CORRE DO TRABALHO

1º de Maio gaúcho se reinventa unindo memória, mobilização, cultura e lazer em 2026

A Praça da Alfândega, palco do Festival dos Trabalhadores e Trabalhadoras, traz uma importante memória das lutas

No audio source provided.
Praça da Alfândega foi palco de muitas lutas dos trabalhadores no centro de Porto Alegre
Praça da Alfândega foi palco de muitas lutas dos trabalhadores no centro de Porto Alegre | Crédito: Clarisse Londero

O 1º de Maio deste ano será celebrado de forma inédita com a realização do Festival dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, um evento gratuito que ocorrerá simultaneamente em cinco importantes cidades do Rio Grande do Sul: Porto Alegre, Caxias do Sul, Santa Maria, Passo Fundo e Pelotas. Com entrada franca, a iniciativa busca transformar o 1º de Maio em um espaço de encontro, mobilização e celebração, reafirmando a relevância histórica da data para a classe trabalhadora.

Sob o lema “lutar, celebrar e ocupar as ruas”, o festival reunirá apresentações culturais, feiras de economia solidária e manifestações em defesa de direitos sociais. A proposta é integrar arte e ativismo, promovendo um ambiente em que a cultura popular dialogue com pautas urgentes do mundo do trabalho, fortalecendo a consciência coletiva e a participação cidadã.

Cultura e luta sindical unidas

Promovido por centrais sindicais em parceria com produtores culturais, o evento pretende ressignificar o 1º de Maio como um espaço vivo de conscientização e esperança. Além das atividades culturais, o festival destacará reivindicações históricas e contemporâneas, como a redução da jornada de trabalho, o fim da escala 6×1, o combate ao feminicídio e a defesa dos serviços públicos. A presença de feiras de economia solidária também reforça o compromisso com modelos alternativos de desenvolvimento baseados na justiça social e na valorização do trabalho.

Ao Brasil de Fato, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), Amarildo Cenci, celebra que o 1º de Maio é o momento de a classe trabalhadora reafirmar sua capacidade de transformar a realidade e construir um futuro mais igualitário. Já para Rodrigo Callais, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB/RS), o objetivo é dialogar com a população através da arte e do lazer, fortalecendo a unidade contra retrocessos e em defesa da democracia.

Primeira Greve Geral em Porto Alegre 

A Praça da Alfândega, palco do Festival dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Capital, traz uma importante memória das lutas por direitos. Em outubro de 1906, Porto Alegre protagonizou um dos episódios mais emblemáticos da história do movimento operário brasileiro.

Conhecida como a “Greve dos 21 Dias”, a paralisação mobilizou cerca de 5 mil trabalhadores entre os dias 3 e 21 daquele mês e se consolidou como a primeira greve geral do Rio Grande do Sul. O movimento, que se concentrava na Praça da Alfândega para a realização dos atos, reivindicava a redução da jornada para oito horas diárias, bandeira que simbolizava a luta por melhores condições de trabalho, dignidade e direitos sociais.

Grevistas em passeata pela antiga rua da Praia, hoje rua dos Andradas | Crédito: Reprodução/Autor desconhecido

A mobilização ocorreu em um contexto de transformações profundas nas relações de trabalho, impulsionadas pelo avanço da industrialização e pela reorganização da produção urbana. Nesse cenário, Porto Alegre se tornava um importante polo de articulação das demandas operárias, em sintonia com movimentos nacionais e internacionais que defendiam a redução da jornada de trabalho.

Das oficinas de mármore às ruas

O estopim do movimento ocorreu em 26 de agosto de 1906, quando os marmoristas Henrique Faccini, Carlos Jansson e Arthur do Vale Quaresma entregaram uma carta ao proprietário da marmoraria Jacob Aloys Friedrichs. No documento, reivindicavam a redução da jornada para oito horas. Diante da recusa patronal, os trabalhadores iniciaram uma greve que rapidamente se transformou em referência para outras categorias.

