MEMÓRIA NEGRA

Cabo Rocha: um século de memória e resistência comunitária em Porto Alegre

Comunidade histórica mantém viva a luta por moradia, cultura e pertencimento no centro da capital gaúcha

No audio source provided.
Fachada da Associação Cabo Rocha, espaço que abriga oficinas, aulas e encontros da comunidade | Crédito: Foto: Arquivo Associação Cabo Rocha

“A gente é gente, não é bicho pra morar no mato”, afirma Eclair Silva Fernandes, conhecida como Cacá, presidenta da Associação Cabo Rocha, em Porto Alegre (RS). A frase sintetiza a luta de um dos territórios negros mais antigos da capital gaúcha, marcado pela resistência das famílias que há décadas reivindicam moradia digna, reconhecimento e o direito de permanecer em seu lugar de origem.

A história do Território Negro do Cabo Rocha está ligada ao antigo bairro Ilhota e às raízes do Carnaval e da cultura negra em Porto Alegre. O termo refere-se a um dos territórios que compõem o chamado “arco negro” da cidade, reconhecido pela presença de comunidades negras desde o início do século 20. A Associação Cabo Rocha, fundada em 2018, dá continuidade a essa trajetória de resistência comunitária e organização popular.

Cacá, presidenta da Associação Cabo Rocha, lidera ações comunitárias em um dos territórios negros mais antigos de Porto Alegre – Foto: Marcela Brandes

Cabo Rocha e o arco negro de Porto Alegre

O advogado e mestrando em Patrimônio Cultural pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Patrick Mayer, ressalta a importância histórica e simbólica da vila Cabo Rocha, uma das comunidades mais antigas de Porto Alegre e reconhecida como um território negro da Capital.

Segundo ele, há indícios de que a área é ocupada para fins de moradia e práticas culturais desde o início do século 20. “A Cabo Rocha faz parte do chamado ‘arco negro’, que se formou no período pós-abolição, no entorno do antigo centro da cidade de Porto Alegre”, explica.

Esse “arco negro”, conforme Mayer, era composto por comunidades onde viviam pessoas pobres, majoritariamente negras, egressas da escravidão. “Esse conjunto incluía o Areal da Baronesa, a Ilhota, a Cabo Rocha e a Colônia Africana, quatro territórios conectados entre si por um intenso fluxo de pessoas e práticas culturais”, detalha.

Foto antiga da Associação Cabo Rocha, espaço simbólico da resistência e da organização comunitária no território negro – Foto: Arquivo Associação Cabo Rocha

Na primeira metade do século passado, a Cabo Rocha se tornou conhecida como um espaço de boemia, festas e Carnaval. “Em 1926, a antiga rua São João recebeu o nome de rua Cabo Rocha, permanecendo assim até 1956, quando passou a se chamar Professor Freitas e Castro. A rua ficou tão conhecida naquele período que, mesmo 70 anos após a mudança, a comunidade continua se autodenominando Cabo Rocha”, conta.

Assim como outras comunidades localizadas às margens do antigo riacho, o atual Arroio Dilúvio, a Cabo Rocha enfrentou, a partir da segunda metade do século 20, um intenso processo de urbanização, marcado por remoções e reassentamentos que fragmentaram o território. “Atualmente, ela está limitada a uma quadra da rua Professor Freitas e Castro, em uma região central de Porto Alegre, onde vivem cerca de 150 pessoas, muitas delas em situação de vulnerabilidade”, observa Mayer.

Para o pesquisador, a comunidade vive hoje uma situação de opressão urbana. “É um território cercado por grandes avenidas, com intensa circulação de veículos e poucos espaços de uso comunitário que possam ser utilizados para práticas de sociabilidade e convívio entre os moradores”, avalia.

Para Mayer, olhar para a história da Cabo Rocha é olhar para a história da própria cidade de Porto Alegre. “Trata-se de uma cidade que cresceu ‘expulsando determinadas populações de seus territórios’ e ‘apagando a história dos territórios negros’, sem reconhecer a contribuição dessas comunidades para o desenvolvimento e a cultura porto-alegrense.”

Nesse contexto, Mayer enaltece o papel da Associação de Amigos da Cabo Rocha, criada para “valorizar a história e a memória do território e construir novas possibilidades de futuro para a comunidade, por meio de uma cidade inclusiva, com cultura, arte e educação, para todas as antigas comunidades populares que resistem ao avanço da cidade na região central de Porto Alegre”.

