A definição de estratégias para as eleições de 2026 no Rio Grande do Sul tem intensificado disputas internas no campo da esquerda. Esta semana, o Psol, após um período de aproximação e apoio a uma possível composição mais ampla liderada pelo PT no estado, setores do partido passaram a defender publicamente a construção de candidaturas próprias ao governo estadual e ao Senado, marcando uma inflexão no debate político interno.
A posição foi formalizada pela corrente Fortalecer o Psol, que deliberou, em reunião realizada no sábado (11), a defesa de candidatura própria. A decisão, segundo o grupo, foi construída a partir de consultas à militância e a diferentes frentes de atuação política e sindical, incluindo representantes ligados a entidades como Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers), Sindicato dos Técnico-Administrativos em Educação da Ufrgs, Ufcspa e IFRS (Assufrgs), Sindicato dos Servidores da Justiça do Rio Grande do Sul (Sindjus) e movimentos da juventude universitária. A proposta será encaminhada à Executiva Estadual do partido e deve ser debatida no Diretório Estadual.
Do apoio à ruptura
O Psol no Rio Grande do Sul havia determinado inicialmente uma linha de aproximação com o PT, sobretudo em torno da necessidade de enfrentar candidaturas da direita e da extrema direita. Adotando assim, apoio ao até então pré-candidato Edegar Pretto. Um dos pontos centrais da divergência foi o apoio petista à pré-candidatura de Juliana Brizola, do PDT, ao governo do Rio Grande do Sul.
Para a corrente Fortalecer o Psol, essa articulação representou uma inflexão política que justificaria a revisão da estratégia anterior. No documento divulgado, o grupo afirma que a decisão do PT de apoiar um nome de outro partido ocorreu “sem ter havido qualquer discussão de um programa”, o que, na avaliação da corrente, compromete a construção de um projeto político comum.
Disputa de estratégia na esquerda
O debate reflete divergências mais amplas sobre qual deve ser a estratégia da esquerda para enfrentar a extrema direita nas eleições de 2026. De um lado, há setores que defendem alianças amplas, inclusive com partidos de centro, como forma de ampliar a capacidade eleitoral e garantir vitórias em cenários polarizados. De outro, correntes como a Fortalecer o Psol sustentam que a construção de candidaturas próprias, com programas mais definidos, seria fundamental para manter a identidade política e mobilizar a base social.
Na nota, a corrente afirma que “o centro da eleição 2026 é derrotar a extrema direita” e que, para isso, seria necessário um enfrentamento político e ideológico mais consistente. O texto argumenta que alianças que se deslocam ao centro ou à direita poderiam enfraquecer esse objetivo, ao invés de fortalecê-lo.
O documento também faz referência a experiências internacionais, apontando que governos que adotaram políticas consideradas mais moderadas abriram espaço, posteriormente, para o avanço de forças de extrema direita em países como Chile e Argentina.
Programa e críticas às alianças
A defesa de candidatura própria está associada, no posicionamento da corrente, à necessidade de apresentar um programa político específico. Entre os eixos mencionados estão a reestatização de serviços públicos, o fortalecimento do funcionalismo, políticas de desenvolvimento sustentável e medidas voltadas à agricultura familiar.
Embora a nota apresente esses pontos de forma detalhada, o centro do argumento político está na crítica ao processo de definição de alianças. O texto afirma que “aceitar a imposição” de uma candidatura sem debate programático “desmoraliza a política” e reforça a necessidade de construção de alternativas próprias.
Nota da corrente Fortalecer o Psol (íntegra)
Eleição no RS: Derrotar Zucco com um programa de esquerda, com candidatura própria do Psol
O Fortalecer o Psol RS vem à público defender candidatura própria do Psol, ante à intervenção do PT para apoiar Juliana Brizola – PDT.
O centro da eleição 2026 é derrotar a extrema direita, lá em Brasília e, aqui, no Rio Grande do Sul. A política necessária, então, não é “avançar rumo à direita”, mas sim, uma política que arme o conjunto da nossa sociedade para este enfrentamento político-ideológico pesado, em curso desde o golpe. Nesse sentido, a intervenção do PT para apoiar a candidatura de Juliana Brizola/PDT é uma intervenção que vai à direita. Há que se aprender com as experiências dos governos que foram à direita e abriram espaço para o avanço da extrema-direita, de fascistas que vencerem as eleições e não a esquerda. Basta olhar para o Chile e a Argentina.