Henrique Faccini, Carlos Jansson e Arthur do Vale Quaresma, os iniciadores da greve na marmoraria de Jacob Aloys Friedrichs | Crédito: Reprodução/Autor desconhecido

A reivindicação não era inédita. Desde 1897, os socialistas gaúchos defendiam a jornada de oito horas, incluída no programa do Partido Socialista do Rio Grande do Sul. Em abril de 1906, o tema foi reafirmado durante o Primeiro Congresso Operário Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, que colocou a pauta no centro das lutas trabalhistas do país. Embora o estado não tenha enviado representantes ao encontro, militantes anarquistas de Porto Alegre tiveram acesso às resoluções aprovadas e se inspiraram nelas para fortalecer o movimento local.

Entre os signatários da carta entregue à marmoraria estavam militantes anarquistas, como Henrique Faccini e André Arjonas. Para esses ativistas, a jornada de oito horas contribuiria para reduzir o desemprego e permitir que os trabalhadores se instruíssem e se organizassem politicamente. Na época, os marmoristas, profissionais qualificados e de difícil substituição, chegavam a trabalhar de 11 a 14 horas por dia.

Cartão Postal antigo mostra a Praça da Alfândega por volta de 1915 | Crédito: Autor desconhecido

Após a deflagração da greve, os trabalhadores fundaram o Sindicato dos Marmoristas e convocaram outras categorias a aderirem à luta. Durante todo o mês de setembro, a solidariedade operária cresceu na capital gaúcha. No dia 3 de outubro, metalúrgicos, estivadores, pedreiros, têxteis, trabalhadores dos bondes e diversas outras categorias cruzaram os braços, transformando a mobilização em uma greve geral.

Negociações, lideranças e organização operária

Diante da paralisação, o empresariado local se organizou sob a liderança do industrial Alberto Bins e apresentou uma proposta de conciliação que previa a jornada de nove horas diárias. Considerada insuficiente pelos grevistas, a oferta foi inicialmente rejeitada.

Durante o movimento, novas lideranças ganharam projeção. Os socialistas Francisco Xavier da Costa e Carlos Cavaco assumiram papel de destaque, reconhecidos por organizarem grandes comícios na Praça da Alfândega para mobilizar os trabalhadores e as trabalhadoras. A atuação desses dirigentes contribuiu para a criação da Federação Operária do Rio Grande do Sul (Forgs), entidade que se tornaria a mais importante organização da classe trabalhadora gaúcha durante a Primeira República.

Enquanto patrões e operários travavam negociações, os governos estadual e municipal limitaram-se à vigilância das manifestações e à proteção dos trabalhadores que desejavam permanecer em atividade, sem intervir diretamente no conflito.

Com o prolongamento da greve e o agravamento das dificuldades econômicas, o movimento começou a perder força a partir de 17 de outubro. Pressionados pela falta de recursos, muitos trabalhadores aceitaram a jornada de nove horas e retornaram ao trabalho. No dia 21, a imprensa local anunciou o encerramento da paralisação.

Apesar de não alcançar plenamente a reivindicação inicial, a redução da jornada representou uma conquista parcial e fortaleceu a consciência de classe e a organização dos trabalhadores em Porto Alegre.

Conquistas parciais

Mesmo após o término da greve geral, seus desdobramentos continuaram a repercutir. Muitos trabalhadores qualificados recusaram-se a retornar às fábricas, optando por abrir pequenas oficinas ou buscar oportunidades em outras cidades.

A União dos Chapeleiros do Rio de Janeiro chegou a enviar passagens para operários interessados em trabalhar na capital federal. Em 15 de outubro, ainda durante a paralisação, trabalhadores da fábrica de chapéus Tcheirs partiram para o Rio. Após o fim do movimento, em 26 de outubro, outros grupos embarcaram para São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires, evidenciando redes de solidariedade que ultrapassavam as fronteiras regionais e nacionais.

Os marmoristas, que haviam iniciado a mobilização, mantiveram-se firmes e conseguiram conquistar a jornada de oito horas, tornando-se símbolo da resistência operária no estado.