Foto antiga de casas na rua Professor Freitas e Castro, conhecida historicamente como Cabo Rocha, onde a comunidade negra mantém viva sua história e pertencimento – Foto: Arquivo Associação Cabo Rocha

A origem e a atuação da associação

A Associação Cabo Rocha surgiu a partir de uma tragédia que comoveu a comunidade. “Eles resolveram fazer isso aqui por uma criança que tinha falecido, atropelada ali na frente. Então, começaram a fazer pra ter, tipo, uma praça, uma coisa com as crianças aqui dentro. Porque a gente não tem praça aqui, né? Tem praça lá na Marinha, tem em vários lugares, mas aqui mesmo, na rua, não tem”, explica Cacá.

Em cima do poste, a bicicleta do menino que partiu cedo demais se tornou símbolo de dor, memória e resistência comunitária – Foto: Marcela Brandes

O envolvimento de Cacá com a entidade começou em 2015. “Trabalhava e foi quando me aposentei”, lembra. Segundo ela, a associação sempre teve o objetivo de acolher e atender quem precisa. “Antes eu fazia comida, a gente dava comida pro pessoal da vila e quem quisesse vir pegar, pegava também. Mas quem vinha mais eram as crianças”, conta.

No espaço, havia uma pequena praça com brinquedos e uma horta comunitária. “A gente teve uma praça aqui, tinha bastante brinquedo. Mas como o espaço é pequeno, os brinquedos eram muito grandes e tivemos que doar. Ficamos sem brinquedo nenhum. Aí veio a pandemia, nós tínhamos aquela horta bonita, maravilhosa. Eu, ela e o tio dela vivíamos sempre fuçando na horta, tentando arrumar pra dar as coisinhas direitinhas. Tinha legumes, tudo. Agora já não tem quase, só mais ervas. A gente também distribuiu rancho na época da pandemia”, lembra.

Voluntários e moradores durante um encontro cultural – Foto: Arquivo Associação Cabo Rocha

A enchente e os impactos na vila

Como em muitas partes da Capital, a enchente de 2024 também atingiu a comunidade. “As pessoas na rua foram até a cintura. Aqui pra dentro ela entrou, mas não tanto. Em outras casas, que são fora daqui, entrou água dentro. Eu moro aqui, vim pra cá com quarenta e poucos anos”, relata.

Cacá recorda o tempo em que a região era espaço de convivência e lazer. “Eu era criança, aos sete anos morava na Arlindo, que agora é a Erico Verissimo. De um lado tinha um barranco, que é o lado do posto, do outro lado era o cantão. Aqui, onde é o estacionamento do jornal Zero Hora, era um campo de futebol. As meninas jogavam bola ali, os meninos também. Era muito bom. Agora a gente não tem uma coisa assim. Pelo menos a gente descia ali e se divertia. Não tem mais o divertimento que tinha antigamente, quando a gente era criança, até minha adolescência.”

É justamente esse espírito comunitário que a associação tenta resgatar. “Queremos esse resgate, para as crianças poderem viver melhor e entender como é a vida. Porque a vida não é só: vem um, te dá um troquinho, e tu vai fazer outras coisas erradas. A criança tem que aprender desde cedo a brincar, saber brincar, saber ter responsabilidade também. Isso faz parte da vida da gente”, afirma.

Projetos e desafios

Hoje, a Associação oferece aulas de capoeira todas as terças-feiras. “Na base, quase 20 crianças vêm”, diz Rita Manenti, integrante da associação. A ideia é ampliar o espaço e as atividades. “A gente precisa arrumar um galpão lá no fundo, fazer uma coisa maior pra deixar mais amplo pra eles brincarem e fazerem mais coisas. Pretendemos ter oficinas pra aprender a costurar, bordar, fazer qualquer coisa. Pode ser pra crianças, adultos ou idosos também.”

Cacá explica que o grupo funciona de forma voluntária. “A gente não se mantém por enquanto por nada, porque não tem. Somos voluntárias. Às vezes alguém doa alguma coisa pra gente, a gente faz alguma coisa. Mas, no contrário, temos que lutar pra fazer as coisas pras crianças.”

