memória histórica

Com mais de 1 milhão de mortos, genocídio Armênio completa 111 anos em meio a tentativa de apagamento por parte da Turquia

Pesquisadora Mariana Boujikian fala da importância do reconhecimento internacional do episódio histórico

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National Archives and Records Administration, College Park, MD
Tropa otomanas deportam armênios entre 1915 e 1916 | Crédito: National Archives and Records Administration, College Park, MD

O dia 24 de abril é marcado como o Dia da Memória do Genocídio Armênio, quando completam-se 111 anos do início de um processo de eliminação sistemática da população armênia pelo Império Otomano. Estima-se que 1,5 milhão de armênios tenham sido mortos no período. A Turquia, até hoje, nega a expressão “genocídio” para o episódio.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Mariana Boujikian, doutoranda em Relações Internacionais no Programa San Tiago Dantas e autora do livro “Memórias de um genocídio”, explica que o movimento ultranacionalista defendia a criação de “Uma Turquia para os turcos” e, em 1915, perseguiu e matou lideranças armênias em Constantinopla. “O povo armênio vivia dentro das fronteiras onde hoje são Síria, Palestina e Iraque. Eles viviam como minoria étnica e religiosa, mas viviam bem adaptados à vida social e viviam em relativa prosperidade. A partir da entrada de jovens turcos ultranacionalistas no poder, os armênios começam a ser perseguidos”, explica.

Em 24 de abril, as principais lideranças armênias foram presas e mortas. “A partir daí, esse grupo ultranacionalista passou a promover deportações em massa, expulsar os armênios que viviam no Império Otomano de suas cidades e vilas, e obrigá-los a marchar no deserto da Síria. Eles marchavam sem água, sem comida, sem nenhuma compatibilidade com a vida, e muitos armênios morrem nessas marchas. E também houve massacres, especialmente de homens em idade militar, para minar qualquer resistência do povo armênio”, explica Boujikian, que tem relação afetiva com o tema, já que sua bisavó foi sobrevivente do genocídio.

A Turquia nega que houve genocídio e que o deslocamento teria sido um plano de evacuação porque o país estava em guerra [Primeira Guerra Mundial]. Afirmam que os armênios teriam morrido em decorrência da guerra e negam o extermínio.

A pesquisadora afirma que, historicamente, a direita se apropria do episódio pela narrativa de se tratar de um povo cristão perseguido e morto no Oriente Médio, mas que essa narrativa é eivada de discriminação e, em certa medida, até mesmo de desconhecimento. “Tem esse imaginário do muçulmano bárbaro que a direita se apropria por preconceito e usa isso pelo fato de ser um povo cristão que foi perseguido. Mas o cristianismo não era o principal fator. O principal fator era étnico, nacionalista. O slogan desse grupo que estava no poder era ‘A Turquia para os turcos’, muito parecido com o que a gente ouve da extrema direita em vários lugares do mundo hoje em dia”, compara.

Por outro lado, Boujikian defende que existe uma certa ignorância histórica por parte da esquerda. “Sinto que [a esquerda] desconhece, até porque é muito pouco falado e a Turquia tenta apagar o ocorrido”, avalia.

Mariana Boujikian consegue observar um paralelo entre o ocorrido no início do século 20 e situações mais recentes, como o que vem acontecendo em Gaza contra o povo palestino. “O genocídio armênio foi noticiado e ignorado pela comunidade internacional. Muitos armênios morriam de inanição porque marchavam dias no deserto sem comida e sem água, em condições adversas. O que acontece em Gaza? Não entra comida. Não entram provisões mínimas para essa população que vem sofrendo um bloqueio criminoso por parte de Israel”, define.

Outro lado

Em contato com o Brasil de Fato, a Embaixada da Turquia afirmou que as interpretações sobre os acontecimentos de 1915 “distorcem fatos históricos e carecem de base legal”. Em carta enviada à redação, a representação diplomática sustenta que as mortes ocorreram no contexto da Primeira Guerra Mundial e nega que tenha havido uma política sistemática de extermínio da população armênia.

Leia a íntegra da nota:

Prezados Editores do Brasil de Fato,

Esta carta refere-se ao artigo intitulado “Com mais de 1 milhão de mortos, genocídio Armênio completa 111 anos em meio a tentativa de apagamento por parte da Turquia”, de Larissa Bohrer e Maria Teresa Cruz, publicado no site do Brasil de Fato.

O artigo inclui alegações que distorcem fatos históricos e carecem de base legal, reproduzindo narrativas unilaterais, em grande parte baseadas na memória histórica. No que diz respeito à complexa cadeia de acontecimentos ocorridos durante os últimos anos do Império Otomano, correspondentes à Primeira Guerra Mundial, é fundamental compreender esse período em sua totalidade, incluindo os acontecimentos anteriores a 1915. Permita-me esclarecer os fatos.

O Império Otomano adotava uma política de tolerância e inclusão em relação a todos os povos que compunham sua sociedade. Armênios ocuparam cargos na administração otomana, como Gabriel Noradunkyan, que foi Ministro das Relações Exteriores (1912-1913), apenas alguns anos antes do alegado “genocídio”. A entrada do Império Otomano na Primeira Guerra Mundial foi utilizada por grupos armados armênios para se revoltarem contra o governo e realizarem ataques, em colaboração com forças estrangeiras invasoras. Em decorrência das baixas sofridas, foi promulgada uma lei temporária para realocar — e não deportar — dentro do território do Império aqueles que viviam em zonas de guerra, como uma medida vital de segurança. A lei limitava-se à área de conflito e muitos armênios foram excluidos da realocação. A legislação também exigia que todas as medidas fossem tomadas para assegurar a segurança e o bem-estar dos realocados durante o processo. De fato, centenas de milhares de armênios chegaram em segurança aos seus novos assentamentos. Funcionários que violaram instruções governamentais e cometeram infrações foram julgados e punidos (dos 1673 julgados, 659 foram condenados).