Ao analisar o contexto da Greve Geral de 1906, o professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Benito Schmidt ressalta que o movimento ocorreu em um período sem qualquer amparo legal aos direitos trabalhistas. Segundo ele, no Rio Grande do Sul, o governo estadual, influenciado pela filosofia positivista de Auguste Comte, adotava uma postura de não intervenção nos conflitos entre patrões e empregados, o que torna ainda mais expressiva a conquista da jornada de nove horas.

“Na época em que a greve de 1906 ocorreu, não havia nenhuma legislação garantidora dos direitos conquistados pelos/as trabalhadores/as. No Rio Grande do Sul, aliás, o governo estadual, inspirado pela filosofia positivista do pensador francês Auguste Comte, defendia a não intromissão do Estado nos conflitos trabalhistas. Assim a conquista da jornada de 9 horas pode ser lida como uma grande vitória. O movimento de 1906 demonstrou o poder de mobilização dos/as operários/as gaúchos/as, os/as quais, a partir de então, passaram a ser vistos – pelo governo, pelos patrões e pela sociedade em geral – como um elemento importante do cenário político. Em uma época como a nossa de precarização das relações de trabalho e de lutas por jornadas mais reduzidas de trabalho, aqueles/as homens e mulheres que pararam as fábricas e oficinas em Porto Alegre talvez tenham muito a nos ensinar”, contextualiza.

Protagonismo feminino 

A greve de 1906 também revelou mudanças profundas na composição da classe trabalhadora. Segundo a historiadora Joan Bak, o movimento ocorreu em um contexto marcado pela introdução de novas modalidades de produção, pela crescente presença feminina no mercado de trabalho e pela transformação de comunidades étnicas em uma classe operária mais heterogênea e consciente de seus interesses.

Com a expansão industrial, a mão de obra feminina tornou-se cada vez mais presente nas fábricas. Na Companhia Fabril Porto-Alegrense, uma das maiores e mais mecanizadas da cidade, cerca de três quartos dos trabalhadores eram mulheres, submetidas a baixos salários e condições insalubres.

A participação feminina na greve foi expressiva e visível. No dia 5 de outubro, trabalhadoras das indústrias têxteis, de vestuário e de doces aderiram ao movimento de forma organizada. Submetidas a rígida disciplina fabril e à desigualdade salarial, marcharam pelas ruas exigindo a jornada de oito horas.

Em um gesto simbólico de identidade e resistência, rasgaram vestidos vermelhos para confeccionar laços usados no peito como emblema de classe. As manifestações transformaram-se em verdadeiros espetáculos públicos, evidenciando a força e a visibilidade das mulheres na luta operária.

A relevância histórica do papel das trabalhadoras é retomada pela atriz, encenadora, figurinista, cenógrafa, pesquisadora, professora e produtora teatral Tânia Farias. Atuadora da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz desde 1984, ela coordena a Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo e integra a montagem do espetáculo Às vezes, tanto se grita, que alguém se acorda, que reconta a história operária e resgata o protagonismo feminino.

Espetáculo “Às vezes tanto se grita até que alguém se acorda”, do Ói Nóis Aqui Traveiz | Crédito: Eugênio Barboza

Refletindo sobre o contexto da greve, Tânia destaca a brutalidade das condições de trabalho da época. “Eu penso que, primeiro, quando a gente tá se debruçando sobre esse momento dessa sequência de greves, porque as condições de trabalho eram desumanas, a gente tinha mulheres e crianças trabalhando exaustivamente, crianças que ficavam de pé à frente de máquinas o dia inteiro”, afirma. Ela pontua que as jornadas podiam chegar a 14 horas diárias, evidenciando a exploração enfrentada pelas mulheres trabalhadoras.

Para a artista, as lutas do passado dialogam diretamente com as reivindicações contemporâneas. “É importante para a gente se dar conta de que é muito importante a luta que nós estamos travando hoje pelo fim da escala 6×1. Guardadas as proporções e a diferença histórica dos momentos, existe algo para se tirar daí”, ressalta. Ela acrescenta: “A gente hoje vem justamente lutando para que não se viva para trabalhar, para que as pessoas tenham um tempo para amar, para estar com os seus, para ver os filhos crescerem, para compartilhar com os amigos e com a família”.