Entre as conquistas, Manenti destaca o apoio da Fundação Gerações, que ajudou na troca do telhado e da fiação elétrica. “Mas ainda tem muita coisa pra fazer. Até pra conseguir acomodar mais crianças, precisamos montar mais um espaço. Hoje atendemos terça e quinta-feira, mas pra ampliar, temos que terminar a reforma.”

“A ideia é fazer talvez uma biblioteca, passar filme pra eles, como a gente fazia antes”, complementa.

Pintura no muro da associação com a frase “Arte sobre movimentação. Movimento e ação” – Foto: Marcela Brandes

Sonhos e perspectivas

No local há uma frase pintada: “Arte sobre movimentação. Movimento e ação”. Para Cacá e Rita, ela representa o espírito do lugar. “A gente pensa na cozinha comunitária, que já tem um projeto. Tem o pedido de reconhecimento como ponto de cultura. A gente tem a oficina de bicicleta comunitária, a horta, e junto com a reforma vão vir outras atividades, como circo e feiras comunitárias, pra geração de renda. Já conversamos com voluntários pra trazer aula de muay thai e teatro, mas falta equipamento. Com a enchente, a gente perdeu tudo praticamente.”

Apesar das dificuldades, a presidente segue firme. “O telhado veio agora depois da enchente, tem seis meses que terminamos ele. Mas ainda tem muita coisa pra fazer”, reforça.

Reunião na Associação Cabo Rocha reforça o espírito coletivo e a luta pelo direito de permanecer no território – Foto: Arquivo Associação Cabo Rocha

Resistência e pertencimento

Moradora antiga da região, Cacá fala com emoção sobre o pertencimento ao território. “Eu morei ali, depois fui pra Teresópolis, depois voltei. Trabalhei como doméstica, morei nos empregos, depois casei. Aí morei lá na frente do ginásio da Brigada Militar. O dono queria a casa pra fazer outro negócio, aí uma prima conseguiu aqui, e eu moro naquela casa lá no fundinho, atrás das bike. O corredor do lado da oficina tem um portão branco, eu moro ali”, conta, rindo. “Tô sempre por aqui. Alguém precisa de alguma coisa, eu tô ali. Tô sempre em atividade.”

Ela também comenta sobre as disputas pelo espaço. “Aqui nós ocupávamos esse pavilhão, mas o prefeito resolveu ceder pra Polícia Federal. Isso estava na Justiça. Vieram, conversaram comigo, quiseram saber quem morava na casa. Eu disse: ‘Não mora ninguém ali, é um depósito, vai ser uma associação’. Mas o prefeito não pode doar uma coisa que tá na Justiça. Mesmo sendo prefeito, eu acho que não podia”, observa.

Para Cacá, as populações de baixa renda têm direito de permanecer no centro da cidade. “Eles querem sempre o espaço das pessoas menores. Eu acho que o povo também pode morar na cidade. A gente é gente. A gente não é bicho pra morar no meio do mato. E aqui é uma região quase central, praticamente. Por que o povo não pode morar na central? Tem que se esconder por quê? Por que é humilde? Tudo que é lugar tem coisa errada. Tu vai na rua do gran fino, não tem?”, questiona.

Rita Manenti, vice-presidenta da associação, organiza atividades com crianças e oficinas de capoeira – Foto: Marcela Brandes

Comunidade busca resgatar memória negra 

“Aqui tem registros de mais de 100 anos. Era o território negro de Porto Alegre, o berço do samba, como se diz, dos blocos de Carnaval. Nos livros antigos tem registro até dos cabarés que existiam aqui na Cabo Rocha”, conta a presidente da Associação.

A rua Cabo Rocha, hoje rebatizada como Professor Freitas e Castro, mas ainda chamada pelo nome antigo pelos moradores, fazia parte das áreas centrais na formação da cultura negra da cidade. “Era aqui o fervo noturno de Porto Alegre”, lembra a presidente.

Mesmo reconhecendo o valor histórico e cultural do território, a comunidade optou por não entrar com o pedido formal de reconhecimento como área quilombola. “A gente decidiu em reunião com os moradores que não entraria com o pedido. Foi bem na época em que a prefeitura ia fazer uma listagem com quase cem imóveis para vender, e havia o receio de que o terreno onde está a associação e a vila também fosse incluído, porque são bens da prefeitura”, explica.

