No próximo domingo (31), a população da Colômbia vai definir quem será o governante do país pelos próximos quatro anos — e só neles, já que uma emenda constitucional proíbe a reeleição imediata —, substituindo o primeiro presidente de esquerda colombiano, Gustavo Petro.
As campanhas presidenciais se encerraram no último domingo (24) com três candidatos à frente nas pesquisas: pelo Pacto Histórico, o senador Iván Cepeda é a escolha para seguir o projeto de Petro; o advogado de extrema direita Abelardo de la Espriella vem em seguida; e a tríade que mais aparece nas pesquisas é fechada com a também senadora, mas da oposição, Paloma Valencia.
Em entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Alexandra Parra Gusmão, que é comunicadora da organização Proceso de Unidad Popular del Suroccidente Colombiano – Pupsoc (Processo de Unidade Popular do Sudoeste Colombiano, em tradução livre), afirma que teme um segundo turno entre Cepeda e qualquer um dos concorrentes.
“Tomara que, de verdade, desejo com todo meu coração, possamos ganhar no primeiro turno. Estamos fazendo todos os esforços que podemos para que isso se materialize. Pois um cenário de segundo turno seria bastante complexo, porque toda a direita se uniria contra nós”, afirma.
A Pupsoc reúne diversas organizações sociais, camponesas, indígenas, comunidades negras, setores urbanos, estudantis, femininos, dentre outras, com abrangência em todo o país. Seu propósito é a luta pela reivindicação dos direitos do campesinato colombiano “porque, embora em nosso país atualmente se reconheçam as comunidades étnicas — neste caso, indígenas e negras —, o campesinato atualmente não é reconhecido como um sujeito político de direitos”, explica Gusmão.
Na conversa com o Brasil de Fato, a comunicadora fala sobre as perspectivas para o pleito de domingo, o histórico do governo de Gustavo Petro e a luta popular na Colômbia. Confira a entrevista na íntegra.
Brasil de Fato: Estamos às vésperas de uma eleição importante para a Colômbia. Quais são as perspectivas para o novo pleito?
Alexandra Parra Gusmão: Esperamos que o candidato de esquerda, Iván Cepeda, ganhe no primeiro turno, porque o cenário no segundo turno é muito complexo. Estamos competindo com a direita e com a extrema direita da Colômbia. Atualmente, os três candidatos com mais chances de vencer são Cepeda, Paloma Valencia Laserna e Abelardo de la Espriella.
Valencia é senadora e a candidata do [ex-presidente da Colômbia] Álvaro Uribe neste pleito. É uma mulher capaz, inteligente, mas que representa a oligarquia colombiana. Ela diz publicamente: “Uribe é meu pai” e “Eu vou seguir com a política de Uribe”. Isso é um cenário desastroso para nós, para o processo social, porque é retroceder.
Ela foi uma das que celebrou quando a reforma trabalhista e a reforma previdenciária não passaram. Como nós vamos eleger uma mulher que celebra que a classe operária não seja reconhecida, que não seja pago o salário que eles merecem? Que celebre o desfinanciamento da educação?
E o Espriella, eu, pessoalmente, o vejo de forma muito mais complexa que Valencia. Porque ele gera um discurso de ódio contra a esquerda. Ele disse publicamente: “Temos que aniquilar a esquerda”.
Para os movimentos sociais, é extremamente perigoso que um cara como Espriella — que é um advogado que defendeu paramilitares, narcotraficantes, todo tipo de ladrões, golpistas e tudo de pior neste país — seja o presidente da república.
É realmente catastrófico o cenário quando pensamos no Espriella, porque ele representa a oligarquia mais recalcitrante de nosso país. Então, é bastante preocupante, em especial para as pessoas que lutam por uma vida digna.
Por outro lado, você acredita que Iván Cepeda cumpra as expectativas da esquerda colombiana?
Nós temos, com o Iván Cepeda, uma oportunidade muito grande, que é a continuidade do projeto da mudança de Gustavo Petro, um projeto que se constrói com o povo. É a possibilidade de continuarmos avançando, porque quatro anos não são suficientes para toda uma década de abandono, de corrupção, de paramilitarismo. E as pessoas ainda não entenderam que quatro anos não bastam, em especial com um Congresso contra. Então, o Cepeda representa isso para nós: a possibilidade de poder seguir avançando nas transformações reais que nosso país precisa.
