NOVOS RUMOS

Livro escrito por estudantes do Presídio de Igarassu transforma memórias em ferramenta de ressocialização

20 alunos da Escola Dom Hélder Câmara produziram relatos para publicação com histórias de infância e juventude

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Escritos fazem parte do projeto “Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro”
Escritos fazem parte do projeto “Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro” | Crédito: SEE-PE/Divulgação

Estudantes privados de liberdade da Escola Dom Hélder Câmara, localizada no Presídio de Igarassu, na Região Metropolitana do Recife, transformaram lembranças afetivas em literatura no livro “Escrevendo o Passado, Reescrevendo o Futuro”. Organizada pelos professores da rede estadual Moacir Silva e Fabrícia Alves, a publicação reúne relatos de 20 alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) prisional, que revisitaram memórias positivas vividas antes do encarceramento. O livro foi lançado durante a programação do Circuito Literário de Pernambuco (Clipe), no Recife, e também ganhou uma edição especial de lançamento dentro da própria unidade de ensino.

A obra nasceu a partir do projeto Memórias, desenvolvido em sala de aula com estudantes dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. A proposta incentivou os participantes a reconstruírem narrativas pessoais para além do contexto da prisão, resgatando lembranças ligadas à infância, à família, às amizades, às primeiras paixões e às brincadeiras de rua.

Segundo os organizadores, o processo foi marcado por momentos de emoção e descoberta. “Alguns choravam em sala de aula porque diziam que não tinham o que falar de bom. E aí, com o trabalho que a gente foi fazendo a partir do uso de fotos e imagens que remetem ao passado, eles começaram a despertar e perceber que são muito mais do que são hoje, que a vida deles não é só isso que os levou até a prisão”, relata o professor Moacir Silva.

Os textos revelam sentimentos como saudade, arrependimento, esperança e desejo de recomeço. Para os educadores, a escrita funcionou como ferramenta de expressão, cura e reconstrução da identidade dos estudantes. Na apresentação da publicação, os professores destacam que “a memória não é apenas um registro do que passou, mas um combustível para a resiliência e um estímulo à reinvenção de si mesmos”.

O gênero textual de memórias foi escolhido por permitir que os estudantes retomassem experiências afetivas muitas vezes apagadas pela violência e pela ruptura social. “Percebemos, em grande parte dos nossos estudantes, uma certa ruptura com o passado, como se nada do que viveram na infância e adolescência fizesse mais sentido.

O projeto Memórias entra a partir daí com duas funções: a de trabalhar, em sala de aula, mais um gênero textual, contemplando o conteúdo do componente curricular língua portuguesa, e também a de promover o resgate de memórias afetivas que de certa forma ficaram esquecidas em algum lugar no passado”, explica Moacir.

Atualmente, a Rede Estadual de Ensino de Pernambuco oferece educação formal em todas as unidades prisionais do estado. São 21 escolas prisionais e três anexos, atendendo mais de seis mil estudantes matriculados. O objetivo é promover a ressocialização e assegurar o direito constitucional à educação para pessoas privadas de liberdade.

Entre as iniciativas desenvolvidas nas escolas prisionais estão o Projeto Remição pela Leitura, que possibilita redução de pena por meio da leitura e avaliação de obras literárias, e o Programa Monitoria PE, voltado para estudantes monitores de matemática e língua portuguesa.

Para Jeane Lima, gerente da Educação de Jovens, Adultos e Idosos da Secretaria de Educação de Pernambuco, a educação no sistema prisional representa uma oportunidade concreta de transformação social. “Garantir a EJA no sistema penitenciário é mais do que cumprir uma meta educacional. É oferecer uma chance real de transformação por meio do conhecimento”, afirma.

Além das ações pedagógicas, a rede estadual também tem ampliado o suporte emocional dentro das escolas prisionais. Segundo Jeane, nove unidades já contam com analistas de psicologia escolar integrando equipes multiprofissionais responsáveis pelo acompanhamento dos estudantes e pelo apoio aos professores. A expectativa é que o atendimento seja expandido gradualmente para toda a rede prisional do estado.

Editado por: Rostand Tiago

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