A resistência também está ligada ao direito de permanecer na cidade. “A gente não quis pedir o reconhecimento porque não sabia se ia poder ficar ou não. Aqui tem muitas famílias vivendo juntas, às vezes duas ou três na mesma casa. O povo tem que viver na cidade. Tem gente que foi pra longe, pra Restinga, pra Viamão, e depende de ônibus. É um absurdo mandar as pessoas pra fora enquanto tem tanta casa vazia apodrecendo no centro”, desabafa Cacá.

Em 2004, parte da vila foi removida e as famílias transferidas para o conjunto Princesa Isabel. “O terreno ficou com a Zero Hora. A prefeitura comprou o terreno que era nosso”, lembra.

O espaço onde hoje funciona a associação comunitária ficou mais de dez anos desativado. “Em 2015 começou a associação aqui, depois de uma ocupação cultural chamada Pandorga, que oferecia mais de 20 atividades para as crianças da vila. Vinha gente de outros países dar oficina, foi um movimento muito bonito”, relata Manenti.

A prefeitura, no entanto, tentou a reintegração de posse. “A gente viu que precisava ter um CNPJ para entrar na Justiça pedindo o espaço de uso. Foi o que a gente fez e ganhou. Depois a prefeitura dividiu o espaço com a Polícia Federal, desmembrou a matrícula. Mesmo assim, a gente segue lutando para garantir o uso do lugar”, afirma.

Para Manenti e Cacá, o resgate da história do Cabo Rocha é também uma forma de reconstruir laços e memória. “A gente quer resgatar o que se perdeu, a beleza, o encanto da época em que as pessoas podiam estar na rua, as crianças brincando, os blocos desfilando. A ideia é retomar atividades, dar aulas pra crianças e adultos, e criar um museu pra que quem chegue entenda o que era isso aqui antes.”

Manenti destaca ainda a importância de manter viva a tradição oral. “Tem muita gente viva que pode contar essas histórias. Assim como a Cacá contou agora, tem mais gente pra relatar. A gente quer guardar essa memória pra que as crianças da vila saibam de onde vieram e possam contar pros filhos também.”

O pátio da associação é hoje o coração da vila — lugar de encontros, oficinas e histórias compartilhadas – Foto: Marcela Brandes

Cabo Rocha busca se tornar referência cultural e educativa no centro de Porto Alegre

As iniciativas da Associação Comunitária do Cabo Rocha, seguem crescendo, mesmo com as dificuldades financeiras e estruturais. Segundo Manenti, muitos projetos já estão em andamento, mas dependem de reformas e melhorias no espaço.

“É tudo muito caro para fazer. A gente já tem várias atividades engatilhadas, mas precisa de melhorias para conseguir avançar. Um dos principais projetos é voltado para os idosos da vila, porque muitos ficam em casa sem ter o que fazer. Queremos envolvê-los com os mais novos, para que ensinem e também aprendam com eles”, explica.

A proposta é unir gerações por meio de oficinas culturais e tecnológicas. “A ideia é oferecer oficinas de informática, ensinar a mexer no celular, e também fazer o resgate da cultura, com os mais velhos passando adiante o que viveram e como tudo aconteceu aqui”, pontua.

Ela lembra que muitos moradores mais antigos foram removidos quando o “progresso” começou a chegar na região. “Muitos foram levados para a Restinga. Nós, que ficamos, seguimos resistindo e não aceitamos negociação nenhuma para sair. Pode ser que uma hora tentem apertar de novo, mas agora estamos mais calçados, com o apoio do Cintia e do CTC, e mais estruturados”, afirma.

A transformação da vila também é visível na paisagem. “Hoje não dá mais para dizer que isso aqui é uma vila como antes. Não existem mais aqueles becos antigos, cada casa tem sua entrada. E o resgate cultural vai ser importante não só pra nós, mas pra cidade inteira. Quem entra aqui e vê o espaço não acredita que existe um lugar assim em pleno Centro”, relata.

Com localização estratégica, o espaço deve se consolidar como polo de cultura e educação. “A gente quer que o Cabo Rocha seja referência. Tanto na cultura quanto na educação, que ainda peca muito. Queremos dar rumo às crianças, aos mais velhos e aos jovens também. Temos o projeto da cozinha solidária, que ainda não pode ser implementado porque falta assinar o contrato, mas estamos esperançosos. Aos poucos, as coisas estão andando, os sonhos estão se realizando”, diz.

