“Nessa cidade todo mundo é d’Oxum
Homem, menino, menina, mulher
Toda essa gente irradia magia
Presente na água doce
Presente na água salgada
E toda cidade brilha”
O trecho da canção de Gerônimo Santana e Vevé Calasans ecoou na abertura do Festival de Oxum – As águas da reconstrução, evento idealizado por Itanajara Almeida (Iyá Itanajara de Oxum) para promover o diálogo entre proteção ambiental e cultura de matriz africana em meio à crise climática. Realizado ao longo de três dias em Porto Alegre, o festival homenageou a Mãe das Águas Doces e mobilizou lideranças religiosas, movimentos sociais, pesquisadores e comunidades tradicionais.
O lançamento ocorreu na tarde de sábado (6), próximo à Ponte de Pedra, na Praça Açorianos, local historicamente ligado às oferendas à orixá. No domingo (7), o evento promoveu debates sobre ancestralidade e meio ambiente e, na noite desta segunda-feira (8), encerrou-se com atividades culturais e a Festa de Oxum.
Ao Brasil de Fato, Iyá Itanajara destacou a relação essencial entre religiosidade, território e meio ambiente. “Nós dizemos que os nossos Orixás, que os nossos Caboclos, são a própria natureza viva. E eu preciso aprender a cuidar da natureza, para que junto com ela eu também cuide dos meus Orixás”, explicou.
Ela lembrou que o Festival de Oxum tornou-se legal a partir do Projeto de Lei 66/2024, permitindo abordar educação ambiental de forma acessível e fortalecendo o cumprimento da Lei 10.639. “Acredito que o Festival de Oxum vem exatamente para isso: para fazer essa conexão, para fazer essa conscientização em primeiro lugar”, disse.
O festival contou com empreendedoras ligadas a matriz africana, apresentações artísticas, capoeira, além de uma marcha até a orla do Guaíba onde foram realizadas oferendas para Oxum.

Tradição, cuidado e reconstrução
Entre as lideranças presentes, Mãe Pathy, do quilombo Família Ouro (Vila Mapa, Lomba do Pinheiro), ressaltou a força simbólica da homenagem. “Eu sou filha de Oxum e a gente vem homenagear essa grande mãe, a deusa dos rios, a dona da cachoeira, a mãe da criação, do ventre, do ouro, do dinheiro”, afirmou.
Ela destacou as dificuldades enfrentadas pelos quilombos e a importância dos projetos socioambientais. “A gente traz o saquinho de lixo para pedir que a galera não jogue lixo no chão, não jogue oferendas que agridam a natureza, porque Oxum não gosta disso. A tradição alimenta e não violenta.”
Sobre as enchentes de 2024, reforçou o sentido de reconstrução. “Oxum não veio nos castigar. Oxum tomou conta daquilo que a cidade tomou conta do rio dela. Hoje Oxum respeitou que as pessoas precisam desse espaço, mas a gente precisa de cuidado. Se eu amo orixá, tenho que amar a natureza.”
Mãe Pathy destacou ainda o esforço coletivo para viabilizar o festival. “Foi um trabalho muito árduo, mas ninguém largou a mão de ninguém. É um marco na história de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, porque é o primeiro Festival de Oxum. Para Oxum não pode ser um único dia: tem que ser três, quatro, uma semana de homenagem.”

Identidade negra e reparação histórica
Produtor do projeto, Mário Terra ressaltou o reconhecimento jurídico recente. “A importância é a inclusão na identidade do Rio Grande do Sul e do Brasil. É trazer as contribuições da cultura negra de forma física, para que apareçam.” Para ele, o festival materializa debates acadêmicos sobre identidade e reparação. “A lei é um papel, mas se ela não se materializar, não serve para nada.”
Terra ressaltou a ligação entre religiosidade, acolhimento e diversidade. “O quilombo sempre aceitou várias tendências. No terreiro, não tem restrição de gênero, política ou nada. O que se celebra é a cultura negra.”
Ele lembrou ainda a centralidade da população negra na formação do estado. “O nome ‘gaúcho’ quer dizer negro gaúcho. A tropeiragem, o cuidado do gado e dos cavalos era trabalho de indígenas e negros. A gente só quer ser protagonista da nossa própria história.”
Sobre Oxum, completou: “Sem água não tem vida. A fertilidade do mundo se dá pela Oxum. Ligar Oxum às enchentes e à preservação da natureza abre o diálogo: precisamos discutir o planeta. Sem os quatro elementos, não existe tradição.”

Intersecção com a Marcha Trans
O festival também marcou a aproximação com a Marcha Trans de Porto Alegre. Segundo Athos Souza, coordenador da marcha, a união é simbólica e política. “Corpos trans estão em todos os lugares. E religiões de matriz africana são onde a gente mais é acolhido. Fazer esse evento conjunto mostra que as lutas, quando se trata de raça, estão juntas.”
Morador da Ilha da Pintada, no arquipélago de Porto Alegre, Souza lembrou a vulnerabilidade acentuada nas enchentes. “A população trans tem uma vulnerabilidade muito maior. Muitas vezes, nossos corpos não são pensados em situações de emergência. Então a gente se acolhe e se aquilomba como faz o povo preto.” Para ele, Oxum representa acolhimento e respeito pela natureza.
Retomada de territórios e resistência
Mãe Patrícia de Xangô, da cidade de Feliz, ressaltou o sentido histórico da ocupação do espaço público. “Estamos retomando lugares que foram de nossos ancestrais e que o poder público foi tomando. Agora é a nossa cultura, nossa dança, nosso empreendedorismo voltando para esses espaços.” Ela defendeu a ampliação do festival com terreiros do Interior. “Que todos os terreiros venham, que a gente se aquilombe na Capital para mostrar que o nosso povo tem voz, vez e potência.”
Iyá Itanajara lembrou que o festival atravessa sua trajetória de vida. “Quem me conhece já está cansado de tanto que eu falo, de tanto que eu penso, de tanto que eu vivo, porque eu acredito muito nessa proposta”, afirmou.

