O enfraquecimento da esquerda no Rio de Janeiro abre espaço para “aventureiros e salvadores da pátria”, avalia o sociólogo e cientista político Emir Sader. A declaração foi feita no podcast Três por Quatro, da Rádio Brasil de Fato, que debateu a crise política estrutural do Estado, marcada por sete governadores com mandatos cassados, direitos políticos suspensos ou presos nos últimos 30 anos.
“Há um debilitamento da esquerda no Rio que afeta inclusive o PT e o Psol. Isso favorece aventureiros e salvadores da pátria. A fragmentação enfraquece a política“, afirmou Sader.
Para ele, o PT não tem uma visão própria do Rio, em parte pelas divisões internas, e isso é parte da crise da esquerda no estado. “A capital tende a ser progressista por suas próprias características, mas a esquerda não aproveitou isso para construir uma alternativa. O mundo cultural e artístico tem peso determinante em grandes mobilizações, mas a esquerda não encontrou ainda qual é o seu eixo para construir um projeto de futuro”, diz.
O sociólogo alerta também para o oportunismo, citando a aproximação do prefeito Eduardo Paes (PSD) com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cuja popularidade chegou ao Rio, segundo Sader, “provavelmente pela primeira vez”, como demonstrou visita recente do presidente ao estado.
Crise estrutural com fio condutor
Também no Três por Quatro, a economista Juliane Furno identifica um padrão que atravessa os escândalos: uso intensivo da máquina pública, alianças com setores conservadores e promessa de ordem ou proteção, elementos que invocariam um caudilhismo local. “A linguagem muda, ora mais religiosa, ora mais tecnocrática, mas a forma de reprodução do poder continua muito parecida: uso intensivo da máquina pública e alianças que envolvem igrejas e partes do crime organizado”, diz.
Segundo a economista, o eleitor fluminense não é essenciamente conservador. A eleição de Eduardo Paes em primeiro turno em 2024, com 60% dos votos válidos, contra Alexandre Ramagem, candidato do PL e de Jair Bolsonaro, seria um exemplo disso. “Por outro lado, há um componente conservador religioso muito forte — a capilaridade das igrejas neopentecostais é enorme — e o discurso da ordem tem muita adesão, mesmo nas favelas, que são paradoxalmente as mais atingidas por uma política conservadora de segurança pública”, afirma.
Para Furno, a análise sobre os ex-governadores presos precisa ir além do punitivismo. “Precisamos politizar esse sentimento e mostrar o paradoxo: todos esses governadores representam o mesmo campo político“, diz. “O problema não é individual, é sistêmico e está ligado ao uso da máquina pública para fins privados e eleitorais.”
Cenário em aberto
O debate sobre o futuro político do estado ocorre em meio a um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF).
O tribunal analisa o modelo de eleição para o mandato-tampão de governador após a cassação do ex governador Cláudio Castro (PL) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sua posterior renúncia.
O placar, até o momento, é de 4 a 1 pela realização de eleições indiretas, com deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) escolhendo o novo governador. O único voto favorável às eleições diretas foi do ministro Cristiano Zanin.
O julgamento foi suspenso após pedido de vista do ministro Flávio Dino, que aguarda a formalização da decisão do TSE sobre a cassação de Castro. Interinamente, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), Ricardo Couto, ocupa o cargo de governador.
Para 2026, Paes lidera todos os cenários das pesquisas com possibilidade de vitória já no primeiro turno. Sader propõe que, se eleito governador, Paes assuma o desafio de erradicar o analfabetismo no estado — mobilizando estudantes e professores nos métodos de Paulo Freire. “O analfabeto não é um cidadão pleno”, afirmou.
Para ver e ouvir
O videocast Três Por Quatro vai ao ar toda terça-feira às 15h ao vivo no YouTube e nas principais plataformas de podcasts, como o Spotify.
