SAÚDE E CLIMA

Na OMS, ministro Padilha defende resposta global à crise climática e redução das desigualdades em saúde

Brasil articula fortalecimento do SUS, ampliação da produção de vacinas e defesa da cooperação internacional

Na 79ª Plenária da Assembleia da OMS, ministro abordou temas como a preparação para novas pandemias, adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas e a importância da cooperação internacional
Na 79ª Plenária da Assembleia da OMS, ministro abordou temas como a preparação para novas pandemias, adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas e a importância da cooperação internacional | Crédito: Rafael Nascimento/MS

Em meio às negociações da Assembleia Mundial da Saúde (AMS), em Genebra, o Brasil participa do debate global com uma agenda que articula o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), a ampliação da produção nacional de vacinas e medicamentos e a defesa da cooperação internacional em saúde.

À frente do Ministério da Saúde, Alexandre Padilha tem conduzido iniciativas voltadas à recomposição de políticas públicas, à expansão da cobertura vacinal e à preparação do sistema para enfrentar novos desafios, como eventos climáticos extremos e emergências sanitárias.

Na Assembleia, o país atua em temas estratégicos como financiamento da saúde global, inovação tecnológica e redução das desigualdades — além de pautas emergentes, como os impactos da crise climática e a regulação de fatores de risco associados às doenças crônicas.

Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato RS, Padilha destaca o papel do Brasil na articulação internacional em saúde e defende medidas estruturais para enfrentar esses desafios. “A crise climática já é uma crise de saúde pública”, afirma. Segundo ele, também é necessário avançar na regulação de fatores que impactam diretamente a saúde da população: “O aumento do consumo de ultraprocessados tem relação direta com o aumento da obesidade, do diabetes e de problemas de saúde mental”.

O ministro também aborda a preparação para novas pandemias, a adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas e a importância da cooperação internacional. Nesse contexto, destaca a relevância histórica da parceria com Cuba e critica os efeitos de sanções econômicas sobre sistemas de saúde: segundo ele, experiências como a cubana seguem sendo referência de formação de profissionais, produção de tecnologias e atuação solidária em dezenas de países, reforçando o papel da cooperação entre países do Sul Global.

Brasil de Fato: Ministro, pela agenda do Brasil aqui na Assembleia Mundial da Saúde, dá para ver uma atuação forte em temas como financiamento, inovação e cooperação global. Qual é hoje o principal objetivo do Brasil nesses fóruns — influenciar as decisões globais ou defender prioridades nacionais?

Alexandre Padilha: As duas coisas andam juntas, defender a soberania nacional, mais acesso e produção e inovação tecnológica no Brasil, atraindo investimentos de empresas, países, universidades do mundo inteiro e, com isso, também ter mais influência sobre os temas da saúde global. A saúde global hoje tem dois grandes desafios, um, o impacto das mudanças climáticas sobre a saúde pública. A crise climática já é uma crise de saúde pública, que afeta um em cada 12 hospitais por ano no mundo, que fez surgir doenças onde elas não existiam por conta do aumento da temperatura média, que aumentou o volume de prematuros e doenças da gravidez, como mostram os dados da Fiocruz, e que afeta fortemente os profissionais gestores de saúde em todo o mundo. O outro grande desafio é o envelhecimento da população, o aumento das doenças crônicas e o custo e a equidade das novas tecnologias de saúde envolvidas com elas. Para enfrentar e para poder influenciar nos rumos da saúde global, para estar cada vez mais forte nesse debate, o Brasil conseguir resolver problemas nacionais como atrair investimentos, produzir mais vacinas, medicamentos, para dar segurança à saúde do povo brasileiro, faz com que a gente esteja mais forte ainda para interferir nesse debate.

“A crise climática já é uma crise de saúde pública, que afeta um em cada 12 hospitais por ano no mundo, que fez surgir doenças onde elas não existiam por conta do aumento da temperatura média”

Além disso, o Brasil hoje exerce a presidência sobre plataformas e blocos políticos de cooperação na saúde, que têm muita influência na saúde global. Por exemplo, o Brasil preside a coalizão Saúde do G20, das 20 nações mais ricas do mundo para produção, inovação e acesso a medicamentos. Nós aprovamos essa coalizão na presidência brasileira do G20, 2024, lançamos a coalizão em maio do ano passado na Assembleia Geral da OMS e um ano depois pudemos voltar aqui já lançando parcerias concretas para desenvolvimento de tecnologias, vacinas, testes diagnósticos para dengue no Brasil e para o mundo.