A idealizadora destacou ainda que o festival só é possível por meio da construção coletiva. “Quem me conhece sabe que eu não gosto de falar em individualismo, não sei trabalhar sozinha. Eu gosto de trabalhar no coletivo, de ter pessoas comigo, pensando, avançando, consumindo e desconsumindo, porque é assim que a vida é”, disse. Ela concluiu chamando ao palco pessoas que estiveram com ela na caminhada e puderam estar presentes para celebrar o momento.
Para Mãe Josi, Ialorixá do terreiro de Xangô, o festival simboliza união. “O Festival de Oxum é derrubar muros e construir pontes. Que a gente tenha equilíbrio, respeito e amorosidade. É isso que Oxum espera de nós.”
Já o Babalorixá Juliano T’Òsàálá lembrou o significado histórico do local escolhido: “Tantas negras lavavam roupas aqui e choravam suas dores. Hoje podemos estar neste espaço não para chorar, mas para comemorar e saudar Oxum. Cada lágrima que caiu, Oxum ouviu.”
Educação ambiental, espiritualidade, dança e resistência
A educadora ambiental Aurici Azevedo da Rosa, integrante da Rede de Afroempreendedores do Rio Grande do Sul (Reafro/RS) e do Instituto Ecoa, reforçou o alerta da natureza. “A natureza está nos avisando. As águas estão nos avisando. Os Orixás estão nos avisando. A gente tem que ter cuidado.”
A bailarina e coreógrafa Carla Pires, fundadora da Companhia Brazil Estrangeiro, celebrou a abertura oficial: “Estamos oficialmente abrindo o Festival de Oxum 2025. A grande mãe é dona do meu ori. Que ela nos dê harmonia, saúde, paz e axé.”
Ancestralidade, reparação e presença do povo negro
Em sua fala, a deputada estadual Bruna Rodrigues (PCdoB) ressaltou ancestralidade, resistência e reparação no Festival de Oxum. Ela lembrou que, na infância e adolescência, nunca teve acesso a espaços como o evento. “Eu nunca participei de um Festival de Oxum. Foi na desesperança que eu me encontrei, desacreditando. E hoje estou aqui vendo essa criançada toda podendo acessar a nossa ancestralidade a partir das nossas mais velhas.”
Para a parlamentar, o festival materializa a luta de gerações de mulheres negras. “É a prova de que valeu a pena toda a construção das nossas famílias e do povo negro desse estado, que sofreu tanto e batalhou tanto. Pela primeira vez dissemos: nós chegamos.”
A deputada relacionou as enchentes recentes à simbologia de Oxum. “As águas ocuparam o estado inteiro. Não teve lugar que Mãe Oxum não tenha chegado. Não teve coração que a gente não tenha sacudido.”
Rodrigues anunciou a destinação de emenda parlamentar ao festival a partir de 2025. “Vamos exigir nossa presença no orçamento e a reparação da nossa história.”
Por fim, criticou o discurso de separação entre política e religião. “Se política e religião não se misturam, por que as bancadas evangélicas ocupam o Congresso? Por que é o nosso sagrado que é combatido?”
Ao encerrar, reforçou a importância das mais velhas: “Vocês vieram primeiro. Que daqui pra frente o festival seja cada vez maior e menos penoso. Que o Estado repare tudo que nos foi negado e que essa cidade fique cada vez mais amarela, porque essa cidade é de Oxum.”

“Não é uma luta individual, é a luta de um povo”
A Ialorixá e ativista Beatriz Gonçalves Pereira, Mãe Bia de Iemanjá, educadora popular e moradora da Ilha da Pintada, participou do festival reforçando a defesa das tradições de matriz africana e o enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa.
Com uma camiseta em homenagem a Oxum, explicou sua presença. “Sendo uma boa filha de Iemanjá, estou aqui a abraçar as filhas de Oxum. Essa luta não é individual, é a luta de um povo, de uma tradição, é uma reparação.”
Ela destacou que o país ainda precisa avançar muito. “Do Oiapoque ao Chuí, alguém tem que lutar. Quanto mais festivais e movimentos em prol do povo negro, melhor para nós. Que o povo nos veja. Precisamos sair da invisibilidade.”
“Os rios estão sangrando e ninguém está vendo”
Sobre o tema do festival, as Águas da reconstrução, Mãe Bia relacionou a crise climática às mensagens dos Orixás. “Nas ilhas, os rios há muito tempo estão falando, mas ninguém entende. As enchentes são um aviso. Tivemos duas no mesmo ano. Tivemos a pandemia. Foram muitos sinais, mas a população humana não entendeu.”
Para ela, os fenômenos recentes expressam alertas profundos: “Nanã sabe o que faz. Quando ela mexe com o lodo no fundo do rio, ela vem para modificar, para dizer o caminho a ser seguido. Oxum, mãe da água doce e dos rios, também está dando seu recado.”
Ao encerrar, criticou a falta de cuidado com a natureza. “As pessoas se assustaram quando as águas chegaram até o shopping Rua da Praia. Mas onde era o rio? O rio era lá. Então, precisamos de mais amor à natureza, de um tratamento mais digno, mais espiritualizado. Ela só nos dá. E nós, seres humanos, só tiramos o que ela nos dá.”
