A expansão acelerada da Inteligência Artificial no mundo do trabalho tem imposto desafios inéditos às organizações sindicais, ao mesmo tempo em que abre um campo estratégico de renovação da ação coletiva. Algoritmos já organizam escalas, definem metas, monitoram produtividade, influenciam promoções, demissões e decisões disciplinares, afetando diretamente as condições de trabalho em diversos setores. Nesse contexto, uma pesquisa inédita revela que o movimento sindical nas Américas já tem construído respostas institucionais, políticas e organizativas para disputar os rumos e transformações da tecnologia no trabalho.
Os dados sobre as respostas sindicais diante dos impactos da Inteligência Artificial (IA) foram revelados na pesquisa “Inteligência Artificial e Sindicatos nas Américas”, realizada por um grupo de pesquisadores vinculados à Cátedra Oscar Sala do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), coordenada pelo professor Virgílio Almeida, em parceria com a Confederação Sindical de Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas (CSA-TUCA).
Sindicatos despertam para a agenda da Inteligência Artificial
Participaram da consulta 17 centrais sindicais de 13 países da região, representando mais de 20 milhões de trabalhadores da Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Costa Rica, Equador, México, Paraguai, Peru e República Dominicana.
Os resultados da pesquisa indicam que o movimento sindical vive um momento de transição e aprendizado diante da transformação digital. Sobre o eixo organização, por exemplo, aproximadamente 44% das centrais informaram já ter criado unidades, grupos de trabalho ou estruturas específicas voltadas à análise dos impactos da automação, da digitalização e da Inteligência Artificial no mundo do trabalho. Esse dado revela que as centrais têm reconhecido a IA como um tema estratégico e permanente da agenda sindical.
Com relação à realização de debates relacionados aos princípios éticos da IA, 50% das centrais da região declararam que já debatem a transparência no uso de sistemas de IA nas relações de trabalho. Esses debates envolvem questões como vigilância digital, monitoramento algorítmico de desempenho, definição automatizada de metas e uso intensivo de dados pessoais dos trabalhadores. A transparência surge, assim, como um primeiro eixo de reivindicação sindical frente à opacidade dos sistemas tecnológicos.
A pesquisa buscou avaliar não apenas percepções, mas também as estruturas e estratégias em construção considerando o contexto, os desafios, as necessidades e as oportunidades do movimento sindical diante do processo de digitalização, para orientar estratégias e a formulação de políticas públicas. O estudo, conduzido pelos pesquisadores Caroline Coelho, Cristina Dias, Celso Malaquias, Camila Cintra e Atahualpa Blanchet, oferece um panorama regional sobre como as centrais sindicais estão reagindo aos impactos da IA no mundo do trabalho.
Avanços e limites na incorporação da IA à negociação coletiva
Apesar desses avanços institucionais, a pesquisa do IEA-USP também revela limites importantes. Apenas 16,7% das centrais relataram possuir informações ou experiências de negociação coletiva envolvendo diretamente a Inteligência Artificial. Esse dado evidencia que ainda existe uma distância significativa entre o reconhecimento da importância do tema e sua tradução em cláusulas contratuais e instrumentos normativos voltados à garantia de direitos.
Os pesquisadores mapearam exemplos concretos em curso como, por exemplo, a negociação coletiva dos bancários no Brasil, um caso emblemático de resistência e adaptação à IA com foco na requalificação voltada para a era digital com perspectiva de gênero. O levantamento também identificou experiências em que se encontram cláusulas que envolvem aspectos como a gestão algorítmica e os impactos da automação e da interação humano-algoritmo, incluindo os ganhos de produtividade e a possibilidade de redução da jornada de trabalho no marco da transição justa e regulada.
Com relação ao debate sobre discriminação algorítmica no ambiente de trabalho, as centrais pesquisadas têm investido na criação de unidades específicas para discutir de forma sistemática os riscos de vieses no uso de ferramentas de IA. Considerando que sistemas automatizados já influenciam processos de recrutamento, promoções, avaliação de desempenho, remuneração por produtividade e bloqueios em plataformas digitais, esse dado aponta para um campo prioritário de atuação futura do movimento sindical.
Formação, pressão política e produção de conhecimento como eixos centrais
A formação e a educação aparecem como a principal prioridade das centrais sindicais, concentrando 30% das respostas. Esse dado revela que os sindicatos entendem a necessidade do letramento digital e da apropriação crítica do conhecimento sobre IA como condição para a ação política e processos de negociação coletiva.
Com relação às estratégias sindicais para oferecer respostas aos impactos da IA no mundo do trabalho, a pressão política e regulatória é considerada prioritária por 20% do total das centrais, indicando a importância atribuída à incidência na construção de marcos legais que protejam direitos trabalhistas diante da automação e da gestão algorítmica.
