O cursinho popular Quilombo Flores, em Porto Alegre, inicia seu quarto ano reafirmando a educação como ferramenta de transformação social e fortalecimento do território. As inscrições para a nova turma estão abertas até o dia 22 de abril, por meio de formulário online disponível nas redes sociais do cursinho.
Criado a partir de uma demanda da liderança comunitária Genecci Flores, o projeto surgiu em parceria com a universidade, especialmente com o Núcleo de Estudos de Geografia e Ambiente (Nega), ligado ao curso de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
No espaço, marcado pela diversidade de idades e experiências, jovens, adultos e idosos compartilham aprendizados e constroem conhecimento de forma coletiva. Ao longo desse período, foram registradas histórias de superação, conquistas e persistência, com estudantes que ingressaram no ensino superior e outros que seguem tentando, mantendo vivo o projeto de transformação.
Para Flores, o cursinho representa a retomada de sonhos historicamente interrompidos pela falta de acesso à educação e oportunidades, ao mesmo tempo em que valoriza a troca de saberes e a experiência de professores que contribuem com sua formação acadêmica e vivências. “São quatro anos marcados pela resistência e pela construção de conhecimento coletivo.”
“O cursinho surge dessa demanda da comunidade de querer participar, querer estudar e buscar uma vaga na universidade, e também transformar o quilombo em um ponto de cultura e educação”, afirma o professor de geografia Gustavo Gelak de Siqueira.
Mais do que preparar para o Enem e vestibulares, o cursinho se estrutura como um espaço de circulação de saberes e fortalecimento de vínculos comunitários. “A gente acredita muito na força do território, no ensinamento do território, e tenta levar isso para as nossas aulas. Ter aula dentro do quilombo é uma ferramenta de multiplicar os ensinamentos da cultura quilombola afro-brasileira”, destaca Siqueira.
A iniciativa já contribuiu para que estudantes ingressassem no ensino superior e vem ampliando redes no entorno, com parcerias com associações de moradores e participação de alunos de diferentes regiões da cidade.

Educação sem barreiras e com consciência social
Aberto a pessoas de todas as idades, sem restrições de renda, raça ou gênero, o cursinho reúne estudantes em diferentes momentos da trajetória educacional. “A maioria são trabalhadores com uma consciência social do lugar deles na sociedade, da localização deles dentro da cidade”, afirma Siqueira.
A estudante Sabrina Bussmann, de 20 anos, decidiu ingressar no cursinho com o objetivo de realizar o Enem pela segunda vez, após ter feito sua primeira prova em 2023. Desde que chegou ao quilombo, relata ter sido acolhida de forma positiva em um ambiente marcado pela colaboração e pelo respeito às diferentes trajetórias. Segundo ela, os professores demonstram grande engajamento com a proposta, adotam metodologias diversas e conseguem atender às necessidades de um grupo de alunos heterogêneo, sem que isso represente barreiras no processo de aprendizagem.
Bussmann destaca ainda que nunca se sentiu discriminada em relação ao seu nível de conhecimento, reforçando o caráter inclusivo do espaço. Para a estudante, o cursinho, ativo desde 2023, tem desempenhado um papel fundamental ao possibilitar o acesso ao ensino superior para pessoas que, muitas vezes, não têm condições de arcar com cursos preparatórios privados ou de estudar de forma autônoma. Mais do que a preparação acadêmica, ela ressalta que a experiência também contribui para o desenvolvimento da autoconfiança, a construção de vínculos e a vivência de novas experiências.
Nesse contexto, a proposta pedagógica vai além do conteúdo exigido nas provas. “A gente busca desenvolver uma visão crítica do mundo, trazendo outras visões, principalmente a do território quilombola e da matriz afro-brasileira e afro-indígena”, explica a professora de linguagens Isabella Azambuja.
Para ela, o espaço também se constrói como um gesto de enfrentamento às desigualdades estruturais. “Estar ali, depois de um dia de trabalho intenso, construindo um sonho de forma contraventora, indo contra o que está estabelecido como destino de classe, gênero e raça, é o que dá sentido ao trabalho”, afirma Azambuja.

Troca de saberes e formação coletiva
A dinâmica do cursinho rompe com hierarquias tradicionais da sala de aula e se baseia na troca constante de experiências. “Às vezes, a liderança quilombola está no lugar de professora, o professor no lugar de aluno, o aluno no lugar de professor. É uma experiência muito diversa”, relata Siqueira.
Essa troca se expressa também em aprendizagens concretas do cotidiano. “A gente aprende desde como fazer serigrafia, como chapiscar uma parede, até questões jurídicas com alunos que trabalham em escritórios. E também aprende sobre construção de vida, permanência, força”, destaca Azambuja.
A educadora e coordenadora da área de linguagens Évelyn Caseira Nunes ressalta que o aprendizado está profundamente ligado ao território. “O contato com o chão do quilombo, com a ancestralidade, com a oralidade, com a espiritualidade, tudo isso já é um ensinamento diário. O tanto que eles aprendem comigo, eu aprendo o dobro com eles”, pontua.
Segundo ela, a experiência representa uma transformação na prática docente. “É uma virada de chave. Revigora e dá sentido à minha atuação como educadora popular.”

Edital amplia acesso, mas ainda impõe limites
A contemplação pelo edital da Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP) 2026 trouxe avanços importantes, especialmente na permanência dos estudantes e nas condições de trabalho dos professores, historicamente voluntários. “Esse trabalho sempre foi feito de maneira voluntária e militante, com o gás da militância. O edital traz reconhecimento e um pouco mais de dignidade”, explica Azambuja.
Entre os impactos diretos está o auxílio para transporte, considerado central para garantir a permanência dos estudantes, especialmente em um cursinho periférico, onde o acesso é mais difícil devido à mobilidade urbana e à distância do centro.
Apesar disso, educadores apontam limitações. O edital restringe o uso de recursos, impedindo gastos com serviços, eventos ou materiais gráficos, e estabelece critérios rígidos para as bolsas. “As diferenças entre as bolsas são muito significativas e não consideram a realidade dos cursinhos. É um edital necessário, mas que precisa ser revisto para contemplar a diversidade de formas de funcionamento”, avalia Azambuja.
Educação popular como caminho de emancipação
A experiência no Quilombo dos Flores articula educação popular e pedagogia quilombola como estratégia de emancipação social. “É onde se junta o meu anseio pela educação popular com o estudo dos territórios tradicionais. É uma caminhada em direção à emancipação, à liberdade”, afirma Siqueira.
Mesmo diante de desafios financeiros, estruturais e logísticos, o projeto segue se expandindo, fortalecendo redes e produzindo resultados concretos. “A gente vem conseguindo colocar alunos dentro da universidade e criando conexões no território. Ver esse trabalho acontecendo é muito significativo”, conclui o educador.