E quais seriam essas transformações?
O Iván Cepeda representa a esperança que temos de o campesinato finalmente ser reconhecido como um ser político, capaz de decidir, e ser levado em conta nas tomadas de decisão do país, porque os camponeses são os que plantam, mas, além disso, há um ator político que constrói território, que constrói vida ao redor do território. E essa é a luta da organização da qual faço parte, a Pupsoc. Com Cepeda, quem sabe o campesinato pode ter a garantia que precisa para poder viver na sua terra.
O governo da mudança do Petro avançou muito na consolidação das zonas de reserva camponesa, o que nos permite, como camponeses e camponesas, ter nossa territorialidade, mas, sobretudo, também defendê-la. Afinal, o camponês também é protetor do território.
Isso, por si só, já é muito importante, mas tem uma coisa especial: ele escolheu como sua vice-presidente não só uma mulher, mas também uma mulher indígena, Aída Quilcué.
A candidatura de Aída Quilcué é histórica, certo?
Sim, ela é a primeira mulher indígena na história da Colômbia que foi escolhida para ser candidata à vice-presidência, e esperamos que seja nossa próxima vice-presidente. É uma mulher que se forjou na luta social, que saiu às ruas para exigir seus direitos, conosco, bloqueando as ruas. Porque temos que reconhecer que, nos governos anteriores, a gente bloqueava ruas, sim. Bloqueávamos estradas, mas porque precisávamos exigir nossos direitos, porque senão nos invisibilizam, não nos consideram.
Então, a mobilização social — e as pessoas também devem entender isso — tem sido o único mecanismo que nós tivemos para pressionar o governo, e Quilcué representa isso. Ela representa a força da mulher, da luta em comunidade, da mobilização social, de mulheres e de homens que não se rendem e que todos os dias lutam por construir esse país que queremos. Então, realmente estamos muito ansiosos.
Mas é preciso dizer também: infelizmente, mesmo que estejamos avançando em nosso país, os temas de dignificação e respeito não, porque ainda são muito machistas, ainda se movem em uma oligarquia estúpida, porque as pessoas não aceitam que uma mulher — que, segundo eles, não é estudada, porque assim a apresentam — chegue à vice-presidência da República, especialmente uma mulher indígena. A direita colombiana não aceita isso.
Então, vendem um falso discurso às pessoas, dizendo: “Como vai você votar numa índia [porque é assim que eles falam] que não estuda, uma índia que não é formada?” E que formação necessita uma mulher que tem lutado toda a sua vida com seu povo? Uma mulher que sabe de terra, que sabe de conhecimento ancestral, que sabe de natureza, que sabe de plantas, que cuida da vida, que protege a água. Ou seja, de quais outros conhecimentos se necessita?
Nós temos um montão de exemplos de políticos colombianos que têm doutorado, pós-doutorado e uma quantidade de coisas, e são ladrões. Sim. E estão presos por corrupção, por roubo. Então, de que serve um título, um canudo, se eu vou roubar o povo? Então, este é o cenário político que temos, que esperamos que seja a favor do povo, porque realmente esta é uma candidatura construída desde os territórios.

Ao falar dos camponeses, você falou dos motivos pelos quais vocês lutam. Quais são essas lutas?
Nós defendemos a vida, a água, o território e tudo o que contribui para ele. Isso é um pouco das nossas apostas políticas. Claro, lutamos pela paz com justiça social, além da ambiental.
Nós não falamos de recursos naturais, porque, quando você fala de recurso natural, é algo que você pode pegar e comercializar, certo? Nós falamos de bens comuns, algo que você e eu compartilhamos e que devemos cuidar e que é nossa responsabilidade.
Também defendemos a reforma agrária, para que a vida no campo se dignifique, para que os camponeses possam ter vias de acesso, possam levar seus produtos ao mercado e que lhe comprem também a preços justos. Porque atualmente o campesinato colombiano tem que viver por meio de intermediários; ele leva seu produto, o intermediário compra e ele vende por um valor mais alto aos supermercados.
Não há uma compra direta do campesinato. Então lutamos por isso, para que se reivindique a economia camponesa e popular de nossos territórios. Lutamos para que as pessoas parem de ir ao supermercado, de consumir no supermercado, e vão diretamente à praça do mercado comprar do camponês, da camponesa, do indígena, do negro que produz desde o território. É um resumo do que fazemos. Bom, e dentro da zona urbana também temos companheiros e companheiras que lutam por moradia digna, que lutam por teto para as pessoas que não têm teto.