Tânia também chama atenção para o apagamento histórico das mulheres operárias. “Essas mulheres que a gente está trazendo para cena, que são mulheres operárias, são apagadas ao longo da história”, observa. Ao destacar figuras como Agostina Guizzardi, editora de jornais operários no início do século 20, a encenadora reforça a importância de resgatar essas trajetórias invisibilizadas.

“Quando a gente fala das mulheres em qualquer tempo, a gente está falando de agora”, afirma. Para ela, as operárias tiveram papel fundamental na conquista da jornada de oito horas e no combate ao trabalho infantil, deixando um legado que permanece vivo nas lutas contemporâneas.

Da industrialização à consciência de classe em Porto Alegre

A região do Quarto Distrito consolidou-se como a primeira zona industrial da cidade | Crédito: Clarissa Londero

Mais do que uma disputa por melhores condições de trabalho, a Greve Geral de 1906 representou um divisor de águas na história social do Rio Grande do Sul. Ao articular diferentes categorias, impulsionar a organização sindical e consolidar a consciência de classe, o movimento organizou bases para futuras reivindicações.

A região do Quarto Distrito, que abrange os atuais bairros São João e Navegantes, consolidou-se como a primeira zona industrial da cidade, tornando-se um polo da atividade fabril e da presença da classe operária que protagonizaria as lutas trabalhistas do período.

Linha do tempo: Porto Alegre (RS) e o contexto do 1º de Maio

1886 – Origem internacional do 1º de Maio
As greves operárias de Chicago, nos Estados Unidos, reivindicaram a jornada de trabalho de oito horas e foram violentamente reprimidas. O episódio, conhecido como a Revolta de Haymarket, transformou o 1º de Maio em símbolo internacional da luta da classe trabalhadora. Esse marco influenciou diretamente o movimento operário brasileiro.

1870-1890 – Primeiras organizações operárias em Porto Alegre
No final do século 19, surgiram na capital gaúcha associações de auxílio mútuo e entidades representativas dos trabalhadores. Entre elas, destacam-se sociedades operárias que lutavam por melhores condições de trabalho e direitos básicos, como o descanso dominical. Nesse contexto, consolidaram-se as bases do movimento sindical local.

1892 – Primeiras comemorações do 1º de Maio em Porto Alegre
A cidade registrou uma das primeiras celebrações do Dia do Trabalhador no Brasil. Desde então, a data passou a ser associada à mobilização política e à conscientização de classe.

Início do século 20 – Consolidação do movimento operário
Com forte influência de ideais anarquistas e socialistas, os trabalhadores organizaram sindicatos, ligas operárias e espaços de debate político. Porto Alegre destacou-se como um importante centro de articulação das lutas trabalhistas no país.

1906 – Greve Geral de Porto Alegre
Considerada a primeira greve geral do Rio Grande do Sul, mobilizou cerca de 5 mil trabalhadores. A principal reivindicação era a jornada de oito horas. Embora o resultado tenha sido parcial, com a redução para nove horas, o movimento fortaleceu a organização sindical e contribuiu para a criação da Federação Operária do Rio Grande do Sul. No mesmo ano, ocorreu o I Congresso Operário Brasileiro, que consolidou o 1º de Maio como dia de luta.

1917–1919 – Ciclo nacional de greves operárias
A Greve Geral de 1917, iniciada em São Paulo, espalhou-se pelo país e influenciou mobilizações em diversas regiões, incluindo o Rio Grande do Sul. O período marcou a expansão das reivindicações trabalhistas e a consolidação do 1º de Maio como data de protesto e organização política.

1924 – Oficialização do 1º de Maio no Brasil
O governo federal, sob presidência de Arthur Bernardes, instituiu o Dia do Trabalhador como feriado nacional. A medida representou o reconhecimento oficial da importância da classe trabalhadora. No entanto, o marco veio com o objetivo de retirar da data o seu sentido de luta e transformá-lo em momento de confraternização entre patrões e empregados.