Projeto “Pedalo Repassa” incentiva autonomia e solidariedade através da bicicleta na Cabo Rocha

Desde 2022, o grupo Bike Anjo Porto Alegre mantém uma parceria com a Associação da Cabo Rocha. A iniciativa resultou na criação da Casa Bike Anjo, espaço compartilhado onde são desenvolvidos projetos como o Pedalo Repassa e a Escola Bike Anjo, realizada todo último domingo do mês.

À frente da oficina das bikes, Paula Moisés promove autonomia e solidariedade por meio do projeto Pedala ou Repassa – Foto: Marcela Brandes

Segundo Paula Moisés, voluntária da Bike Anjo, o Pedala ou Repassa atua na captação, manutenção e doação de bicicletas que estavam em desuso, destinadas a pessoas que não têm condições de comprar uma. “A gente doa essas bicicletas para quem precisa se deslocar na cidade, seja para o trabalho, para o lazer ou para atividades do dia a dia. É um projeto muito sobre autonomia através da bicicleta”, explica.

No momento, a iniciativa organiza uma campanha de arrecadação de bicicletas aro 24 e 26, voltadas a adolescentes da comunidade. “Já conseguimos bicicletas para as crianças menores, mas ainda precisamos das maiores. Quem quiser doar pode entrar em contato pelo Instagram @bikeanjopoa. Nós buscamos a bicicleta onde ela estiver, fazemos a manutenção e entregamos para quem precisa”, detalha Moisés.

O trabalho de manutenção é realizado em mutirões de voluntários aos domingos. “Cada um sabe um pouquinho, e a gente vai aprendendo com o que cada um sabe. É uma troca. Assistimos vídeos, pedimos ajuda, buscamos peças de doação. É tudo feito de forma colaborativa”, conta.

A entrega das bicicletas, segundo Moisés, é um dos momentos mais esperados pelo grupo. “A gente está organizando com a associação uma entrega antes do Natal. Sempre que vínhamos arrumar as bicicletas, ficávamos imaginando esse momento. É o mais importante, e emociona muito”, afirma.

Além da Cabo Rocha, o Pedala ou Repassa também realiza doações para comunidades indígenas e outros territórios populares, articuladas por meio de parcerias com ONGs e coletivos. “Essas organizações fazem a ponte entre o projeto e as comunidades, informando quantas bicicletas são necessárias. Assim, a gente constrói uma rede de solidariedade e mobilidade”, explica.

O projeto também inclui ações voltadas ao direito ao lazer e à mobilidade urbana. “Lazer também é um direito”, ressalta. “Por isso, as doações contemplam tanto as crianças quanto, futuramente, os adultos que usam a bicicleta para trabalhar.”

 “Todo último domingo do mês, a gente fecha a rua para os carros e abre para as pessoas. É um momento lindo, onde ensinamos pessoas de qualquer idade a pedalar – não precisa ter bicicleta, é só chegar”, conta Moisés.

Entrada da oficina comunitária de bicicletas, espaço de aprendizado e solidariedade na Associação Cabo Rocha – Foto: Marcela Brandes

A memória que deu origem à luta

O episódio mais marcante, segundo Cacá, foi a morte do menino que deu origem à associação. “Foi muito triste. A criança tinha oito anos. Eu não estava em casa. Fui buscar a minha neta no colégio, e quando cheguei, só vi o corpo estendido no chão. Ele tava brincando de bicicleta com outro menino, que morava do outro lado. Quando o caminhão dobrou, ele dobrou junto, só que ele vinha pela calçada. O caminhão bateu e ele caiu pra cima do caminhão”, lembra.

“Foi isso que deu início pra associação. A gente viu que não tinha como deixar a criança brincar na rua. É ruim, porque aqui tem oficina, os carros estão sempre… não tem quebra-mola, não tem nada, e a rua é curta. Os carros vêm voando, não estão nem aí”, lamenta.

Mesmo assim, ela mantém a esperança e a disposição de seguir cuidando. “Acho que as crianças têm que ter um lugar seguro, brincar, aprender e viver melhor. É isso que a gente quer pra elas aqui na Cabo Rocha.”

Espaço da horta comunitária, símbolo do cuidado coletivo e da solidariedade entre vizinhos – Foto: Marcela Brandes

Editado por: Katia Marko

|

Newsletter