Enquanto infraestruturas iranianas já foram atacadas — com revide quase imediato de Teerã contra o Kuwait e os Emirados Árabes Unidos —, Israel lançou o ataque mais brutal contra o Líbano até agora, assassinando mais de 200 pessoas no centro de Beirute.

O Brasil de Fato conversou com a professora de estudos americanos da Universidade de Teerã, Zeinab Ghassemi Tari, que afirmou que “embora o cessar-fogo possa tecnicamente ainda existir no papel, a postura de ‘dedo no gatilho’ anunciada pelo Irã está claramente sendo colocada em prática” e, caso essas agressões não sejam contidas, “é improvável que a trégua atual se mantenha”.

Para ela, as comemorações vistas nas ruas de cidades iranianas após o anúncio do cessar-fogo contêm um misto de alegria e cautela, pois “em vez de uma onda de otimismo desenfreado, essas comemorações parecem ser uma expressão de orgulho nacional”, já que o Irã se mostrou capaz de resistir à coalizão da maior potência militar do planeta, aliada ao regime sionista e às monarquias árabes da região.

Por isso, Zeinab Ghassemi vê o Irã na iminência de protagonizar uma “mudança definitiva na ordem global”, pois, se o país for capaz de garantir que seus 10 pontos sejam cumpridos, ele deve “emergir não apenas como uma potência regional, mas como uma potência mundial”.

Do ponto de vista pessoal, ela admite que “esses quarenta dias foram, sem exagero, o período mais difícil e angustiante que já vivi”. Com um bebê de sete meses de idade, a professora iraniana lembra que “cada tremor dos bombardeios causava um calafrio no meu coração”, no entanto, ela afirma confiante: “Nunca me senti tão orgulhosa de ser iraniana!”.

Confira a entrevista exclusiva:

Brasil de Fato: Noventa minutos antes de Trump supostamente ter ordenado “o fim da civilização iraniana”, ele recuou mais uma vez, concordando em negociar com base nos dez pontos propostos por Teerã. Muitos analistas interpretaram isso como uma vitória histórica para o Irã, e alguns chegaram até a descrevê-la como uma humilhação para Trump. Como a opinião pública iraniana e o governo reagiram às ameaças e à retórica inflamada de Trump? Como você avalia os acontecimentos das últimas horas? Há muitas imagens de pessoas nas ruas comemorando; há uma onda de otimismo entre a população, ou a maioria das pessoas ainda está cautelosa?

Zeinab Ghassemi Tari: Lembre-se de que o presidente dos EUA foi forçado a recuar de ameaças explícitas de destruir a infraestrutura do Irã em várias ocasiões, uma consequência direta da resiliência militar e da dissuasão estratégica demonstradas pelo Irã.

Nas horas imediatamente seguintes ao anúncio do cessar-fogo, o sentimento predominante entre os iranianos era de profunda cautela. Esse ceticismo não é abstrato; está enraizado em uma longa e amarga história de negociações enganosas com os Estados Unidos. Para citar exemplos recentes, tanto durante conflitos anteriores quanto na guerra mais recente, o Irã sofreu ataques das forças americanas e israelenses enquanto ambas as partes estavam ostensivamente envolvidas em negociações diplomáticas.

Após declarações esclarecedoras do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã (CSSN) a respeito da proposta de Teerã de dez pontos, o sentimento público mudou gradualmente para um otimismo cauteloso, mas a cautela continua sendo a postura dominante. Notavelmente, a própria declaração oficial do CSSN, embora reconheça a retirada de Trump como um desenvolvimento positivo, adverte explicitamente sobre a falta de confiabilidade dos americanos e da entidade sionista. Além disso, estipula que qualquer violação dos termos do cessar-fogo pelos EUA ou seus aliados desencadeará uma resposta iraniana imediata e proporcional. Esta não é uma mensagem de vitória ingênua, mas de vigilância estratégica.

Quanto ao clima público e às comemorações, sim, as pessoas estão comemorando, mas sua alegria requer nuances. Em vez de uma onda de otimismo desenfreado, essas comemorações parecem ser uma expressão de orgulho nacional: orgulho da capacidade do Irã de se manter sozinho contra uma coalizão dos Estados Unidos, da entidade sionista e de seus aliados regionais. O público em geral vê cada vez mais este cessar-fogo como uma demonstração clara do sucesso militar iraniano, especialmente dada a natureza única do confronto: de um lado, uma frente unida composta pelos EUA, Israel e seus aliados regionais; do outro, o Irã, em grande parte sozinho, defendendo, com sucesso, sua soberania contra uma ameaça militar existencial.