Na 79ª Plenária da Assembleia da OMS, ministro abordou temas como a preparação para novas pandemias, adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas e a importância da cooperação internacional | Crédito: Divulgação/ OMS

O senhor tem falado muito em ampliar o acesso e reduzir desigualdades no SUS. O que dessas discussões aqui na OMS pode virar mudança concreta para o sistema de saúde brasileiro?”

Quando nós nos encontramos na OMS com experiência de outros países da Europa, do Sudeste Asiático, do continente africano, da América Latina, de que ações que eles fizeram, que reduziram as desigualdades dentro dos seus países, nós aprendemos e levamos isso para o Brasil. Por exemplo, hoje nós temos 100% dos profissionais que atuam nas terras indígenas contratados diretamente pelo Ministério da Saúde. Isso é uma conquista do presidente Lula. Isso nós aprendemos, a partir da experiência da Austrália, da experiência do Canadá. Da experiência de como os países da América Latina cuidam de suas populações indígenas. E esses modelos nos inspiram também para cuidar melhor dos nossos povos indígenas no país. Um outro exemplo, o programa Mais Médicos. Hoje nós temos 27 mil médicos espalhados nas unidades de base de saúde do nosso país. É o maior número de médicos e médicas do programa, duas vezes mais do que tinha no governo anterior. Mais Médicos é uma experiência que vem a partir do nosso contato e da interação com outros países.

Nós conhecemos experiências internacionais que montaram programas similares ao Mais Médicos e a partir de conhecermos as experiências levamos para o Brasil e criamos hoje o maior programa de provimento médico do mundo. Então a gente aprende com as experiências internacionais e faz com que o Brasil seja ainda mais forte. Aqui na Assembleia do MS, a gente também aproveita para fazer muitas reuniões bilaterais com países e com empresas. Outro exemplo, o Brasil chegou agora a mais de um milhão de gestantes vacinadas para bronquiolite. Já temos o maior programa do mundo de vacinação contra a bronquiolite para gestantes, já reduzindo esse ano em mais de 60% as internações pelo vírus sinistial respiratório e mais de 50% os óbitos. Isso aconteceu, por exemplo, na última Assembleia Geral que vim e tivemos reunião com a empresa que produz essa vacina, firmamos a parceria dessa empresa com o Instituto Butantan, que permitiu colocarmos essa vacina que custava de R$ 1.500 a R$ 2.000 numa clínica privada, de graça no SUS. É vacina no braço, alívio no bolso e a família protegida.

O ministro Alexandre Padilha e a ministra da Saúde do Canadá, Marjorie Michel (C) firmaram Carta de Intenções com vistas a um acordo de cooperação internacional em saúde | Crédito: Rafael Nascimento/ MS

A saúde já está sendo impactada por eventos extremos e pela intensificação de fenômenos como o El Niño. Que resultados práticos vieram das discussões climáticas recentes e como o Ministério da Saúde está se preparando para esse cenário no Brasil? O sistema de saúde brasileiro hoje está preparado para isso? O Brasil lidera o debate sobre a necessidade de adaptação dos sistemas de saúde às mudanças climáticas.

Nós garantimos isso na COP30, que teve a primeira vez na sua história um dia oficial da saúde, e nós conquistamos isso na última Assembleia Geral da Organização Mundial de Saúde, quando o Brasil organizou um evento junto com o Reino Unido, junto com o Egito, junto com o Azerbaijão, com os Emirados Árabes, que é o chamado Grupo de Baku, que organizou as primeiras COPs, e nesse evento, na última Assembleia, conquistamos esse dia oficial na COP30. A COP30 lançou o Plano de Ação Belém, de adaptação dos sistemas de saúde, que apresentamos aqui, mais uma vez, na Assembleia Geral da MS, e já temos a adesão ao plano de mais de 30 países, e ao todo 88 instituições, entre financiadoras, instituições de pesquisa, que apoiam a implementação dessa adaptação. No Brasil, nós internalizamos o Plano de Ação Belém no AdaptaSus, que é o nosso plano de adaptação do Sistema Único de Saúde para as mudanças climáticas.

