“Eu não tenho memória direta desse acontecimento, mas o trauma se inscreve no corpo mesmo quando não é lembrado. Ele aparece na forma como a gente sente, se relaciona e se posiciona no mundo.” Bailarina, coreógrafa e ativista, Lili de Grammont tinha dois anos quando sua mãe, a cantora Eliane de Grammont, foi assassinada pelo pai, o cantor Lindomar Castilho, tido como rei do bolero, em 1981, em São Paulo.
Em entrevista ao Brasil de Fato RS, ela reflete sobre os impactos dessa violência na construção da identidade, o papel da arte como forma de elaboração e intervenção política e os caminhos para a prevenção. “O feminicídio é um crime social. Quando uma mulher morre em decorrência dele, todos nós somos culpados.”
Ao relacionar sua experiência com uma estrutura mais ampla, Lili aponta que o feminicídio está inserido em uma violência de gênero histórica e naturalizada. Foi na arte o seu primeiro lugar de elaboração, antes mesmo da fala, ao tratar o corpo como espaço de memória, elaboração e expressão. “Com o tempo, fui compreendendo que a minha história não era um caso isolado.”
Confira, abaixo, a entrevista completa:
Brasil de Fato RS – Você tinha apenas dois anos quando sua mãe foi assassinada. Ao longo da sua trajetória, como esse acontecimento impactou a construção da sua identidade e da sua visão sobre a violência de gênero?
Lili de Grammont – Eu tinha dois anos quando minha mãe, Eliane de Grammont, foi assassinada pelo meu pai, Lindomar Castilho. Eu não tenho memória direta desse acontecimento, mas o trauma se inscreve no corpo mesmo quando não é lembrado. Ele aparece na forma como a gente sente, se relaciona e se posiciona no mundo.
Porque, por mais que eu não me lembre do fato em si, eu lembro, e muito, de todas as consequências e perdas decorrentes dele. Primeiro perdi minha mãe para o feminicídio. Depois, já com seis anos, meu pai foi preso e paramos de nos ver.
O homem que mata também morre. No dia em que entendi que meu pai era o assassino da minha mãe, ele morreu para mim. Morreu também uma ideia de família. E, mais tarde, perdi minha avó materna, que me criou até os 15 anos, para um câncer. Foram três lutos e uma vontade muito grande de seguir.
Ou seja, eu lembro.

Durante muito tempo, essa ausência foi difícil de compreender. Eu esperei pela minha mãe. Ficava na porta e, toda vez que a campainha tocava, dizia que era ela. Minha avó me dizia que ela estava no céu, que não iria voltar. Tentei dar sentido àquela falta, até conseguir, de alguma forma, simbolizar essa perda. Imaginei minha mãe dentro da lua e dizia que colocaria uma escada em cima da outra para chegar até ela.
Porque, para a mulher que morre, é o fim. Mas, para o órfão, é o começo de uma longa travessia que dura a vida toda. Um buraco no peito, um vazio difícil de preencher.
Crescer a partir dessa ruptura impacta diretamente a construção da identidade. Existe uma tentativa constante de organizar internamente algo que não deveria ter acontecido. Não se espera que justamente quem deveria te proteger se torne o assassino. Eu amava meu pai. Eu amava o assassino da minha mãe. E, muitas vezes, o que não é elaborado continua agindo, fazendo escolhas pela gente, atravessando nossos vínculos, nossos medos e nossas formas de amar.
Muitos órfãos do feminicídio crescem entendendo que amor é violência. Esse é o maior perigo. Porque deixar de entender que amor é cuidado é perder a capacidade de amor próprio. Perder a capacidade de amar é talvez o efeito mais desumano que um trauma pode deixar.
Com o tempo, fui compreendendo que a minha história não era um caso isolado. Ela fazia parte de uma estrutura maior, de uma violência de gênero histórica, cultural e muitas vezes naturalizada. O patriarcado aparece de formas sutis, em letras de música, na ausência de mulheres em posições de poder, na ideia de que o trabalho doméstico é uma obrigação feminina.
Muitos homens não reconhecem como violência aquilo que aprenderam como normal.
Também fui entendendo a importância do acolhimento nesse processo. Ninguém elabora um trauma sozinho. O trauma não é apenas o evento em si, mas a forma como ele é vivido ao longo da vida. A escuta e o acolhimento fazem toda a diferença na possibilidade de reconstrução.