Assim, os eventos das últimas horas podem ser avaliados como um momento crucial de vitória tática para a diplomacia e a dissuasão iranianas, mas a maioria dos iranianos permanece, na melhor das hipóteses, cautelosamente otimista. O histórico de enganos dos EUA, desde o golpe de 1953 até a retirada do JCPOA e os recentes ataques durante as negociações, lança uma longa sombra. Portanto, embora haja uma sensação tangível de conquista e alívio, o sentimento público dominante pode ser melhor descrito como “esperançoso, mas vigilante”. Qualquer otimismo sustentável dependerá inteiramente de os EUA e seus aliados cumprirem os termos deste acordo; algo em relação ao qual muitos iranianos, e seu governo, permanecem profundamente céticos.

Após o anúncio do cessar-fogo, o Irã sofreu um ataque a uma refinaria de petróleo na Ilha de Lavan e à infraestrutura na Ilha de Kharg. O Irã declarou que “mantém o dedo no gatilho” e já retaliou com ataques a usinas de dessalinização e usinas de energia no Kuwait e nos Emirados Árabes Unidos. Existe o risco de que o cessar-fogo fracasse?

Sim, há um risco significativo de que o cessar-fogo fracasse. Os eventos das últimas horas sugerem que a cessação das hostilidades é extremamente frágil, e os ataques de retaliação já foram retomados. Segundo relatos, três usinas de energia e estações de destilação de água do Kuwait foram atingidas por drones iranianos nesta manhã, como retaliação imediata a um ataque contra a refinaria de petróleo de Lavan, no Irã, ocorrido no início do mesmo dia.

Informações de inteligência apontam para um país do Golfo Pérsico — muito provavelmente os Emirados Árabes Unidos — como responsável pelo ataque, com o objetivo de sabotar o cessar-fogo.

Além do teatro de operações do Golfo Pérsico, o Irã também está preparando uma resposta militar à agressão israelense realizada no Líbano. Isso indica que o confronto não se limita a uma única frente, mas pode se expandir regionalmente.

Em conjunto, esses acontecimentos demonstram um padrão claro: a retaliação já ocorreu, com ataques iranianos à infraestrutura do Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos após ataques em solo iraniano em Lavan e na Ilha de Kharg. O cessar-fogo original está sendo violado na prática pelos adversários do Irã.

Portanto, embora o cessar-fogo possa tecnicamente ainda existir no papel, a postura de “dedo no gatilho” anunciada pelo Irã está claramente sendo colocada em prática. A menos que os Estados do Golfo Pérsico e Israel sejam levados a um acordo vinculativo e verificável, é improvável que a trégua atual se mantenha.

Entre as dez propostas que Teerã apresentou aos EUA, com a mediação do primeiro-ministro paquistanês, qual você considera a mais importante? Há algum ponto que o governo estaria disposto a ceder? E quais pontos seriam inegociáveis?

Devo começar afirmando que todas as dez propostas apresentadas aos Estados Unidos por intermédio do primeiro-ministro paquistanês são essenciais para uma resolução abrangente e justa. O Irã vê isso como um pacote unificado.

Dito isso, se formos destacar o componente mais estrategicamente significativo e inovador desse acordo, seria a passagem controlada pelo Estreito de Ormuz em coordenação com as forças armadas iranianas.

Este é um ponto crítico, pois vai além de um cessar-fogo temporário ou de um simples retorno ao status quo pré-guerra. Ele busca tornar duradoura uma situação que sempre foi um ponto de tensão volátil. Ao formalizar essa coordenação, o Irã mantém sua influência legítima e soberana sobre uma das mais importantes artérias geoestratégicas do petróleo global.

O resultado deste conflito não deve ser uma diminuição da posição regional do Irã. Ao contrário, esta disposição garante que o poder do Irã seja mantido sobre o Estreito. Ela fornece um mecanismo estruturado não apenas para a segurança marítima diária, mas também serve como uma alavanca vital para controlar e, se necessário, punir futuras agressões e violações do direito internacional. Nesse sentido, este ponto garante que o Irã saia deste processo mais poderoso e mais seguro em seu domínio marítimo imediato.

Interessante. Achei que você fosse falar do levantamento das sanções primárias e secundárias.

O levantamento das sanções primárias e secundárias é, obviamente, muito importante. Mas isso está em discussão desde 2018. É a mesma velha disputa em que estamos presos há anos. A questão do estreito é diferente. Isso é novo. E não é apenas uma promessa no papel, é uma vantagem real e prática. É algo que o Irã pode usar imediatamente. Não é ficar esperando que o outro lado aja de boa-fé; é uma ferramenta que controlamos em tempo real quando as bombas começarem a cair. Essa é a verdadeira mudança.