Estamos investindo 10 bilhões de reais para a construção de unidades de saúde resistentes, resilientes aos impactos das mudanças climáticas. Por exemplo, no Rio Grande do Sul, estamos investindo R$ 1,4 bilhão na reconstrução do sistema de saúde do Rio Grande do Sul pós-enchente, já com unidades mais resilientes a toda a situação. Um dos eixos centrais do nosso plano do Adapta-SUS é fortalecer o SUS onde tem as populações mais vulneráveis, as que são mais afetadas pelas tragédias climáticas, que no Brasil é a população da Amazônia, a população dos seminários do Nordeste, população que vive próximo às queimadas do cerrado brasileiro e as pessoas que vivem nas áreas de risco nas regiões metropolitanas. Todos os investimentos de construção de novas unidades de saúde, das carretas do Agora Tem Especialistas, do Telesaúde, que já chegaram a mais de 6 milhões de consultas, estão reorientados, vão estar mais próximos dessas populações, porque as populações são as mais vulneráveis.

“O aumento do consumo de ultraprocessados tem relação direta com o aumento da obesidade, do diabetes e de problemas de saúde mental”


Depois da covid-19, o mundo continua enfrentando riscos de novos surtos, como Ebola e outros vírus emergentes. Hoje, o Brasil está mais preparado para responder a uma nova pandemia? O que mudou na prática? Há vigilância suficiente para novos vírus, como o hantavírus?

Sim, o Brasil está mais preparado, mas tem muita coisa para fazer ainda. Primeiro, hoje o Brasil tem um presidente da República e um Ministério da Saúde que respeitam a ciência, que estão totalmente alinhados às recomendações da Organização Mundial de Saúde e, com isso, enfrentam melhor os riscos de novas epidemias. Um exemplo disso é a explosão de casos de sarampo que acontece na América do Norte, graças à irresponsabilidade da política de corte de vacinas do atual governo dos Estados Unidos, que afeta o México, afeta o Canadá, está afetando agora a Guatemala e que tem risco de disseminação para o conjunto do continente americano. Chegamos a ter 38 casos de sarampo importados no ano passado, que só não se propagaram aqui no Brasil por conta do nosso alinhamento com o MS, da expansão da cobertura vacinal do sarampo e termos chegado em 2025 à maior cobertura vacinal dos últimos nove anos, isso que impediu essa propagação. Estamos fazendo até uma campanha agora, para quem for à Copa, torcer pelo Brasil, ter certeza de que está vacinado para o sarampo, para ir lá, pegar o Hexa, trazer o Hexa, mas não pegar sarampo.

Um outro exemplo de que estamos mais preparados é termos aumentado a nossa capacidade de produção vacinal. Quando teve a pandemia, o Brasil não tinha nenhuma plataforma que produzia vacinas de RNA mensageiro. Agora o Brasil investiu, o governo do Brasil investiu R$ 150 milhões para a plataforma de produção de vacina RNA mensageiro no Butantan e uma na Fiocruz. Preparados para produzir uma vacina RNA mensageiro, que são as vacinas que mais rapidamente se adaptam quando surgem novos patógenos numa pandemia, como aconteceu durante a covid-19. Mas precisamos avançar ainda mais. O governo do Brasil quer construir, por exemplo, na Fundação Oswaldo Cruz, um centro de emergência permanente que planeje o Brasil para as ações de emergência, que tenha um corpo técnico permanente, qualificado para planejar, que tenha um grau de autonomia, inclusive, que ultrapasse governos, para a gente poder resistir às situações críticas que nós vivemos. Por exemplo, quando tivemos na presidência da República um irresponsável que colocou o Brasil na rota de mais de 700 mil motos.

