TERREIROS URBANOS

‘Exu não é o diabo’: Mãe Neide Ribeiro conta sua luta pela defesa da cultura de matriz africana

Liderança é uma das personagens da série documental ‘Terreiros Urbanos em São Paulo’, do Brasil de Fato

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Na periferia de Ribeirão Preto, onde o barulho da estrada de ferro se encontrava com o som da correnteza do rio, há 43 anos floresceu um território sagrado de resistência. Ali, onde “não tinha nada de bonito”, Mãe Neide Ribeiro enxergou os elementos necessários para plantar seu axé — ao lado de seu companheiro e parceiro de fundação, Babá Paulo Ifatide. Fundadora do Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun e uma das protagonistas da série documental “Terreiros Urbanos em São Paulo”, produzida pelo Brasil de Fato, ela desafia a definição convencional de religião: “Eu nem considero uma religião, mas uma tradição, porque o Orixá nunca se desligou da gente”.

Sua história com o sagrado começou com um conflito. Criada em berço católico, Mãe Neide desmaiava dentro da igreja aos sete anos, enquanto ouvia que “o que não era da igreja era do demônio”. Mas os Orixás insistiram. E ela, que aprendeu cedo a negociar de cabeça erguida, respeitando a tradição. “Se Iansã me der condições, no dia em que eu tiver, ela me cobra e eu faço”, disse a religiosa que construiu um legado que vai muito além do terreiro.

À frente do Centro Cultural Orunmilá, Mãe Neide transformou, junto com sua comunidade, o combate ao racismo em arte, saúde e lei. Criaram o Afoxé Omó Orúnmilá para mostrar que “Exu não é o diabo” e que a cultura de matriz africana “deve ser respeitada”. Articulou com prefeitos, médicos e vereadores até aprovar leis históricas: o teste do pezinho para anemia falciforme e a Lei Municipal Mãe Neide Ribeiro, que estabelece a Política Municipal de Proteção e Salvaguarda das Culturas e Manifestações Tradicionais.

Hoje, realizada, ela vê a continuidade de sua missão nas filhas Danielle Osuniwe Osungbemi, Renata Sangoranti e Ana Paula Oyarinu, que dão seguimento ao trabalho do axé e centro cultural. “Eu venci. Quero que todas as mulheres tenham esse encontro com o Orixá, que é um empoderador. No meu vocabulário não existe a palavra ‘não’. Eu vou, eu posso, eu sei, eu quero. Eu ensino minha comunidade.”

A série está disponível no YouTube do BdF e aborda o cotidiano de lideranças que, entre a periferia, o interior e o litoral do estado de São Paulo, mostram que o terreiro é, antes de tudo, um centro estratégico de tecnologia social, acolhimento e produção de saber.

Confira a entrevista.

Brasil de Fato: Para começarmos, como foi o seu despertar espiritual na infância e o conflito com a criação católica?

Mãe Neide Ribeiro: Eu nasci em Jaboticabal, mas passei parte da infância em São José do Rio Preto. Minha família era católica apostólica romana praticante. Aos sete anos, comecei a desmaiar dentro da igreja. O médico dizia que minha saúde era perfeita, até que uma comadre sugeriu que minha mãe me levasse a um benzedor. Ele disse que era espiritualidade, mas eu, criança, tinha medo. Fui criada ouvindo que o que não era da igreja era do demônio. Eu preferia ser doente a ter o demônio no corpo. Eu sofria muito e já sabia o dia em que “aquilo” ia me dar.

Quando foi seu primeiro contato real com um terreiro?

Foi em São Paulo, em uma casa de Angola. Eu desmaiei e acordei em um quarto todo branco, com flores, esteiras e velas. Tive medo, achei que tinha morrido e estava no céu. Uma Mãe de Santo de Oyá me tratou com muito carinho, mas eu dizia que não podia ficar porque minha mãe não deixava eu dormir fora. Acabei ficando recolhida sete dias. Dali saí paramentada, mas ainda tinha muito preconceito e vergonha. Eu ia “amarrada” porque minha mãe mandava.

Depois, Oyá disse que aquele primeiro lugar não era dela. Minha mãe, que não entendia nada da religião, mas fazia tudo por mim, acabou encontrando um sacerdote no Recôncavo Baiano, que de lá nos indicou um filho, também sacerdote, em Mesquita, no Rio de Janeiro. Foi onde conheci meu único pai de santo, Cici da Oxum. Antigamente tudo era muito rígido. Quando cheguei, ninguém falava comigo. Eu era uma menina mimada, porque era “doentinha” e minha mãe fazia tudo por mim. Me vi tendo que pegar água salgada em cisterna e comer arroz com ovo. Fiz uma birra para ir embora, mas “virei no santo” e me iniciei. Eu digo que fui pela dor, não pelo amor, porque achava tudo muito esquisito.

Depois eu fui compreendendo tudo e gostando de estar ali. Quando eu tinha uns sete anos de santo e meu pai disse que Iansã queria o axé. Eu, com vinte e poucos anos, sem casa nem pai nem mãe, respondi de cabeça baixa: “Meu pai, o senhor diz para ela que eu não tenho condições. Se ela me der condições, no dia em que eu tiver, ela me cobra e eu faço”. Eu fui ousada. Eu queria ser respeitada, não queria que me olhassem apenas como uma “mulher de Oyá novinha e bonitinha”, mas com o olhar de mãe.