O Psol, partido que nasceu do esforço por manter a coerência na defesa dos interesses da Classe Trabalhadora, do fortalecimento do Estado Brasileiro por um projeto de desenvolvimento econômico e social inclusivo, democrático, sustentável, internacionalista – deve apresentar candidatura própria ao governo e ao Senado no Rio Grande do Sul, com um Programa de Esquerda que gere transformações estruturais, dê esperança e anime os lutadores sociais para esta tarefa.
Um programa que comece por:
- Reestatização da água e da energia – Corsan e CEEE, privatizadas no governo Leite. Além do fim dos pedágios e implantação da Tarifa Zero no transporte coletivo.
- Impedir a privatização de parte da gestão de 98 Escolas, através da PPP de Leite, com leilão marcado par 26 de junho, na B3- Bolsa de Valores de São Paulo, com mobilização das Comunidades. Além da “desprivatização” da Secretaria de Educação, trocando seu comando e assessoria dominados por Lemann, Itaú-Unibanco, Gerdau por nossas Universidades Públicas e IFs, Uergs, até as Comunitárias.
- Fortalecimento dos serviços públicos básicos para toda a população como Saúde, Segurança, Transporte, Cultura – com concursos públicos e urgente recuperação dos salários dos servidores, brutalmente arrochados pelos governos Leite e Sartori.
- Um projeto de desenvolvimento sustentável, com a revogação do autolicenciamento ambiental para empresários. E medidas urgentes para frear a emergência climática.
- Uma política agrícola voltada a alimentar o nosso Povo, com prioridade ao apoio à Agricultura Familiar; Reforma Agrária e revogação da Lei Kandir.
Aceitar a imposição do nome de Juliana Brizola do PDT para o governo do Estado, sem ter havido qualquer discussão de um Programa desmoraliza a política. Era preciso ter pactuado um programa para recuperar o Rio Grande, que tem um Estado reduzido drasticamente em suas funções para atender às necessidades do nosso Povo, depois de 12 anos de governos neoliberais de Leite e Sartori – governos sustentados pelo campo da direita e extrema-direita – do PSD e MDB, ao PL/Zucco, PP, Novo, Republicanos, União Brasil, até PDT e PSB, estes últimos “até a véspera do fim da janela partidária 2026”.
Diante de tudo isso, buscando manter nossa coerência de esquerda consequente, que sempre esteve do lado certo da História, reiteramos a defesa de que o Psol apresente candidatura própria para o governo do estado, no primeiro turno das eleições, e para o Senado, para representar o Programa que interessa a maioria de Homens, Mulheres e Jovens – a nossa Classe Trabalhadora e que recoloque o Rio Grande do Sul no lugar que já ocupou no cenário nacional, antes dos anos do neoliberalismo.
Porto Alegre, 12 de abril de 2026.
Berna Menezes – Secretária Geral Nacional do Psol
Mário Azeredo – Coordenação Nacional do Fortalecer o Psol
Neiva Lazzarotto – Executiva Estadual do Psol RS, Diretora do 39° Núcleo do Cpers
Paulo Brack – Vereador do Psol de Porto Alegre, Professor da Ufrgs
Gianfrancesco Santos dos Santos – Dirigente da Juventude do Psol
Matheus Vicente – Pres. Psol Sapucaia e membro do Diretório Estadual do Psol RS
Gabriella da Rosa – Coordenação da Juventude Ocupe
Maristela Piedade – Direção Nacional da Fasubra
Laís Camisolão – Coordenação da Assufrgs
Giovanni Ferraz – Direção do Sindjus RS
Silvana Souza – Direção do 39° Núcleo do Cpers
Karla Sadoski e Silva – 39° Núcleo do Cpers
Jaime de Assis Pereira – Comissão de Mobilização contra privatização do Dmae