Hoje, a minha identidade passa por esse processo de elaboração. Não no sentido de superar, mas de transformar. Eu reconheço que, por ser mulher branca, existe um lugar de privilégio que me permite possibilidades econômicas de receber ajuda especializada e, através de terapia continuada, conseguir olhar para a minha história, dar nome a ela e construir um sentido a partir dela. Muitas pessoas não têm essa possibilidade. Isso deveria ser uma obrigação do Estado para todas as vítimas de violência, direta ou indireta.
É justamente por isso que falar se torna também um compromisso. Dar voz à minha experiência é, de alguma forma, também falar por aquelas e aqueles filhos que não conseguem falar por si. É transformar a dor em consciência e uma chamada para a ação.
Sua produção artística, como “Memória em Conta-Gotas”, elabora essa experiência. Como a arte se tornou um caminho de elaboração e também de intervenção política no enfrentamento ao feminicídio?
A arte foi o meu primeiro lugar de elaboração, antes mesmo da fala. Durante muito tempo, eu não conseguia nomear o que tinha vivido, mas o meu corpo sabia. A dança veio como uma forma de organizar aquilo que não cabia em palavras. De dar forma ao que era silêncio, ao que era ausência, ao que era dor.
Obras como Memória em Conta-Gotas e Casa de Vidro nascem desse lugar. Não como uma narrativa direta, mas como uma tentativa de acessar camadas mais profundas dessa experiência. A memória não é linear, ela aparece em fragmentos, em sensações, em imagens. E a arte me permitiu lidar com isso sem precisar explicar tudo.
Com o tempo, fui entendendo que esse processo não era só pessoal. Quando esse corpo entra em cena, ele carrega uma história que não é só minha. Ele ativa memórias em outras pessoas, cria identificação, abre espaço para que outras dores também apareçam.
É aí que a arte se torna política. Porque ela rompe o silêncio. Ela desloca. Ela cria um campo de escuta que muitas vezes o discurso não alcança. A arte tem a capacidade de tocar onde a razão não chega. No caso do feminicídio, isso é fundamental. Porque estamos falando de uma violência que muitas vezes é invisibilizada, naturalizada ou tratada como algo isolado.
A arte permite mostrar que não é isolado. Que é estrutural. Que atravessa corpos, histórias e gerações. Ao mesmo tempo, ela também abre a possibilidade de reconstrução. Porque, se o trauma se inscreve no corpo, a elaboração também pode acontecer através dele. Então, para mim, a arte é esse lugar de transformação. Onde a dor pode ganhar forma, sentido e, aos poucos, deixar de ser só ruptura para se tornar também possibilidade de cura, ou o caminho da cura.
Muitos órfãos do feminicídio crescem entendendo que amor é violência. E esse é o maior perigo
No seminário do Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) realizado em março, você destacou que os feminicídios são evitáveis. Na prática, que mudanças estruturais são necessárias para que essa prevenção aconteça de forma efetiva?
Quando eu digo que o feminicídio é evitável, eu estou falando da necessidade de agir na raiz do problema.
Isso começa na forma como criamos nossos filhos. Precisamos educar meninos para que entendam e elaborem seus próprios sentimentos, e meninas para que acreditem que podem ser o que quiserem, não o que uma sociedade ainda marcada pela misoginia impõe.
Também é fundamental reduzir a morosidade dos processos e aumentar o rigor nas respostas do Estado. Isso vale não só para o feminicídio, mas para todas as formas de violência contra a mulher, como a violência sexual, moral e psicológica, que muitas vezes nem são devidamente reconhecidas ou contabilizadas.
As medidas protetivas precisam ser levadas a sério. Muitas mulheres que foram mortas já tinham denunciado, já tinham pedido ajuda. Isso não pode ser naturalizado. O Estado precisa se responsabilizar quando falha em proteger uma mulher que buscou ajuda.

Muitas vezes, essas mulheres são desacreditadas e revitimizadas. Só passam a ser ouvidas quando a violência física aparece, quando já é tarde demais. Existe uma exigência constante de prova, como se a palavra da mulher não fosse suficiente. E, em muitos casos, elas acabam morrendo justamente no processo de tentar provar que estavam dizendo a verdade.