Daí trabalhei anos como vitrinista para patrões judeus que me ensinaram a guardar dinheiro e a “comer para viver”, em vez de “viver para comer”. Depois, resolvi jogar na Loteria Esportiva, a Zebrinha. Fiz o jogo mínimo e ganhei. Foi o suficiente para comprar meu apartamento em São Paulo e ter segurança. Mais tarde, montei um comércio de frangos assados, a “Avícola da Oyá”. Em 1983, a gente tinha guardado o dinheirinho, já tinha as três filhas, então já tinha condições. Iansã me cobrou. Vendi tudo e vim para Ribeirão Preto.

Mãe Neide Ribeiro e as filhas Danielle Osuniwe Osungbemi, Renata Sangoranti e Ana Paula Oyarinu.
Mãe Neide Ribeiro e as filhas Danielle Osuniwe Osungbemi, Renata Sangoranti e Ana Paula Oyarinu. | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

Por que a escolha desse terreno específico em Ribeirão Preto para fundar o Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun?

Eu vi um anúncio no jornal e, quando cheguei aqui, não tinha nada de bonito. Mas achei bonito porque era alto, tinha a estrada de ferro e a água do rio lá embaixo. Eram os elementos que eu precisava para o axé. Senti que era um presente dela [Iansã]. Começamos há 43 anos.

Eu nem considero uma religião, mas uma tradição, porque religião vem de “religar” e o Orixá nunca se desligou da gente. Somos tradicionalistas iorubanos. O diferencial é que cuidamos muito do Ori, que é a nossa cabeça interior, um Orixá vivo. Às vezes as pessoas esquecem do Ori para cuidar só do Orixá, mas é o Ori que dá equilíbrio, atrai a sorte e recupera o que está disperso.

Como surgiu a ideia de criar o Centro Cultural Orunmilá logo após a fundação da casa religiosa?

Logo em seguida à fundação do Egbe Awo Ase Iya Mesan Orun, nós quisemos trabalhar com cultura, e foi onde fizemos o Centro Cultural Orunmilá. Fiz questão de estar na periferia porque a maioria aqui é negra. O objetivo era justamente valorizar as crianças, os adultos e o povo negro, para que saibam a importância deles e o quanto são fortes. Precisamos levantar a cabeça e saber que somos metade da população mais um. Temos que ser respeitados e ter uma voz. O Centro Cultural nasceu para não termos medo de ir para a rua fazer movimentos para a transformação.

Entrada do Centro Cultural Orúnmilá.
Entrada do Centro Cultural Orúnmilá. | Crédito: Acervo pessoal

Quais são as principais atividades e ações práticas que o Centro Cultural oferece hoje para a comunidade?

Nós trabalhamos muito o ano todo, temos um calendário completo. Atraímos as crianças através da capoeira e da dança afro. Temos uma biblioteca temática e um estúdio de gravação, onde os artistas anônimos da periferia gravam de graça. Fiz muito e faço muito mais se precisar, porque a gente se sente realizada vendo isso. Hoje a instituição é reconhecida como um Pontão de Cultura de Ancestralidade Africana no Brasil e é referência internacional. Minha filha Danielle esteve na África e viu que até lá conhecem o nosso trabalho.

A senhora teve uma atuação política e social muito forte, inclusive no combate à anemia falciforme. Como foi esse processo?

A vida já é uma política. Eu negociei com todos os prefeitos: “Eu te apoio se você se responsabilizar pela nossa comunidade e pela periferia”. Fizemos um grande trabalho sobre a anemia falciforme com o Dr. Marco Antônio Zago, sensibilizando a Câmara e os médicos. Criamos cartilhas e mobilizamos a aprovação da lei para que o teste do pezinho incluísse a detecção da doença, pois crianças negras com anemia falciforme não podem ser tratadas com ferro comum, e isso impacta o cuidado nas creches e escolas. Também conseguimos o feriado do Zumbi dos Palmares e, recentemente, a Lei Mãe Neide Ribeiro, para proteger as culturas de matriz africana.

Mãe Neide Ribeiro e a neta no Centro Cultural Orúnmila.
Mãe Neide Ribeiro e a neta no Centro Cultural Orúnmila. | Crédito: Iolanda Depizzol/Brasil de Fato

E qual o papel estratégico do Afoxé dentro dessa estrutura do Centro Cultural?

O Afoxé Omó Orúnmilá é o nosso “carro-chefe”. É uma forma de combate ao racismo, um movimento na rua para o povo saber que o que fazemos faz parte da nossa tradição e deve ser respeitado. O Afoxé serve para mostrar que Exu não é o diabo. Nós ensinamos cantando em iorubá, vestidos como africanos, ocupando a rua com nossas canções. Através do Afoxé, trazemos o letramento racial, a denúncia contra o machismo e o axé para a cidade. É o “carro-chefe” que nos deu força e hoje temos público e respeito.

Olhando para sua trajetória, como a senhora se sente hoje em relação ao seu legado e às suas filhas?

Sou realizada. Tenho três filhas — Danielle, Renata e Ana Paula — e nunca exigi que me seguissem, mas elas cresceram vivendo isso e hoje dão continuidade ao trabalho. Eu venci. Quero que todas as mulheres tenham esse encontro com o Orixá, que é um empoderador. No meu vocabulário não existe a palavra “não”. Eu ensino minha comunidade: eu vou, eu posso, eu sei, eu quero. Cada “não” que recebemos nos dá mais força para continuar.

Editado por: Luís Indriunas

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