A alegação presente no artigo sobre “a morte de mais de 1,8 milhão de armênios entre 1915 e 1923”, também contradiz claramente todos os dados demográficos e históricos, incluindo fontes armênias originais.

A alegação infundada sobre a fome deliberadamente imposta aos armênios durante a realocação e reassentamento não possui base histórica e desconsidera completamente a situação catastrófica causada pelas guerras, pelo grande fluxo migratório e pela crise econômica no final da história otomana, que também afetou milhões de emigrantes muçulmanos deslocados à força dos Bálcãs e do Cáucaso, os quais mal tinham acesso a alimento e abrigo na Anatólia. Apesar das difíceis circunstâncias durante a Primeira Guerra Mundial, o Governo Otomano realizou um esforço significativo para garantir que as necessidades da população armênia realocada fossem atendidas, destinando recursos para alimentação, vestuário e abrigo, além de pagar auxílio diário aos realocados.’ Os arquivos estão repletos de registros históricos que comprovam os esforços otomanos em prol do bem-estar da população realocada e refutam a alegação de uma política deliberada de fome. Mesmo nos tempos turbulentos da Primeira Guerra Mundial, o Governo Otomano permitiu que missões humanitárias fornecessem ajuda e assistência à população realocada tanto durante o trajeto quanto nas áreas de chegada, além de seus próprios esforços nesse sentido.

Também é fundamentalmente errado traçar paralelos entre os acontecimentos de 1915 e a agressão genocida de Israel contra a população palestina em Gaza, cujo histórico é claramente evidenciado pela comunidade internacional. Deslocamento forçado, punição coletiva, destruição de infrastrutura civil, incluindo hospitais, escolas e até locais de culto, mesquitas e igrejas, uso da fome como arma de guerra, ataque deliberado a civis e um bloqueio israelense ilegal que já dura duas décadas são fatos incontestáveis dessa campanha de aniquilação. O povo palestino em Gaza foi privado do acesso a alimentos, água potável, medicamentos e combustivel necessários para sobreviver em condições extremas. 74 mil palestinos foram massacrados pelas forças israelenses.

Centenas de milhares ficaram feridos e 2 milhões foram deslocados. Com base nesses fatos, a Türkiye apresentou uma declaração de intervenção no caso perante a Corte Internacional de Justiça, a fim de responsabilizar Israel nos termos da Convenção de 1948 para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocidio.

Retornando aos acontecimentos de 1915, deve ser reconhecido que a desintegração do Império foi um período extremamente doloroso para milhões de otomanos de diferentes origens religiosas e étnicas, cuja memória deve ser honrada sem distinção (de acordo com registros históricos, cerca de 5 milhões de turcos e outros muçulmanos foram massacrados nesse episódio).

Além disso, “genocídio” é um conceito juridico extremamente específico, que designa um crime claramente definido, com requisitos rigorosos, e que somente pode ser estabelecido por um tribunal competente, conforme a Convenção de Genocídio de 1948. Tribunais da ONU confirmaram que esse crime exige um padrão probatório muito elevado. Em relação aos acontecimentos de 1915, não existe tal julgamento. De fato, a Corte Europeia de Direitos Humanos estabeleceu, em 2015, que os acontecimentos de 1915 constituem um tema de debate legítimo de interesse público.

Períodos controversos da história devem ser objeto de debate sereno entre estudiosos competentes e imparciais. De fato, a Türkiye propôs à Armênia, em 2005, a criação de uma comissão conjunta de historiadores, com o objetivo de alcançar uma narrativa compartilhada baseada em uma memória justa e objetiva. Essa proposta continua em aberto. Além disso, os arquivos otomanos estão abertos e acessíveis à pesquisa, enquanto os arquivos armênios ainda não estão totalmente abertos. Governos e parlamentos não devem tentar assumir o papel do Judiciário ou dos historiadores ao adotar posições sobre debates históricos e aprovar leis que conflitem com o direito internacional, desencorajando a pesquisa acadêmica e arquivística. Também deve ser destacado que, no debate sobre os acontecimentos em questão, as partes se opõem à exploração política do tema por terceiros países e atores externos, enquanto círculos armênios moderados também questionam as alegações de genocídio.

A posição da Türkiye em relação aos acontecimentos de 1915 baseia-se na empatia e no diálogo. De fato, em 24 de abril deste ano, assim como nos anos anteriores, o Presidente Erdogan divulgou publicamente uma carta de condolências ao Patriarcado Armênio da Türkiye. Sem negar o sofrimento dos armênios, a Türkiye se opõe à apresentação desse episódio como um “genocídio”, uma vez que tal interpretação não apenas contradiz o direito internacional e os fatos históricos, mas também desconsidera completamente o sofrimento de outros povos.

Atenciosamente,
Halil İbrahim Akça
Embaixador da República da Turquia

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

*O texto foi atualizado em 22 de maio para incluir o posicionamento da Embaixada da Turquia.

Editado por: Luís Indriunas

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