TERRITÓRIO NEGRO

‘A Porto Alegre que eu não conhecia’: pesquisadora mapeia presença negra na história e na geografia da Capital

Atividade promovida pelo projeto Aquilombar foi realizado no Cirandar, com a presença da professora Daniele Machado

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A mostra segue até esse sábado (6), na rua Duque de Caxias 1297, Centro Histórico da capital
A mostra segue até esse sábado (6), na rua Duque de Caxias 1297, Centro Histórico da capital A mostra segue até esse sábado (6), na rua Duque de Caxias 1297, Centro Histórico da capital | Crédito: Aline Witt

Com o intuito de provocar reflexões sobre os espaços, personagens e histórias negras que forjaram Porto Alegre, muitas vezes apagadas do cotidiano, o Cirandar realizou, na última sexta-feira (28), uma roda de debate na exposição Vozes e Territórios Negros de Porto Alegre. A atividade foi promovida pelo projeto Aquilombar: Formação e Atuação de Agentes da Igualdade Racial e contou com a presença da professora e pesquisadora Daniele Machado, autora do livro Territórios Negros em Porto Alegre, obra já reconhecida com dois prêmios. O evento contou com apresentação do Coletivo de Escritores Negros e teve mediação da coordenadora do Aquilombar, Isadora Trajano.

O Cirandar também recebe a exposição histórica Vozes e Territórios Negros de Porto Alegre, que reúne documentos, registros e narrativas sobre a participação negra na construção da cidade. A mostra, organizada pelo curador Nandi Barrios em parceria com a autora, apresenta um acervo para preservar a memória, a educação e o território. Pode ser visitada até esse sábado (6), na rua Duque de Caxias 1.297, Centro Histórico da Capital.

Mapa antigo da cidade / Crédito: Reprodução

Geógrafa de formação, Machado abriu sua fala destacando a importância das obras Colonos e Quilombolas e O Negro em Preto e Branco, da fotógrafa Irene Santos, como referências centrais para compreender a presença negra no Rio Grande do Sul. Para ela, o acesso a esses livros no início da formação acadêmica “simbolicamente abre espaço” para outras narrativas.

Seu envolvimento com a chamada “Porto Alegre negra” começou no final da graduação, entre 2010 e 2011, quando passou a situar historicamente essa presença para além dos próprios vínculos familiares. A experiência decisiva foi o percurso Territórios Negros, realizado como trabalho de campo no curso de geografia. “Conheci outra cidade”, relatou. “Era onde eu tinha nascido e vivido, mas cuja história eu não conhecia por completo.”

Territórios negros apagados

Ao iniciar a pesquisa, a professora encontrou dificuldades para identificar locais citados nas fontes históricas, como o Areal da Baronesa, porque vivia numa Porto Alegre profundamente modificada, onde muitos territórios negros foram apagados. Daí surgiu a necessidade de construir narrativas detalhadas, situando passado e presente, e firmando a pesquisa no campo da geografia. O rigor metodológico deu resultado: o estudo já serviu como subsídio em processos jurídicos, como a discussão sobre o Museu do Negro no Largo Zumbi dos Palmares.

Uma pergunta feita pelo geógrafo Alex Hatz marcou sua trajetória: “qual é o lugar do negro na sua cidade?”. À época, ainda graduanda, Machado pensava apenas na periferia, mas descobriu que não foi sempre assim. Territórios como o Areal e até partes do Moinhos de Vento abrigaram populações negras ao longo da história.

A docente ressaltou que a memória é feita tanto de narrativas e imagens quanto da ausência delas. Como professora, percebeu o impacto de iniciar a história negra sempre pela escravidão. “Não pode ser o único ponto”, afirmou, relatando a reação de um aluno que baixou a cabeça ao ouvir o início da aula. “É sobre garantir o direito de sermos outra coisa para além da escravidão.”

“Quando narram a gente, é sempre pelos impedimentos, não pela nossa organização”, pontua Daniele Machado – Crédito: Aline Witt

Mapas que afirmam e mapas que revelam exclusões

A pesquisadora apresentou o mapa de Porto Alegre de 1888, com demarcações sobre o Arroio Dilúvio, o Areal da Baronesa, a Colônia Africana e o Campo da Redenção. A partir dele, provocou o público a localizar esses territórios no espaço e no tempo.

Como educadora, criou um “mapa afirmativo”, que insere pessoas e ofícios negros nos lugares onde atuaram, quitandeiras no Largo da Quitanda; Oxum e as lavadeiras na antiga Praia de Belas; o redator Felipe Batista; músicos da Jazz Espiaçó; a professora Petronilha. A imagem da Colônia Africana ocupando “meio mapa” reforça a diversidade da experiência negra na cidade.

A professora explicou que divide a presença negra em três momentos espaciais: centro do século 19, marcado pela escravidão, mas não restrito a ela; entorno do centro, entre o final dos anos 1800 e 1940–50, com territórios como a Colônia Africana; e periferia, para onde a população negra é definitivamente empurrada.

O mapa do deslocamento, segundo ela, embora necessário para evidenciar a segregação, também limita outras formas de narrar. “Sempre dizia que fomos tirados do centro. É verdade, mas esse mapa impede outros olhares.”

Mapa antigo da cidade / Crédito: Reprodução

Toponímia, territórios, memórias

A professora lembrou que a segregação também aparece nos nomes das ruas. A atual Getúlio Vargas, no Menino Deus, já foi Rua 13 de Maio, limite do Areal. Outra rua próxima chamava-se 28 de Setembro, depois chamada popularmente de Rua dos Pretos Pobres. “Imagina passar por ela e perguntar: ‘Por que Pretos Pobres?’ É aprendizado vindo do cotidiano.”

