A permanência do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Outras Drogas (Caps AD III) Candango no Setor Comercial Sul (SCS) está sob ameaça. O Governo do Distrito Federal (GDF) articula a remoção da unidade, única da capital voltada ao atendimento de pessoas com uso problemático de substâncias no Plano Piloto, para o Setor de Abastecimento e Armazenamento Norte (Saan).
A medida é apontada por trabalhadores e movimentos sociais como parte de um processo de “higienização urbana”, que visaria retirar a população vulnerável e em situação de rua do “coração de Brasília”.
A possível retirada do serviço ocorre em um momento de saturação da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) no Distrito Federal. Atualmente, o DF conta com apenas 18 unidades de Caps para uma população estimada em 3 milhões de habitantes, o que representa uma média de um centro para cada 166 mil pessoas.
Os dados da Secretaria de Saúde do Distrito Federal revelam que a demanda por atendimento em saúde mental cresce em ritmo acelerado na capital. Somente no primeiro semestre de 2025, foram realizados mais de 200 mil atendimentos, enquanto em 2024 o volume superou a marca de 333 mil. Entre 2017 e 2024, os procedimentos nos CAPS do DF saltaram de 596 mil para 1,52 milhão, configurando um aumento de 155% em sete anos.
Território como ferramenta de cura
Para Romeu Sérgio Maia de Albuquerque, psicólogo do Caps Candango, a localização no SCS é estratégica devido à acessibilidade e proximidade com o público de maior vulnerabilidade.
“A tentativa de retirada do Caps Candango do seu território e a proposta de sua realocação no Saan praticamente inviabilizaria a atuação deste serviço devido às características deste local”, analisa. Ele pontua que a área comercial é de difícil acesso e isolada, o que significaria o “desmonte” da função terapêutica da unidade.
O psicólogo defende que o Caps trabalha na lógica da emancipação e não apenas na doença. “O atual governo tem investido regularmente os recursos orçamentários em serviços de Comunidade Terapêuticas que têm tratamentos baseados no isolamento e são orientados por um discurso religioso. Ato de gestão que é uma nítida violação da lei da Saúde Mental”, critica. Segundo ele, a política pública deveria focar na reinserção social no meio da comunidade, conforme previsto na legislação.
Márcia Caldas, psicóloga do coletivo Café com Escuta, reforça que o atendimento no centro é um direito que garante dignidade. “O Caps AD está ali porque é central, as pessoas podem ir se tratar, não precisam pagar a passagem. Vai ser um horror se sair dali”, alerta. Ela destaca que o serviço oferece afeto e escuta, algo que equipamentos baseados no isolamento não conseguem atingir.
Higienização e ‘maquiagem’
A coordenadora nacional do Movimento de População de Rua pelo Distrito Federal, Joana Basílio, classifica o projeto como uma tentativa de esconder a desigualdade social. “É um projeto de retirar direitos, de higienizar de fato a cidade, tirar as pessoas em vulnerabilidade social do meio da cidade para esconder a verdadeira realidade de Brasília. Isso é uma maquiagem que estão tentando fazer”, denúncia.
Basílio critica a proposta de “internação involuntária humanizada” defendida pela governadora em exercício Celina Leão (PP). “Ela quer simplesmente que um juiz decida sobre a vida da pessoa sem ter formação acadêmica, técnica. Não é assim que se conduz uma política séria que de fato faça o processo de saída das ruas”, afirma. A ativista defende que o foco deveria ser o fortalecimento da Raps e a oferta de serviços de “portas abertas”.
Mobilização
Diante do avanço do projeto de remoção, movimentos sociais e trabalhadores organizam um ato em defesa do CAPS Candango. A mobilização está prevista para o próximo dia 14 de maio, em frente à unidade no Setor Comercial Sul. O objetivo é pressionar o governo a manter o serviço no território e garantir investimentos para melhorar as condições de trabalho e atendimento.
Procurado pela reportagem para se posicionar, o Governo do Distrito Federal não enviou resposta até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações.
Em nota ao Brasil de Fato DF, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) afirmou que políticas públicas voltadas à população em situação de rua devem priorizar a oferta de serviços em áreas centrais e de grande circulação, como o Setor Comercial Sul, por serem territórios onde há maior concentração desse público e maior possibilidade de acesso.
O ministério destacou que eventuais mudanças na localização de unidades como o Caps Candango precisam considerar os impactos diretos no acesso da população atendida, especialmente de pessoas em maior vulnerabilidade, além da articulação com os serviços já existentes no território.
Informou ainda que o Distrito Federal ainda não aderiu ao Plano Nacional Ruas Visíveis, iniciativa do governo federal voltada à promoção de direitos e inclusão social dessa população. Por fim, o MDHC defendeu a atuação articulada entre União, estados e municípios para garantir que decisões sobre a rede de atendimento considerem as especificidades dos territórios e assegurem a continuidade do cuidado.
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