A Cidade Baixa era um local de negros libertados ou fugidos da escravidão, imigrantes, artesãos e trabalhadores pobres, um terreno baixo, acidentado, enlameado e cheio de árvores e capões (pequenas florestas) no final do século 19. Hoje está se transformando em área de espigões e prédios de até 60 metros ou cerca de 20 andares, segundo previsão do novo Plano Diretor (2025-26), em tramitação final na Câmara de Vereadores de Porto Alegre.
Muita história vai desaparecer, muitas lembranças vão morrer com o tempo em nome do aumento da verticalidade, da renovação urbana e da oferta de moradias. O foco é otimizar áreas consolidadas, mas o aumento da verticalização gera debates sobre as transformações que estão ocorrendo. A intenção dos atuais gestores de Porto Alegre é criar uma nova Cidade Baixa, com maior densidade habitacional, reaproveitamento de imóveis antigos, alterando o seu perfil clássico — boêmio, simpático, alegre, espontâneo, cultural, artístico, simples e, ao mesmo tempo, requintado.
O antigo Areal da Baronesa, ou Arraial da Baronesa, de tantas histórias e recordações, centro da comunidade negra de Porto Alegre, entre as atuais ruas Venâncio Aires e da República, resiste bravamente a todas essas mudanças e tenta sobreviver com seu espírito de ancestralidade, solidariedade e alegria. Suas origens vêm do século 18.
Em meados do século 19, várias ruas foram sendo abertas na região, a fim de dar acesso a pequenas propriedades e escoar sua produção de hortifrutigranjeiros até o Centro. O fim da escravidão, em 1888, reforçou o espírito da região, com muitos libertados encontrando por lá sua morada e uma nova vida. Como viviam em senzalas, em precárias condições humanas e higiênicas, encontraram ali um refúgio ainda carente, mas mais acolhedor.
‘Contra a tirania do verdugo’
A mais importante das chácaras da região pertencia a João Baptista da Silva Pereira, Barão de Gravataí (1797-1853). Após sua morte, sua esposa, Maria Emília de Meneses (1802-1888), baronesa em direito próprio desde 1853, herdou a propriedade, daí seu nome. Compreendia os terrenos da atual Praça Cônego Marcelino e os trechos delimitados pelas ruas Baronesa de Gravataí, Barão de Gravataí, Coronel André Belo e Miguel Teixeira.
A sede da chácara era um casarão incendiado em 1878, mas o local permaneceu e hoje abriga a Fundação Pão dos Pobres, fundada em 1895.
O escritor Aquiles Porto Alegre conheceu a área e registrou que “os escravos que se revoltavam contra a tirania do verdugo, seu dono, procuravam de preferência aquele lugar para esconderijo, porque as matas ali eram espessas e eles encontravam alimentos, principalmente frutas silvestres, como o araçá, a cereja, a pitanga, o maracujá, o joá, o ananás (abacaxis) e tantas outras frutas silvestres”.
Mais tarde, com a construção de quartéis da Brigada Militar na região — na época, a Cidade Baixa mesclava áreas que hoje pertencem aos bairros Praia de Belas e Menino Deus —, muitos soldados estabeleceram residência no Areal da Baronesa. Na década de 1940, o Arroio Dilúvio, principal fonte das inundações da região, começou a ser retificado, permitindo rápida urbanização do local e crescimento da população residente.
Religião, carnaval, samba e música popular

A comunidade negra sempre se identificou com o Areal e seus rituais e modos de viver. Ali proliferaram casas de religião, blocos carnavalescos, rodas de samba e músicos populares, formando uma cultura própria. Os antigos moradores foram saindo para locais mais distantes com o avanço da urbanização da região, mas sobrevive a Comunidade Quilombola do Areal, situada na avenida Luiz Guaranha e estruturada como associação comunitária, ocupando cerca de 4,5 mil m², onde vivem aproximadamente 80 famílias.
Em 2002, a comunidade recebeu certificado da Fundação Cultural Palmares, sendo reconhecida como um dos poucos quilombos urbanos do Brasil. Em 2013, o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação reconheceu a área como antigo território quilombola, designação oficializada em 11 de julho de 2015 pela prefeitura. Com o decreto, a região se tornou Área Especial e de Interesse Cultural, e sua posse passou a ser coletiva, não podendo ser vendida ou penhorada.
O Areal é uma das referências do Museu de Percurso do Negro em Porto Alegre.
O bairro Cidade Baixa foi criado oficialmente em 1959 e teve seus limites alterados pela Lei 4.685, de 21 de dezembro de 1979. Sua população é de cerca de 20 mil habitantes e concentra aproximadamente 1,09% dos moradores da capital gaúcha, vivendo em uma área de cerca de 76,2 hectares. O nome deriva de sua posição geográfica inferior à Praça da Matriz, enquanto a elite vivia no Centro Alto. O território também é ancestral do povo Mbyá Guarani, que já ocupava a região próxima ao Guaíba antes das construções formais.
A resistência da comunidade negra

