Desde o fim da ditadura militar, a sociedade brasileira (em especial as organizações da sociedade civil) busca, eleição após eleição, dar às estruturas de poder uma “cara de povo”. Passados 4o anos da redemocratização, a presença de representantes negros (que são 56% da população brasileira) e de mulheres (51%) segue muito inferior à participação populacional desses grupos sociais. Em Pernambuco, os movimentos dos trabalhadores Sem Terra (MST) e Sem Terra (MTST) anunciaram a união de forças incidir neste cenário nas eleições deste ano.
No último dia 19 de maio, durante um ato político na favela da Vila Santa Luzia, no bairro da Torre, os dois movimentos anunciaram uma “dobradinha” com vistas na eleição deste ano: a vereadora sem-teto Jô Cavalcanti (Psol) e a deputada estadual sem terra Rosa Amorim (PT) farão uma parceria entre os movimentos para levar Cavalcanti à Assembleia Legislativa de Pernambuco e Amorim para a Câmara Federal. Por fora dos partidos, que estarão em palanques estaduais distintos, os movimentos apostaram no impacto político das duas mulheres negras, de origem popular e forjadas nos movimentos sociais.
Em conversa com o Brasil de Fato, a deputada Rosa Amorim (PT) afirmou que a aliança eleitoral surgiu a partir do reconhecimento mútuo entre os movimentos sobre a importância política um do outro e suas perspectivas em comum. “A política precisa ter a cara do povo — e os movimentos têm a cara do povo, os rostos que precisam estar nos parlamentos. Acreditamos que é essa união de forças que vai construir uma perspectiva de esperança para o Brasil”, disse a deputada estadual, que deseja levar as bandeiras do MST para a Câmara Federal.
A vereadora Jô Cavalcanti, que liderou o mandato coletivo das Juntas (Psol) na Assembleia Legislativa, que retomar o espaço do Movimento Sem Teto na casa legislativa. “Os movimentos sociais representam essa unidade das forças de esquerda pela qual sempre prezamos. Temos muitas pautas em comum. E precisamos estar juntos nesta eleição tão decisiva para o Brasil, em que precisamos defender a reeleição do presidente Lula, mas também defender o fortalecimento de políticas de moradia, de reforma agrária e reforma urbana”, explica ao BdF a pré-candidata a deputada estadual.

Amorim pontua que os movimentos andam de mãos dadas em muitas pautas, destacando as ocupações no campo e na cidade e o combate à fome através de cozinhas solidárias nas periferias. “Os movimentos sociais historicamente cumpre um papel muito importante na organização do povo para fazer as disputas tanto a institucionalidade quanto de projeto de país. E hoje, no Brasil, quem faz isso com mais força são os movimentos Sem Terra e os Sem-Teto”, avalia a jovem nascida no assentamento rural Normandia, em Caruaru. Cavalcanti acrescenta que os movimentos também estão unidos no embate à extrema-direita.
A vereadora sem teto também destaca a relevância de que os movimentos tenham escolhido como representantes duas mulheres negras. “Somos maioria da população, decidimos as eleições, mas quando olhamos para o retrato do poder, não nos vemos representadas. Eu e Rosa, ambas vindas de movimentos sociais, queremos enegrecer aquele espaço da institucionalidade que é tão branco”, diz a parlamentar do Psol. Já a petista procura dar destaque ao fato de serem, sim, negras, mas principalmente são frutos da luta popular. “Mulheres negras com compromisso social, é isso que somos”.
A “dobradinha” foi anunciada durante um ato político, que celebrava o aniversário de cinco anos de uma Cozinha Solidária do MTST na zona oeste do Recife. As duas estavam havia dias participando ações conjuntas de solidariedade, preparando e distribuindo marmitas para famílias atingidas pelo temporal que castigou a região metropolitana do Recife no início de maio.
As duas parlamentares-militantes avaliam que costura por cima dos partidos não deve gerar atritos para dentro do PT ou do Psol. “Os movimentos sociais podem fazer suas movimentações de fora [do partido] para dentro. E avaliamos que o momento atual é de unidade da esquerda contra o avanço da extrema-direita”, resume Jô Cavalcanti.
Representatividade política
Apesar da Lei Áurea há quase 140 anos e do início do voto feminino há quase 100 anos, a realidade é que desde 1824 as regras eleitorais sempre cercearam o direito ao voto de alguns setores da população, em especial as mulheres e a população negra. Letramento, renda mínima e autorização do marido são alguns exemplos de barreiras impostas que contribuíram para essa exclusão. As mulheres negras foram as mais afetadas, sempre encontrando dificuldades para acessarem o direito ao voto e de serem votadas. Na letra da lei, o voto só foi amplamente garantido há 40 anos, sendo a eleição geral de 2026 apenas a décima com participação plena de mulheres negras.

O reflexo pode ser visto nas casas legislativas. Entre os 49 deputados estaduais em Pernambuco, 37 cadeiras (65,3%) estão ocupadas por homens brancos, um grupo populacional que corresponde a apenas 21% do Brasil. Na mesma Alepe há apenas sete mulheres (14,3%) e treze (26,5%) pessoas negras, sendo apenas três mulheres negras (6,1%). Na Câmara Federal brasileira são 91 mulheres (17,7% da casa) e 135 negros (26,3%), sendo as mulheres negras (28,5% da população brasileira) as ocupantes de apenas 29 cadeiras (5,6%) na Câmara Federal.
De olho numa cadeira em Brasília, Rosa Amorim (PT) considera que a atual composição do Congresso Nacional faz da instituição uma “inimiga do povo brasileiro”. “Eles aprovam principalmente pautas que beneficiam os milionários e a si próprios, enquanto se negam e até atrapalham o avanço dos projetos que promovem mais dignidade e qualidade de vida para o povo brasileiro”, dispara ela.
A sem terra deu como exemplo a pauta pela redução da escala 6×1, em que 71% da população defende o direito a mais dias de descanso, enquanto cinco deputados pernambucanos assinavam uma emenda em apoio à ampliação da jornada de trabalho para 52 horas semanais. “São contra o povo trabalhador e não merecem continuar representando o povo nesse espaço de decisão política”.
Ao longo das três últimas eleições, o número de deputados negros na Câmara Federal saiu de 102 (19,8% dos deputados) para 135 (26%), uma evolução média de 3,1 pontos percentuais (ou 16,5 cadeiras) por pleito. Se mantido este ritmo, o número de deputados federais negros só alcançaria os 56% (representatividade negra na população) daqui a 40 anos, ou 10 eleições gerais. Já a representação de mulheres, que eram 30 (5,8%) em 1990 e hoje são 91 (17,7%), aponta uma evolução ainda mais lenta, de mais 7,6 cadeiras (1,5 pontos percentuais) para elas a cada eleição.
