“Pedras são sonhos na mão
Voam na imensidão
Ideias que ganham vida e criam asas
Voam na imensidão
Teus sonhos, minha canção
Pedras e sonhos são nossas únicas armas
Pedras são sonhos na mão
Flores que brotam, brotam do chão
Se as pedras não voam os sonhos são em vão
E em tempos de escuridão
O sol se põe, põe, se põe, põe
Mas se um dias as pedras cantam
Se um dia as pedras cantam
Se cantam as pedras os sonhos dançarão”.
Passei dias em busca de uma inspiração que fosse capaz de traduzir, de forma genuína, o significado do Abril Vermelho e todo o sentimento que essa luta histórica desperta não só em mim, mas em todas as pessoas que dedicam suas vidas ao sonho da Reforma Agrária Popular. Foi quando, de repente, me lembrei da música Pedras e Sonhos, da banda carioca El Efecto, cujo trecho destaquei acima. A arte sempre foi uma grande aliada na leitura e na compreensão das complexidades do mundo. Não à toa, a cultura é um dos eixos centrais do meu mandato na Câmara Municipal do Rio.
A canção que abre este artigo simboliza a resistência da humanidade contra os podres poderes do sistema capitalista, que explora, destrói e mata. E é exatamente isso que nós, do Movimento dos Trabalhadores e das Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST), fazemos há mais de 40 anos. Por meio da organização coletiva e popular, enfrentamos os grandes latifúndios improdutivos, denunciamos as violências no campo, resistimos ao avanço predatório do agronegócio e perseguimos um único ideal: implantar um projeto nacional de Reforma Agrária para democratizar o acesso à terra, produzir alimentos saudáveis, combater a fome e os crimes ambientais cometidos pelo agro e reduzir as inúmeras desigualdades sociais que nos atravessam.
Há 30 anos, 21 mártires da luta pela terra foram assassinados pelo Estado brasileiro no Pará enquanto defendiam esse sonho. No dia 17 de abril de 1996, a Polícia Militar atacou 1.500 trabalhadores rurais sem-terra durante uma manifestação. Além dos mortos, a ação criminosa resultou no derramamento de sangue de outras 69 pessoas. O massacre de Eldorado do Carajás ficou conhecido como um dos mais graves episódios de violência no campo e se tornou símbolo da luta permanente por justiça agrária no Brasil. Por isso, o 17 de abril é lembrado como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária.
Durante este mês, o MST realiza em todo o país a Jornada Nacional de Lutas em Defesa da Reforma Agrária. Numa grande mobilização envolvendo três mil trabalhadores sem-terra, vamos retomar a marcha que foi brutalmente interrompida pela PM há três décadas. Como dizia o líder Cícero Guedes, covardemente executado pelas costas há 13 anos em Campos dos Goytacazes, cada pedaço de terra conquistado carrega o nome de quem tombou lutando por justiça.
E não foram poucos os que deram o próprio sangue nessa disputa extremamente desigual. Segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre 1985 e 2024, cerca de 1.833 pessoas foram assassinadas em decorrência de conflitos no campo no Brasil. Até novembro de 2024, foram 11 mortes no campo, quase metade delas cometidas por fazendeiros.
Muita gente ainda não compreende, mas no bojo da luta pela Reforma Agrária estão várias outras pautas interligadas, que são indispensáveis para garantir o futuro da humanidade. É o caso do combate ao modelo capitalista e predatório do agronegócio, que além de não produzir alimentos para a mesa do povo brasileiro, ainda promove a destruição das florestas e do meio ambiente, com queimadas e monocultivo de commodities para exportação, usando alta quantidade de agrotóxicos. Outro ponto importante é o enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão, praticado massivamente no campo pelos empresários do agro.
É por isso que o MST defende a Reforma Agrária Popular como um projeto de agricultura sustentável. Queremos produzir alimentos para todo o povo brasileiro do campo e da cidade, e combater a fome, em contraposição ao agronegócio, que concentra a terra nas mãos de poucos, espalhando mais miséria e destruição.
O Abril Vermelho é sinônimo de luta por comida de verdade e sem veneno no prato e por dignidade para o povo trabalhador. A terra tem que cumprir sua função social: produzir vida, alimento e futuro.
Estamos em um ano decisivo de eleição. Muitas coisas estão em jogo. Além da disputa acirrada entre democracia e golpismo, é fundamental que as pessoas saibam separar o joio do trigo e escolher representantes verdadeiramente comprometidos com esse projeto popular de soberania democrática, fundiária, alimentar e, por quê não dizer, humanitária.
É triste que o Abril Vermelho precise existir. Em memória daqueles que tombaram na luta contra a violência no campo e em respeito aos companheiros e companheiras que seguem em marcha, de punhos cerrados e com “pedras e sonhos nas mãos”. Afinal, “pedras e sonhos são nossas únicas armas”.
*Maíra do MST é vereadora da cidade do Rio de Janeiro, professora de História e doutoranda em História pela UERJ
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