Segundo o governo paquistanês, o cessar-fogo inclui o Líbano. Mas Israel já declarou que não reconhece o cessar-fogo no Líbano. Posteriormente, o Irã reafirmou a declaração inicial do Paquistão. Em última análise, o que será da invasão ilegal de Israel ao sul do Líbano, bem como de seus ataques contínuos contra civis e infraestrutura libaneses, inclusive o ataque de hoje ao centro de Beirute, que já matou dezenas de pessoas? Israel ainda tem forças para resistir às ofensivas devastadoras do Irã?

Apesar da inclusão do Líbano no quadro do cessar-fogo pelo Paquistão e da reafirmação do Irã, Israel se recusa a reconhecê-lo. Autoridades e forças armadas iranianas afirmaram que o destino da invasão ilegal de Israel e dos ataques a civis libaneses será enfrentado com força, não com diplomacia. Como disse uma alta autoridade iraniana à Al-Jazeera: o cessar-fogo inclui a região, e Israel está quebrando suas promessas conscientemente. Somente balas o deterão.

Em retaliação imediata ao ataque ao Líbano, o Irã fechou parcialmente o Estreito de Ormuz. Além disso, o Irã informou aos mediadores que só participará da reunião em Islamabad se for garantido um cessar-fogo para o Líbano. A mensagem é clara: as ações de Israel no Líbano serão recebidas tanto com pressão econômica estratégica quanto com punição direta.

Desde a Guerra do Vietnã, os EUA não recuavam diante da retaliação militar de um país que invadiram (o caso do Afeganistão é diferente, após 20 anos de ocupação). Se os EUA não traírem o Irã novamente e aceitarem os 10 pontos exigidos por Teerã, ou a maioria deles, que consequências essa derrota do Império teria no equilíbrio de poder na geopolítica regional e global? Que lições o Sul Global poderia aprender com o caso iraniano?

O acordo representaria uma enorme perda estratégica para Trump, a maior desde o Vietnã, e marcaria uma mudança definitiva na ordem global. A consequência seria o Irã emergir não apenas como uma potência regional, mas como uma potência mundial.

Este é um status que o Irã conquistou apesar de 47 anos de sanções brutais e agressão constante. O sucesso tem raízes na economia de resistência do Irã e em sua capacidade de produzir seu próprio aparato militar defensivo, independente tanto do Oriente quanto do Ocidente. Ao ser capaz de produzir para suprir suas necessidades internas e, assim, ajustar-se e se recuperar, o Irã provou ser imune à pressão externa.

Para o Sul Global, a lição é profunda: a soberania não é um presente, mas um produto da autossuficiência e do espírito anticolonialista. A resistência do Irã está enraizada em sua identidade xiita e no princípio de se opor ao opressor em nome dos oprimidos. Se o Império for forçado a recuar deste campo de batalha, isso sinalizará para o mundo inteiro que uma nova realidade multipolar chegou.

Como você vivenciou pessoalmente os inúmeros bombardeios sofridos pelo Irã nas últimas semanas? Além das milhares de mortes — incluindo líderes importantes e inúmeras crianças —, quais foram as principais perdas que você sofreu como resultado dos ataques dos EUA e de Israel?

Esses quarenta dias foram, sem exagero, o período mais difícil e angustiante que já vivi. O peso desse período não está apenas no número de ataques, mas na dor constante e lancinante de perder tanto figuras-chave quanto iranianos comuns. Recebemos a triste notícia do assassinato de altos funcionários, uma perda recebida com impunidade e o silêncio ensurdecedor da chamada comunidade internacional.

Logo no primeiro dia desta guerra, mais de 160 crianças foram mortas quando mísseis americanos atingiram a escola em Minab. Alguns de seus corpos nunca foram recuperados; permanecem soterrados sob os escombros de um lugar originalmente destinado ao aprendizado e ao riso.

Como mãe de um bebê de sete meses, cada tremor dos bombardeios causava um calafrio no meu coração. Nesses momentos, a crueldade dessa agressão se torna intensamente pessoal.

No entanto, em meio a esse terror, o espírito do povo iraniano nas ruas tem sido profundamente inspirador. Noite após noite, durante quarenta dias seguidos de bombardeios, no mês sagrado do Ramadã e na véspera do nosso Ano Novo, o Nowruz, eles nunca se refugiaram em suas casas. Eles permaneceram nas ruas. Transformaram o som das explosões em um pano de fundo para a solidariedade. Nunca me senti tão orgulhosa de ser iraniana.

Editado por: Luís Indriunas

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