Pesquisa, produção de conhecimento próprio e ação sindical direta, incluindo a inserção do tema nas mesas de negociação, aparecem com 15% cada, enquanto o monitoramento de algoritmos, as parcerias institucionais e a inclusão digital completam o conjunto de estratégias priorizadas pelas entidades consultadas.
Esse desenho revela um movimento sindical que busca reduzir assimetrias de informação e construir capacidades técnicas antes de avançar para formas mais densas de regulação e fiscalização.
Para Caroline Coelho, pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados da USP, coordenadora da pesquisa e também responsável pela comunicação da Confederação Sindical das Américas (CSA), o estudo revela que o sindicalismo está entrando em uma nova fase de interação com a transformação digital.
“Os sindicatos estão percebendo que a Inteligência Artificial não é um tema apenas tecnológico, mas profundamente político. Discutir algoritmos significa discutir poder, transparência e direitos no trabalho. O desafio agora é transformar esse despertar institucional em ações, em capacidade concreta de negociação coletiva, regulação e participação sindical na governança das tecnologias”, destacou.
A Inteligência Artificial como oportunidade de reorganização sindical
Longe de representar apenas uma ameaça, a Inteligência Artificial aparece, nos dados da pesquisa, como um vetor potencial de renovação da ação sindical. A criação de unidades específicas, o interesse crescente por parcerias com universidades e centros de pesquisa, a produção de dados próprios e o debate sobre cláusulas coletivas, convênios e recomendações indicam que os sindicatos começam a disputar ativamente o significado social da tecnologia.
Ao reivindicar transparência algorítmica, direito à explicação, revisão humana de decisões automatizadas, proteção de dados, requalificação profissional e participação sindical na governança dos sistemas, o movimento sindical reafirma seu papel histórico de mediação entre inovação tecnológica e direitos sociais. Em um cenário de crescente automação e plataformização, essa mediação torna-se ainda mais estratégica e necessária.
Ao mesmo tempo, o aumento de produtividade proporcionado pelo uso de ferramentas de IA reforça a posição do movimento sindical em favor da redução da jornada de trabalho com manutenção da remuneração. Em um contexto em que a tecnologia permite produzir mais em menos tempo, torna-se ainda mais evidente a necessidade de redistribuir os ganhos de produtividade de forma socialmente justa.
Nos países da região, esse debate ganha concretude em propostas como o fim da escala 6×1 no Brasil, apontando para modelos de organização do trabalho que priorizem o bem-estar, a saúde física e mental e a conciliação entre vida laboral e pessoal. Trata-se não apenas de uma demanda por melhores condições de trabalho, mas de uma disputa sobre quem se apropria dos benefícios gerados pela transformação tecnológica.
Uma agenda em construção com alto potencial político
A pesquisa “Inteligência Artificial e Sindicatos nas Américas” mostra que o sindicalismo regional já despertou para os impactos da IA e iniciou um processo de reorganização institucional e estratégica. Embora a incorporação do tema em negociações coletivas e o enfrentamento da discriminação algorítmica ainda sejam reduzidos, os dados apontam para uma agenda em construção, marcada por aprendizado, articulação e busca por novas ferramentas de ação coletiva.
Para Rafael Freire, secretário-geral da Confederação Sindical das Américas, os resultados da pesquisa reforçam a importância de que o movimento sindical participe ativamente do debate sobre o futuro da tecnologia.
“A Inteligência Artificial já está impactando salários, jornada, avaliação de desempenho e até decisões de demissão. Não podemos permitir que essas transformações ocorram sem participação democrática. O sindicalismo tem um papel fundamental em garantir que a tecnologia seja orientada pelo interesse público e pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras”, afirmou.
Freire destacou ainda que a CSA pretende ampliar a agenda regional sobre o tema.“Precisamos fortalecer a formação sindical, produzir conhecimento próprio e levar o debate sobre Inteligência Artificial para a negociação coletiva e para os marcos regulatórios nacionais e internacionais, como estamos fazendo agora nos debates da Comissão sobre Plataformas para a Conferência Internacional do Trabalho da Organização Internacional do Trabalho (OIT).”
Ao investir em formação, produzir conhecimento próprio, articular posições regionais e avançar na regulação e na negociação coletiva, os sindicatos têm a oportunidade de transformar a Inteligência Artificial em um campo de fortalecimento de sua relevância social e política. O estudo do IEA-USP evidencia que essa transformação já começou e que o futuro do trabalho nas Américas dependerá, em grande medida, da capacidade do movimento sindical de ocupar esse novo terreno de disputa.
* Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e do Grupo de Pesquisa Transformação Digital e Sociedade da PUC-SP.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