Jeanice Ramos, jornalista, museóloga e estudiosa da causa negra em Porto Alegre, é uma defensora do Areal da Baronesa:
“Ali existe um grupo de moradores que não se rende à especulação imobiliária. Tem noção de coletivo e vive em harmonia. Todo mundo se conhece e a solidariedade impera. No Carnaval, momento significativo, recebe pessoas de diferentes bairros numa festa só. Areal é sinônimo de bem-querer. Cultura viva de nossa capital. Exemplo de união e fraternidade. É uma comunidade negra de respeito! Vida longa para o Areal da Baronesa!”
O escritor, professor aposentado e fundador do curso de Arquitetura da PUCRS, Renato Gilberto Gama Menegotto, afirma, no livro “Porto Alegre, Cidade Baixa: um bairro que contém seu passado” que a ideia da pesquisa foi reconstituir os elos de sociabilidade do bairro histórico a partir de suas características arquitetônicas e urbanísticas.
“Uma das peculiaridades das casinhas antigas é o plano das fachadas colado ao passeio público, composição que diz muito acerca da relação estabelecida ali entre o âmbito público e o privado.”
Conforme relata Menegotto, formado em 1975 na Unisinos, esse cenário estimula desde cumprimentos e acenos de saudação até breves paradas para uma boa prosa entre moradores e transeuntes, o que faz pensar em que medida a configuração urbanística preserva — ou dificulta — os hábitos de convivência social.

O jornalista e editor da Revista Tição, da comunidade negra, Emílio Chagas, garante que o Areal da Baronesa está inserido naquilo que é uma das coisas mais caras para o povo negro: o conceito de territorialidade.
“Era local para os que escapavam da escravidão, os negros fugidios, e depois tornou-se um legítimo território negro que, ao longo das décadas, formou-se como símbolo de resistência, dos primeiros focos carnavalescos e de vivências com nuances de ancestralidade e religiosidade. É importante não esquecer que na região viveu o Príncipe Custódio, que introduziu o batuque na cidade, além de ser considerado responsável pelo assentamento do Bará do Mercado.”
Para Emílio, a região também foi palco de grande resistência cultural, de músicos que acabaram por introduzir o samba-rock na cultura brasileira, como Bedeu, Luís Vagner, Leleco Teles e o Grupo Pau Brasil, entre outros.
“Tudo isso está representado pelo Quilombo do Areal, um dos poucos quilombos urbanos que a cidade tem, depois de ter sido um grande território negro através da Colônia Africana, da Ilhota e de outros espaços que foram varridos para a periferia sem nenhuma política pública.”
A ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas e ativista Vera Daisy Barcellos se concentra na Travessa dos Venezianos como parte do berço e base de moradias da população negra da Capital.
“O bairro todo hoje está ocupado pelo comércio e por bares. A resistência enquanto marco do povo afro-brasileiro está na última residência do espaço, muito conhecida como a casa de benzedura do Pai Alfredo.”
Ela recorda que os bares tomaram conta da travessa, que ainda mantém um encanto.
“Há 15 anos, ela é marco de um evento realizado no mês de dezembro pela banda de samba raiz Puro Asthral, denominado pré-réveillon. O evento reverencia a antiga travessa, que, para além do povo negro, rende homenagem para aqueles que, junto com outras etnias, atravessaram o Oceano Atlântico e povoaram a região. Ali, na minha opinião, seguem guardados, ao longo dos anos, o encanto e a magia.”
