Em entrevista à TV Brics, a representante oficial do MRE da Rússia, Maria Zakharova, falou sobre o papel das organizações interestatais na formação de um mundo multipolar e destacou a importância da independência digital e financeira para a segurança dos países. A conversa foi realizada no estúdio da TV, à margem do Fórum Internacional de Segurança, que acontece de 26 a 29 de maio em Moscou.
TV Brics: Instituições internacionais como o Brics, a Organização para Cooperação de Xangai, a Asean e a União Econômica Eurasiática atuam como motores da formação de um novo mundo multipolar. Quais características da nova arquitetura global de segurança você destacaria como principais?
Maria Zakharova: Eu começaria a responder a essa pergunta pelo contraponto. Basta observar o que acontece com a abordagem defendida por países que acreditam que o mundo deve ser administrado a partir de um único centro de decisão, ou que deve ser unipolar ou bipolar. Vejam como agem aqueles que ainda seguem essa lógica.
Daí surge a pergunta. Gostaria de olhar para essa situação e discuti-la não em uma linguagem política ou acadêmica complexa, mas em termos simples. Essa abordagem serve ao mundo atual? Ela é necessária? Terá apoio da maioria global? Vamos deixar claro: isso agrada a todos nós?
Mesmo que essa abordagem agrade a alguns, é preciso entender que ela contradiz a visão da maioria global, ou seja, da maioria absoluta das pessoas no planeta, sobre como o mundo deve se desenvolver.
Daí vem a resposta à sua pergunta sobre quais serão as características da nova ordem e como ela será formada. Uma dessas características está justamente na rejeição dessa metodologia, que não é apenas falha ou inadequada para uma situação específica, mas não tem direito de existir.
Nenhum país tem o direito de remodelar outro país, uma região do mundo ou todo o planeta conforme seus próprios interesses. Isso é ainda mais grave quando se trata de grupos políticos transitórios que, partindo de uma percepção interna, própria e exclusivamente individual dos processos globais, agem dessa forma há décadas e acreditam que isso seja uma espécie de nova normalidade.
Por isso, quando falamos das características do mundo que está surgindo, e para o qual contribuímos de todas as formas, acredito que uma das bases deve ser justamente o “não”: um “não” a essa forma de conduzir os assuntos internacionais, defendida por aqueles que antes foram metrópoles e oprimiram colônias. Depois, isso se transformou em uma política de nacionalismo extremo e segregação racial e nacional. Mesmo quando falavam em respeito à lei, se colocavam em uma posição de excepcionalidade, como se estivessem acima das normas aplicadas aos outros. Isso não deve fazer parte das características do mundo futuro.
O segundo ponto é, sem dúvida, a multipolaridade. Ela não é apenas uma expressão bonita ou uma frase bem elaborada. A multipolaridade, como possibilidade e como realidade já evidente, crescente e em desenvolvimento, significa permitir que regiões, países e associações de países com potencial econômico, humano, cultural e civilizacional possam se desenvolver.
É justamente a partir dessa abordagem que se forma aquilo que chamamos de multipolaridade. Não se trata de uma tentativa de um grupo restrito de cientistas políticos de desenhar uma imagem do futuro ou de inventar termos. É uma realidade evidente, já materializada na criação das estruturas e organizações que você mencionou. Entre elas estão a Organização para Cooperação de Xangai, o Brics, a União Econômica Eurasiática e várias outras associações regionais, ou mesmo estruturas que reúnem países de diferentes regiões. Essas organizações já passaram pelo teste do tempo. Elas não existem há apenas um ou cinco anos, mas há um período considerável.
Além disso, em sua fase inicial, essas organizações existiram sob total indiferença do Ocidente. Ou seja, não surgiram por fazer parte de algum processo geral de financiamento por determinados fundos. Elas existem porque são necessárias às pessoas dos países que as integram. E continuam existindo apesar das pressões, agora que o Ocidente percebeu, por exemplo, a importância do Brics e tenta reduzir seu peso. Mesmo assim, essas organizações só se fortalecem.
E, claro, acredito que uma das características mais importantes desse mundo multipolar em formação serão os princípios da Carta da ONU, que ajudam os países a viver em paz e cooperação, em uma atmosfera de respeito mútuo e consideração pelos interesses de cada um. Refiro-me ao respeito à soberania, à independência e à preservação de tudo aquilo que a humanidade já acumulou de melhor no plano civilizacional.
Acredito que os esforços feitos pela comunidade internacional para criar, formar e desenvolver a Organização das Nações Unidas, concentrados na Carta da ONU, serão aplicados, desenvolvidos e aprofundados nesse futuro ordenamento mundial multipolar.