Você falou sobre a luta pela reforma agrária, que é um tema bastante caro aos camponeses brasileiros. Qual é a relação dos colombianos com essa discussão?
Infelizmente, está acabando o governo de Gustavo Petro, que foi o primeiro presidente de esquerda na história da Colômbia. Antes disso, estávamos totalmente invisibilizados. Quando se começou a falar de reforma agrária no país, Álvaro Uribe era o presidente e seu ministro Andrés Felipe Arias criou um projeto chamado “Agroingreso Seguro“.
E, por meio dele, entregou terras aos donos dos maiores latifúndios — ou seja, o “Agroingreso Seguro” supostamente era para os camponeses, mas, no final das contas, se tornou uma roubalheira, um ato de corrupção. Inclusive, o Arias está atualmente condenado e preso por esse projeto.
Então, a Pupsoc tem liderado mobilizações muito grandes pela luta pela reforma agrária. Afinal, como já te disse, o campesinato não foi reconhecido. Durante o governo Petro, ele foi incluído como sujeito de direitos e agora queremos seguir avançando. Petro tem sido um firme defensor da reforma agrária, dos direitos do campesinato e, por meio da Agência Nacional de Terras, que é uma figura que temos na Colômbia, algumas propriedades foram recuperadas e entregues ao campesinato.
Avançamos também na consulta popular camponesa. Temos um mecanismo de participação cidadã e, por meio de uma coleta de assinaturas, estamos buscando que o campesinato seja cada vez mais reconhecido.
Então, o governo facilitou o que precisamos para poder avançar nessa consulta popular camponesa, que busca a dignificação da vida no campo, a infraestrutura, as condições necessárias para poder cumprir com essa reforma agrária, mas uma reforma agrária com dignidade, com educação, com saúde, com moradia, uma reforma agrária que realmente dignifique a vida no campo.
Então, falar de reforma agrária neste governo é muito importante porque temos muitos obstáculos — afinal, Petro é o presidente, mas quem toma as decisões no país é o Congresso e a Câmara, e nós não somos maioria no Congresso — e de todas as reformas que Petro propôs, da saúde, da educação, trabalhista, previdenciária, nenhuma passou.
Afinal, o governo como um todo responde aos interesses das pessoas mais ricas da Colômbia, e a elas não convém que o camponês cresça, que o índio cresça, que o negro tenha possibilidade de surgir.

Então, Gustavo Petro fez movimentos pela população em geral. Qual é o sentimento que resume seu mandato?
Petro foi um bom presidente que nos ajudou muito. Avançamos em educação pública, por exemplo, com mais financiamento e novas universidades no país, em especial nas áreas rurais. Antes havia uma migração do território, os jovens queriam estudar, mas não tinham a oportunidade onde viviam e precisavam ir para a cidade, e isto está mudando.
Além disso, o Petro tem sido uma figura reconhecida mundialmente como um líder muito forte. Ao mesmo tempo, liderar a partir de uma escrivaninha é uma coisa, e liderar com o povo é outra…
Muito tem sido dito sobre a “paz total de Gustavo Petro”. Mas parece que ele não entendeu que a paz total não é militarizar o território. Não é enchendo os territórios de força pública, gerando combates e dando baixa a qualquer grupo armado. Porque isso gera deslocamento, medo, incerteza. E eu não quero viver com medo na minha casa.
Então, não se atinge a paz total assassinando ou sumindo com pessoa X ou Y, certo? Ela se constrói indo escutar as pessoas, escutando suas necessidades e trabalhando com elas… Se vai se falar de uma paz total, que as pessoas tenham as condições mínimas de vida, água potável, um posto de saúde em condições dignas.
E o Iván Cepeda foi ver isso, ele foi aos territórios, ver o que as pessoas precisam, em uma correria impressionante por toda a Colômbia. Porque as pessoas têm que saber da continuidade do processo de mudança e defender que Aída Quilcué é uma mulher muito valiosa para o processo.
Então, esperamos essa vitória nas eleições, especialmente porque retroceder vai ser muito difícil. Além disso, porque virá uma repressão muito grande, sobretudo contra os movimentos sociais, os processos sociais que queremos seguir construindo e trabalhando com e pelas comunidades.