Outro ponto essencial é trabalhar com os próprios autores de violência. Muitos homens não reconhecem como violência aquilo que aprenderam como normal. Frases como “minha mulher tem que ser como minha mãe” ou “meu pai não batia porque minha mãe obedecia” revelam padrões profundamente enraizados de desigualdade e controle.
Criar espaços de escuta e reflexão com esses homens, trabalhar masculinidades, sem ataque, mas com responsabilização, é um caminho mais lento, mas necessário para uma transformação real.
É fundamental chamar outros homens para essa ação. A transformação não pode ser responsabilidade só das mulheres. Quem tem amigo não bate na mulher. É preciso que os próprios homens se responsabilizem, se posicionem e não naturalizem a violência dentro dos seus próprios círculos.
Hoje há um fator novo e muito preocupante, que é o crescimento de conteúdos misóginos, especialmente na internet. Jovens consumindo discursos que ensinam que a mulher deve obedecer, que o homem precisa retomar o controle, que naturalizam a humilhação e a violência.
Isso aparece também em letras de música que objetificam o corpo da mulher, em narrativas que culpabilizam a vítima, em conteúdos que reforçam que o homem tem direito sobre o corpo e as escolhas da mulher.
Por isso, o enfrentamento também passa por educação, regulação e responsabilização nesses espaços.
A prevenção exige mudança estrutural, cultural e institucional. Sem isso, continuamos apenas reagindo ao que já poderia ter sido evitado. O feminicídio é um crime social! Quando uma mulher morre em decorrência dele, todos nós somos culpados.
Nos últimos anos, o que de fato mudou no enfrentamento aos feminicídios no Brasil, especialmente em relação à visibilidade dos casos, ao enfrentamento da subnotificação e, principalmente, à atenção destinada aos órfãos dessas violências?
Nos últimos anos, o enfrentamento ao feminicídio no Brasil passou por avanços importantes, especialmente no campo legislativo, na produção de dados e na ampliação da visibilidade dos casos.
Um dos marcos mais relevantes foi a criação da pensão especial para órfãos do feminicídio, instituída pela Lei nº 14.717/2023, que garante um salário mínimo para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Esse é um avanço concreto no reconhecimento dessas vítimas indiretas, embora ainda limitado a uma resposta de caráter assistencial.
Também houve mudanças significativas na tipificação do crime. A Lei nº 14.994/2024 transformou o feminicídio em crime autônomo, o que contribui para maior precisão nos registros e melhora a visibilidade estatística. Além disso, houve aumento de penas e fortalecimento de mecanismos de monitoramento, como a ampliação da Patrulha Maria da Penha e o acompanhamento das medidas protetivas.
No campo da informação, a integração de dados entre instituições, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Conselho Nacional de Justiça, permitiu maior controle sobre a subnotificação, ainda que ela permaneça um desafio estrutural, especialmente nos casos de violência psicológica, moral e sexual.
Apesar desses avanços, os dados mais recentes mostram que ainda existe um descompasso entre a evolução normativa e a realidade. O Brasil registrou, em 2025, o maior número de feminicídios da última década, com a maioria dos casos ocorrendo dentro de casa e atingindo principalmente mulheres negras.
Isso indica que, embora haja avanços na legislação e na visibilidade, a violência continua profundamente enraizada nas estruturas sociais, culturais e institucionais.
No que se refere aos órfãos do feminicídio, houve um reconhecimento inicial, mas ainda insuficiente. A política atual se concentra majoritariamente na dimensão financeira, sem contemplar de forma estruturada o acompanhamento psicológico, social e o cuidado continuado dessas crianças.
A pensão é um avanço importante, mas é insuficiente diante da complexidade do que essas crianças vivenciam. Estamos falando de crianças que tiveram suas histórias atravessadas por uma ruptura extrema, que precisam de suporte para elaborar essa experiência, expressar seus sentimentos e reconstruir sua capacidade de se relacionar.
Por isso, defendo a criação dos Centros de Referência para Órfãos do Feminicídio, espaços especializados que possam oferecer acompanhamento psicológico, social, além de atividades que permitam que essas crianças retomem algo fundamental: o direito de serem crianças.
É nesse processo que elas podem compreender que amor não é violência, que elas não são a história dos seus pais e que podem construir outras formas de vínculo e de família.
Como lembra bell hooks, o amor é ação. O amor é verbo. Ele se manifesta naquilo que fazemos pelo outro e por nós mesmos. E é justamente essa capacidade de amar que precisa ser preservada e reconstruida.