Você destacou a dimensão humanitária como uma parte importante desse processo. Na sua opinião, que efeito a diplomacia cultural tem no fortalecimento da cooperação internacional?
Quando falamos em diplomacia cultural, falamos de um instrumento: o uso de recursos e capacidades diplomáticas para promover a cultura e suas diferentes manifestações.
Não se pode ignorar o desenvolvimento civilizacional dos países e dos povos. Na verdade, é preciso fazer todo o possível para levá-lo em consideração, porque ele constitui a essência da humanidade.
Nesse sentido, tanto a diplomacia oficial, realizada entre Estados, quanto a diplomacia pública e a diplomacia conduzida por organizações não governamentais têm enorme potencial e grande importância.
Talvez isso não fosse tão atual hoje se não existisse a tese contrária, o contraponto de que falamos no início. Refiro-me às tentativas de impor ao mundo uma cultura do cancelamento, que levou ao cancelamento da própria cultura nesses países e de seu próprio código cultural. Afinal, uma pessoa não pode se considerar culta se joga tinta em cartazes com a imagem de Piotr Tchaikovski, derruba e destrói um busto de Aleksandr Pushkin ou rasga livros de Nikolai Gogol e de outros autores clássicos.
Se alguém acredita que é preciso proibir a execução de obras de Shostakovitch, Rachmaninoff ou Glinka, por exemplo, ou reescrever a nacionalidade de um artista que já partiu e que se identificava como pertencente a uma determinada comunidade etnocultural, mas agora outras pessoas decidem por ele quem supostamente era de verdade, tudo isso demonstra uma ausência absoluta de cultura. Aqueles que proclamaram a cultura do cancelamento como norma declararam, desse modo, que são pessoas sem cultura, incultas e, eu diria, até anticulturais.
Hoje falamos de neonazismo. Trata-se da mesma segregação de pessoas por critérios nacionais, raciais, étnicos, culturais, históricos ou religiosos, mas com uma nova base tecnológica, política e informacional. Aqui acontece algo semelhante. É uma espécie de neobarbarismo. E o que entra no próprio conceito de barbárie?
Não se trata apenas de um fato histórico, ligado a tribos bárbaras que chegavam, ocupavam territórios, destruíam e saqueavam. Trata-se também de um símbolo: a destruição da cultura alheia contradiz totalmente o sentido universalmente aceito de cultura. Você não pode se considerar uma pessoa culta ou de grande refinamento cultural se acredita que, por conveniência própria, por harmonia pessoal ou em nome de seus objetivos, tem o direito de destruir a cultura de outro povo.
Nesse caso, você já é uma pessoa desprovida de qualquer cultura. Ou sua cultura é justamente a barbárie. Por isso falamos da diplomacia cultural como um instrumento que também pode ser usado para impedir o avanço desse neobarbarismo.
Maria Vladimirovna, hoje os países do Brics constroem uma nova arquitetura financeira. Recentemente, foi realizada a 11ª reunião anual do Novo Banco de Desenvolvimento. Segundo a nova estratégia do banco, para implementar projetos de infraestrutura é necessário aumentar a participação dos pagamentos em moedas nacionais e desenvolver sistemas de pagamento alternativos. Na sua opinião, o que os países devem fazer para alcançar esses objetivos?
Falar da criação de uma nova arquitetura financeira no âmbito do Brics talvez ainda seja prematuro. A maioria dos países do grupo está integrada aos mecanismos globais já existentes. E você tem razão ao mencionar a crescente preocupação da maior parte da comunidade internacional com processos que, inicialmente, foram apresentados como oportunidades.
Por exemplo, o dólar surgiu como uma moeda que deveria ajudar o mundo a realizar pagamentos, inclusive países que ainda não tinham sistemas financeiros e de pagamento estáveis. Depois, acabou se tornando um instrumento nas mãos daqueles que já não conseguiam manter um nível competitivo e começaram a recorrer a todos os mecanismos possíveis para impedir o desenvolvimento de outras partes do mundo.
Isso levanta muitas questões. Hoje, já não se trata apenas de questões, mas de desafios. Além disso, vemos instituições monetárias e financeiras internacionais se transformarem em instrumentos políticos e, às vezes, político-econômicos de pressão.
Por isso, todo esse conjunto de desafios exige a criação de um sistema eficiente de resposta, inclusive dentro das associações que você mencionou. Gostaria de citar alguns dados. A busca por resultados concretos nessa área foi registrada nas declarações dos líderes, especialmente nas cúpulas de Kazan, em 2024, e do Rio de Janeiro, em 2025. Nesses documentos, ficou fixada a intenção de promover iniciativas para criar mecanismos de pagamentos transfronteiriços, além de uma infraestrutura conjunta de compensação, liquidação e resseguro.