“O Brasil tem um presidente e um Ministério da Saúde que respeitam a ciência e estão alinhados às recomendações da OMS para o enfrentamento dos riscos de novas epidemias. A explosão de casos de sarampo que acontece na América do Norte, graças à irresponsabilidade da política de corte de vacinas do atual governo dos Estados Unidos, afeta o México, afeta o Canadá, a Guatemala e pode se disseminar para o conjunto do continente americano”

Ministro recebeu da OMS o certificado pela eliminação da transmissão vertical do HIV (de mãe para filho), tornando o Brasil o único país de dimensão continental a atingir esse marco | Crédito: Rafael Nascimento/ MS

O Brasil traz para a Assembleia o debate sobre ultraprocessados e saúde. O senhor acredita que já é necessária uma regulação mais forte, inclusive em nível global?

Certeza disso. O Brasil inclusive propôs aqui, e vamos trabalhar para ser aprovada na próxima Assembleia Geral do MS, uma recomendação global do MS para a proibição do marketing digital de ultraprocessados, sobretudo para proteger as crianças e os adolescentes em relação a isso. Nós conseguimos aprovar na última Assembleia a proibição do marketing digital para as fórmulas lácteas, que são aqueles tipos de leite em pó que muitas vezes fazem com que as pessoas substituam o leite materno, sendo o primeiro ultraprocessado com o qual o ser humano tem contato. Agora apresentamos uma resolução mais ampla para a proibição do marketing digital dos ultraprocessados, porque isso afeta fortemente a saúde, como foi trazido pelas evidências científicas da revista Lancet, em vários estudos coordenados, inclusive, por professores brasileiros, como o professor Monteiro e a professora Patricia Jaime. O aumento do consumo de ultraprocessados tem relação direta com o aumento da obesidade, do diabetes, da hipertensão, de problemas de saúde mental e precisa ser fortemente enfrentado como risco à saúde pública.

Ministro, eu conversei recentemente com a médica Aleida Guevara, que relatou impactos diretos do bloqueio na ciência cubana, com pesquisas interrompidas e dificuldades no funcionamento do sistema de saúde. O Brasil hoje desenvolve algum tipo de cooperação ou apoio a Cuba nessa área — e esse tema pode ganhar espaço em fóruns multilaterais como esta Assembleia?

Quando lançamos o Mais Médicos, 1.000 municípios brasileiros não tinham sequer um médico e foi fundamental a participação dos médicos e médicas do sistema de saúde de Cuba para ampliar o atendimento e salvar vidas aqui no nosso país

Primeiro, somos solidários ao povo cubano, como estendemos sempre a solidariedade a todo o povo da América Latina, nossos vizinhos, sobretudo quando sofrem agressões econômicas de qualquer outro país. Segundo, temos uma longa tradição da saúde pública brasileira de cooperação com profissionais de saúde, universidades, instituições e o sistema de saúde cubano. Aliás, o Brasil aprendeu muito com o Sistema Nacional de Saúde (SNS) de Cuba; e com instituições de pesquisa. Desenvolvemos e oferecemos vacinas para o povo brasileiro aqui hoje, que muitas delas surgiram em Cuba, teve transferência de tecnologia para a nossa Fiocruz. O Programa Mais Médicos, nós tivemos naquele momento a presença muito importante desses profissionais aqui no Brasil.

Quando lançamos o Programa Mais Médicos, 1.000 municípios brasileiros não tinham sequer um médico residindo e atuando nele. E foi fundamental a participação dos médicos e médicas do sistema de saúde de Cuba para ampliar o atendimento e salvar vidas aqui no nosso país. Desde então, a gente continua tendo cooperação com as universidades, temos programa de formação profissional conjunto, continua tendo parceria da Fundação Oswaldo Cruz com os laboratórios públicos cubanos que produzem medicamentos, produzem vacinas, testes diagnósticos. Temos muito a ganhar com essa cooperação e temos uma parceria forte com o Sistema de Saúde de Cuba. O sistema de saúde de Cuba, os profissionais de saúde de Cuba têm um respeito muito grande aqui na Assembleia Geral do AMS, porque essas parcerias que têm com o Brasil têm com mais de 80 países espalhados pelo mundo. Toda vez que existe uma agressão ao sistema de saúde como esse, esse tema aparece sim na Assembleia, foi discutido em vários fóruns e reforça inclusive as ações de solidariedade a partir daí.

Editado por: Gilson Camargo

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