A partir de mapas sucessivos, Machado mostrou como Areal da Baronesa, Campo da Redenção, Colônia Africana e Bacia do Montserrat aparecem sistematicamente nos limites urbanos, conforme o centro avança. O Arroio Dilúvio e a antiga Praia de Belas evidenciam como a geografia produz a história: antes dos aterros, a cidade terminava literalmente na praia.

No campo religioso, Machado apresentou o caso de uma liderança dos anos 1850 que teve pedidos negados para realizar festejos afro-religiosos. Quando autorizados, os batuques só poderiam ocorrer “na Várzea ou fora da cidade”. Os mapas mostram que práticas culturais eram empurradas para as bordas.

Irmandade do Rosário e congadas: organização negra desde o século 18

Ao abordar o século 18, Machado destacou a criação da Irmandade do Rosário, em 1786, apenas 14 anos após a fundação da cidade. Em uma Porto Alegre de 1,5 mil habitantes, mais de 200 pessoas negras, livres e escravizadas organizaram-se para fundar a instituição. “Quando narram a gente, é sempre pelos impedimentos, não pela nossa organização.”

Uma imagem de 1828, com uma congada afrocatólica, foi comparada à Congada do Maçambique de Osório, de 2011, evidenciando permanências simbólicas.

A pesquisadora apontou também a invisibilidade das famílias negras nos registros históricos. Imagens de coletividades negras são raras, ao contrário das famílias europeias, o que “fragiliza o olhar e os argumentos”. Ela exibiu uma foto com quatro gerações de uma família, destacando o impacto simbólico desse tipo de registro.

Machado celebrou os 20 anos de O Negro em Preto e Branco. “É uma história fotográfica da população negra. Você começa e não consegue parar.” A obra reúne imagens de religiosidade, festas, ofícios, culinária, música, política e trajetórias de mulheres negras pioneiras.

Ela reforçou que seu trabalho se soma à memória construída por décadas de iniciativas negras na cidade, como o Museu do Percurso Negro, praça do Tambor, o Bará do Mercado e o Painel Afro-Brasileiro. “Não sou a primeira e não posso ser a última. Muita gente precisa continuar pesquisando.”

A mostra foi organizada pelo curador Nandi Barrios e Daniele Machado – Crédito: Aline Witt

Ilhota, Colônia Africana e o papel da cartografia afetiva

Machado pontuou que muitos espaços ligados à memória da Porto Alegre negra existiram até muito recentemente. Ainda nos anos 1950, familiares de seus alunos já eram adultos vivendo nesses territórios.

Ao tratar da Ilhota, explicou a dificuldade de localizar o território nos mapas atuais. As narrativas situam a área ao sul da Praça Garibaldi, em direção ao prédio da Zero Hora, entre as ruas que hoje correspondem à Getúlio Vargas e à Érico Veríssimo, denominações inexistentes na época.

Sobre a Colônia Africana, lembrou que quase todas as memórias se concentram na antiga rua Esperança, atual Miguel Tostes. “Miguel Tostes nunca nos contou essa história. Pobre rua, escondendo suas raízes.”

Mostrou ainda um documento de 1905, pertencente à família da professora Petronilha: o pedido oficial de sua bisavó, dona Carolina, à prefeitura para construir a casa em seu próprio terreno. “Ler ‘possuidora do terreno’ dá um quentinho no coração”, disse. Para a professora, o registro, de uma mulher negra proprietária no pós-abolição imediato, oferece uma narrativa alternativa às histórias de exclusão, mesmo sendo exceção.

A força da narrativa e o direito à dignidade

A pesquisadora citou a escritora Chimamanda Ngozi Adichie e a importância da garantia da multiplicidade de vozes. “Histórias importam, muitas histórias importam. E as histórias podem destruir a dignidade de um povo.” Recuperar essas narrativas, afirmou, é uma forma de restituir dignidade às populações apagadas. “Somos todos só pessoas”, disse, celebrando contribuir para que a cidade reconheça suas próprias histórias, “mesmo que seja um, dois, três pontos no mapa”.

Machado retomou o processo de deslocamento da população negra em meio às grandes reformas urbanas. Citou o antigo Beco do Poço, onde funcionava o Batuque, que foi alargado e transformado na Avenida Borges de Medeiros. “Essa foi uma entre as muitas transformações que empurraram essa população cada vez mais para longe. As nossas periferias continuam sendo arrasadas para outros empreendimentos.”

A professora explicou a origem do nome Redenção: uma ata oficial registrava a comemoração pela “libertação dos escravos da cidade”, e “redenção”, à época, era sinônimo de libertação, com possíveis sentidos religiosos. O termo acabou renomeando os antigos Campos da Várzea.

Indagada sobre o significado aquilombar, Machado evocou o pensamento de Beatriz Nascimento sobre o significado político do estar junto. Para a intelectual, quilombo não é apenas comunidade tradicional, mas comunidade política de memória, pertencimento e fortalecimento. “O terreiro e as escolas de samba passam a ser quilombos”, explicou. O pertencimento nasce da convivência, do compartilhamento simbólico e da circulação coletiva no território. “A gente se encontra, se conhece, conhece os mesmos espaços. Não necessariamente os compartilhamos, mas todos os vivenciamos e nos movimentamos nessa direção.”

Editado por: Marcelo Ferreira

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