Todas essas questões são discutidas de forma prática e, sem dúvida, o Banco de Desenvolvimento tem um papel especial nesse processo. Quero ressaltar mais uma vez: isso não é uma tentativa de se contrapor às instituições monetárias e financeiras internacionais existentes nem de diminuir sua relevância. É uma tentativa de impedir a destruição de economias em crescimento e em desenvolvimento. É também uma tentativa de se proteger contra o uso de instrumentos econômicos como ferramentas políticas e, agora, como instrumentos de guerras comerciais.
Maria Vladimirovna, voltando às declarações do Brics que você mencionou, a transformação digital abre novos horizontes para o desenvolvimento, mas também torna o ciberespaço mais vulnerável. Por isso, países como os do Brics vêm construindo de forma consistente um ambiente digital mais seguro. Na sua opinião, quais iniciativas de proteção do ciberespaço são mais eficazes, considerando a necessidade de formar um espaço informacional seguro no mundo e combater deepfakes?
A digitalização da economia, da logística e de quase todas as áreas da vida exige muitos recursos. Hoje, até aparelhos domésticos, como geladeiras, chaleiras elétricas e ferros de passar, podem estar conectados a sistemas digitais. Esse processo pode colocar alguns países em desenvolvimento em situação de dependência — e, em certos casos, isso já vem ocorrendo.
Soluções impostas, não apenas vendidas como produtos de TI, mas literalmente empurradas de forma forçada, não significam desenvolvimento para esses países, e sim dependência cognitiva, dependência de software e de hardware, ou seja, dos instrumentos sobre os quais essas soluções digitais devem funcionar.
Naturalmente, a cibersegurança também sofre quando países desenvolvidos, seus monopólios de TI e seus gigantes tecnológicos impõem soluções e passam não apenas a monitorar, mas a receber em tempo real informações sensíveis sobre os habitantes de determinado país. Isso não se aplica apenas aos países em desenvolvimento. Agora ficou claro que até países da União Europeia estão sob vigilância externa.
Ao receber equipamentos e programas de TI ocidentais e ao se integrar rapidamente ao ambiente digital, esses países perceberam que obtêm não só benefícios, mas também uma vulnerabilidade absoluta. Há coleta de dados e manipulação descontrolada dessas informações, o que representa um enorme desafio.
Por isso, o Brics também tem respostas nessa área. A cooperação em segurança internacional da informação é um dos pontos mais importantes e centrais da agenda do Brics. Ela se desenvolve há bastante tempo, desde 2013, quando foi criado um grupo de trabalho especial. Desde então, já houve avanços importantes.
Por exemplo, os países se uniram e elaboraram abordagens comuns sobre esse tema. Trata-se da construção de um sistema universal de segurança internacional da informação, baseado nos princípios da igualdade soberana dos Estados, da não interferência em assuntos internos e do reconhecimento do papel central da ONU.
Vamos olhar para iniciativas concretas. Em 2024, foi lançado o registro de pontos de contato do Brics. O que é isso? Trata-se de uma ferramenta que permite às equipes de resposta a incidentes cibernéticos dos países do grupo estabelecer e manter contato rapidamente para identificar as fontes e circunstâncias de atividades maliciosas. Também está em andamento o trabalho de coordenação de mecanismos de resposta a incidentes cibernéticos, combate a crimes no ambiente digital e interação entre a comunidade acadêmica e especialistas.
Outra área importante é a cooperação dos países do Brics em plataformas multilaterais de negociação, já que os temas da digitalização, da inteligência artificial, da cibersegurança e do combate aos crimes cibernéticos ganham cada vez mais espaço em todos os fóruns internacionais.
É importante que o grupo atue, talvez não com posições totalmente idênticas, mas com posições semelhantes e coordenadas. Isso também ocorre com participação muito ativa de nossos países. Neste ano, foi criado o Mecanismo Global da ONU para a Segurança Internacional da Informação. De modo geral, os países pretendem promover abordagens comuns em conjunto. Também terá continuidade o trabalho de aperfeiçoamento do registro intergovernamental global de pontos de contato da ONU para troca de informações sobre ataques cibernéticos.
Esse trabalho ocorre dentro do Brics e em outras plataformas, como a Organização para Cooperação de Xangai, a Organização do Tratado de Segurança Coletiva e a Comunidade dos Estados Independentes. Além disso, essas estruturas e organizações também coordenam suas ações entre si. Portanto, esse tema é trabalhado de forma muito ativa por aqueles que defendem o mundo multipolar e o constroem, literalmente, em tempo real.