1930-1945 – Era Vargas e institucionalização dos direitos trabalhistas
Durante o governo de Getúlio Vargas, foram criadas leis que estruturaram a legislação trabalhista brasileira, culminando na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) em 1943. O 1º de Maio passou a ser utilizado como palco de anúncios governamentais, revelando a disputa simbólica entre Estado e trabalhadores.

1964-1985 – Ditadura Militar e repressão sindical
O regime militar restringiu a atuação dos sindicatos e reprimiu mobilizações sociais. Apesar disso, a resistência dos trabalhadores manteve viva a tradição de luta associada ao 1º de Maio.

1978-1980 – Novo sindicalismo e redemocratização
As greves do ABC paulista impulsionaram a reorganização do movimento sindical em todo o país. Esse processo influenciou também o Rio Grande do Sul, fortalecendo a mobilização dos trabalhadores e ressignificando o 1º de Maio como símbolo de resistência democrática.

1988 – Constituição Federal e ampliação de direitos sociais
A promulgação da Constituição de 1988 consolidou direitos trabalhistas e fortaleceu a organização sindical. O 1º de Maio reafirmou-se como data de memória, luta e defesa das conquistas sociais.

Anos 2000 até a atualidade: Novos desafios do mundo do trabalho

Sem qualquer vínculo empregatício, motoboys e ciclistas entregadores de apps têm denunciado a precariedade trazida pela falta de regulamentação | Crédito: Clarissa Londero

A precarização das condições de trabalho e o avanço das plataformas digitais, fenômeno conhecido como “uberização do trabalho”, trouxeram novas pautas ao movimento sindical contemporâneo. Em Porto Alegre e em todo o Brasil, o 1º de Maio permanece como um espaço de mobilização, memória e reflexão sobre direitos, dignidade e justiça social.

Entre as principais reivindicações da classe trabalhadora, destaca-se ainda o aumento real dos salários, garantindo sua recomposição frente à inflação e ao custo de vida, bem como a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

No cenário recente, a luta da classe trabalhadora gaúcha se expressa em diferentes frentes, evidenciando tanto a permanência de reivindicações históricas quanto o surgimento de novos desafios. Um exemplo é a greve dos servidores técnico-administrativos em educação das instituições federais, que integra um movimento nacional da categoria.

Na Capital, no último dia 30 de março, a Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) amanheceu com seus portões cadeados. As atividades foram paralisadas após o bloqueio do campus, organizado pelo Comando de Greve do Sindicato dos Técnico-administrativos em Educação da Ufrgs, UFCSPA e IFRS (Assufrgs). O ato ocorreu após meses de tensão entre os trabalhadores e o governo federal, especialmente em torno da implementação de acordos firmados ao longo de 2024, que tratavam da reestruturação da carreira e da recomposição salarial da categoria.

Paralisações e greves continuam a marcar mundo do trabalho | Crédito: Vitor Hugo Xavier/Assufrgs

Ao mesmo tempo, a luta por melhores condições de trabalho também emerge no setor privado do estado. No centro dessas reivindicações estão os trabalhadores do Grupo Zaffari, que protagonizam uma das expressões mais contundentes da precarização contemporânea. A categoria denuncia jornadas exaustivas – como escalas de até dez dias consecutivos de trabalho com apenas um de descanso – e irregularidades no cumprimento de direitos básicos. Em resposta, funcionários organizaram mobilizações, incluindo articulações de greve no 1º de Maio de 2025, com reivindicações que abrangeram aumento salarial, redução da jornada e o fim de práticas consideradas abusivas.

As denúncias ganharam repercussão por meio do trabalho investigativo do jornalista Theo Dalla, que trouxe à tona relatos de trabalhadores e deu origem à União dos Trabalhadores do Zaffari (UTZ), ampliando o debate público sobre a realidade do setor.

De acordo com ele, a repressão às mobilizações foi intensa: “Desde a greve do dia primeiro de maio do ano passado, todo mundo que fazia parte da UTZ foi demitido. E sobraram poucas pessoas dispostas a continuar o trabalho, porque a maioria só queria sair do Zaffari e tocar a vida”. Ainda assim, alguns permaneceram engajados. “Alguns ficaram, continuaram para tentar avançar nesse trabalho, para corrigir os erros cometidos no ano passado e ampliar a organização para além do Zaffari”, relata.

Trabalhadores e trabalhadoras do comércio denunciam jornadas exaustivas, como escalas de até dez dias consecutivos de trabalho com apenas um de descanso | Crédito: Esquerda Diário

Nesse contexto, a UTZ consolidou-se como um instrumento de denúncia e mobilização. Seu perfil no Instagram já ultrapassou a marca de 40 mil seguidores, tornando-se uma referência para trabalhadores de diferentes estabelecimentos.

De acordo com Dalla, a plataforma tem desempenhando um papel essencial. “O canal da UTZ no Instagram tem cumprido um papel muito fundamental, porque deu vazão a uma série de denúncias e angústias de trabalhadores de diferentes mercados.” Ele ressalta que a iniciativa permitiu romper o silêncio imposto pelas condições de trabalho. “Possibilitou que muitos trabalhadores se identificassem e percebessem que não estavam sozinhos”, afirma.

A repercussão das denúncias transformou a página em um espaço de acolhimento e resistência. “Hoje em dia, recebemos dezenas de denúncias por dia. Há muita coisa que ainda nem sequer foi publicada”, destaca Dalla. Para ele, a visibilidade pública representa um avanço significativo na organização dos trabalhadores. “Não fica só restrita à denúncia no site do Ministério Público do Trabalho, de forma anônima. Há uma publicidade que demonstra o apoio e a indignação da sociedade”, explica.

O alcance das denúncias expandiu-se para além dos supermercados, atingindo outros segmentos do comércio. “A página tomou uma proporção tão grande que foi para além dos mercados, com denúncias envolvendo farmácias e outros estabelecimentos”, observa o repórter. Esse crescimento impulsiona a reestruturação do movimento, que avalia ampliar sua atuação. “A ideia é, em um futuro breve, mudar o nome da página para União dos Trabalhadores de Supermercados, porque a briga nunca foi exclusivamente com o Zaffari”, afirma.

Apesar dos desafios, a organização segue ativa por meio de panfletagens e articulações de base. “A gente continua fazendo panfletagens, principalmente em mercados, e mantendo as denúncias para preservar esse trabalho vivo”, relata Dalla. No entanto, ele ressalta que o principal obstáculo é transformar a visibilidade digital em mobilização concreta. “Uma coisa é a repercussão na internet; outra é mobilizar e organizar as pessoas para que sejam sujeitos da sua própria luta”, analisa.

Para os trabalhadores envolvidos, a iniciativa representa uma nova forma de resistência diante da precarização do trabalho. “A página possibilitou um primeiro lapso de uma nova forma de organização da denúncia do trabalho”, avalia o jornalista. 

Nesse cenário, a luta dos funcionários do Grupo Zaffari evidencia as tensões do mercado de trabalho contemporâneo, mas também o surgimento de estratégias inovadoras de organização coletiva. Seja no serviço público, seja no setor privado, a luta da classe trabalhadora gaúcha se dá, simultaneamente, contra a desvalorização salarial, o descumprimento de direitos conquistados e a intensificação das formas de exploração.

Referências históricas:

PETERSEN, Sílvia Regina Ferraz. As greves no Rio Grande do Sul (1890-1919). In: DACANAL, José Hildebrando; GONZAGA, Sergius (org.). RS: economia e política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993.

BAK, Joan. Classe, etnicidade e gênero no Brasil: a negociação de identidade dos trabalhadores na Greve de 1906, em Porto Alegre. Métis: História & Cultura, Caxias do Sul, v. 10, n. 19, 2011.

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter