REPARAÇÃO

A ditadura na Ufrgs no testemunho de três ex-funcionários

Segunda audiência pública da CMV mostra que universidade ainda passa pelo processo de democratizar-se

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Testemunhos na CMV/Ufrgs
Segunda audiência pública da Comissão Memória e Verdade Enrique Serra Padrós | Crédito: Marcia Turcatto

A segunda audiência pública da Comissão Memória e Verdade Enrique Serra Padrós, realizada na última quinta-feira (28), mostrou que a universidade ainda guarda hábitos da ditadura. A audiência faz parte dos trabalhos de apuração sobre as perseguições e a repressão ocorridas no ambiente universitário durante a ditadura imposta ao Brasil em 1964, e foi conduzida pela vice-coordenadora da Comissão, professora Lorena Holzmann. Na primeira audiência, em 28 de novembro de 2025, a comissão acolheu o testemunho de três ex-estudantes da Ufrgs que foram perseguidos e viveram na clandestinidade. 

O biólogo Alcides José de Almeida, técnico-administrativo aposentado, foi o último a falar sobre sua experiência na universidade. Ele trabalhou nos institutos de Biociências e de Ciências Básicas da Saúde e participou da organização do sindicato da categoria. Alcides também foi uma das lideranças das greves de 1982 e de 1984. Ele iniciou seu testemunho saudando a conquista pela escala de trabalho 5×2 e a jornada semanal de 40 horas recentemente aprovadas na Câmara Federal.

A participação ativa de Alcides no sindicato pelos direitos trabalhistas dos técnicos- muitos recebiam menos que um salário-mínimo e necessitavam de uma complementação, resultaram em represália, ele perdeu a bolsa de estudo que conquistara para estudar na Inglaterra e foi impedido de continuar sua pesquisa sobre rotavírus no laboratório de biologia da Ufrgs. “A Ufrgs ainda mantém regras e legislação da época da ditadura que são totalmente arbitrárias, isso precisa mudar”, afirmou Alcides, lembrando que o impedimento de técnicos com curso superior de assumir a direção de uma faculdade é uma delas.

O técnico-administrativo Décio Aloísio Schauren, também aposentado, falou sobre sua experiência na Ufrgs e o trabalho na organização sindical. Ele era funcionário dos departamentos de Pessoal e de Relações Internacionais da Filosofia. Na década de 1990, foi eleito vereador pelo PT, atualmente dedica-se a pesquisa sobre a migração alemã no estado de Santa Catarina e tem vários livros publicados.

Décio foi aluno do curso de Letras e lembrou de um antigo funcionário, conhecido como “seu Milton”, que ajudava a proteger os estudantes quando percebia a chegada de policiais ou de agentes disfarçados. Ele também recordou da primeira grande greve realizada pelos técnicos da universidade, em 1982, e da greve de 1984, que mobilizou todas as universidades federais do Brasil. “Em 1982, nossos salários foram cortados e nós seguimos para a porta dos supermercados pedir doação de alimentos e fomos atendidos”, recordou.

A legalidade e a ditadura

Jussara Rosa Cony, técnica-administrativa aposentada, trabalhou nas faculdades de Medicina e de Farmácia. Graduada em Farmácia, ela tem mestrado na área, foi a primeira técnica emérita da Ufrgs, ex- gestora do Grupo Hospitalar Conceição, ex-vereadora e ex-deputada estadual pelo PCdoB, Jussara Cony tem uma longa trajetória de militância política em diversos setores, desde o sindical, passando pelo feminista e também no setor da saúde, onde participou da organização do Sistema Único de Saúde (SUS).

Ela lembrou seus anos de militância sindical e o apoio que recebeu de seus chefes e de professores, como Otto Alcides Ohlweiler, titular de Química, sequestrado pelas forças de repressão da ditadura em 1964 e cassado pelo AI-5 em 1968. Em 1984, com a abertura política, o Conselho Universitário da Ufrgs concedeu a ele o título de professor emérito. No entanto, Ohlweiler não quis receber a honraria, alegando que a universidade, de fato, não havia se democratizado. Jussara afirmou que “ser farmacêutica é uma opção política, eu defendo uma indústria farmacêutica nacional”. 

Jussara também recordou um período importante da história do Brasil e, em especial do Rio Grande do Sul, que foi a Campanha da Legalidade, liderada pelo governador Leonel Brizola em 1961, para garantir a posse de João Goulart, o Jango, na presidência da República após a renúncia de Jânio Quadros. Os militares tentaram impedir a posse e Brizola coordenou a resistência a partir do Palácio Piratini e organizou uma rede nacional de rádio para mobilizar a população. Jussara participou dessa luta ao lado do jornalista Lauro Hagemann, locutor da rede de rádios, e que ficou conhecido como “a voz da legalidade”.

Lauro Hagemann era funcionário da Ufrgs e foi cassado pelo AI-10, uma regra da ditadura específica para atingir os funcionários públicos. O AI-10 estabelecia que as cassações, suspensões de direitos políticos e demissões de funcionários públicos em decorrência de atos institucionais anteriores levariam à perda de todos os direitos ou funções na administração pública, direta ou indiretamente, bem como nas instituições de ensino e pesquisa ou em organizações consideradas de interesse nacional. 

O engenheiro Homero Simon foi quem criou as condições técnicas necessárias para colocar a rede de rádios no ar. Homero foi professor da Rádio da Faculdade de Jornalismo da Ufrgs, onde também exerceu a chefia do Departamento de Engenharia Eletrônica. 

A Comissão

A Comissão Memória e Verdade Enrique Serra Padrós coleta e disponibiliza registros sobre as violações de direitos humanos que aconteceram na Ufrgs entre 1964 e 1988, época marcada pelo regime ditatorial instaurado no Brasil. No período entre 1964 e 1969, a Ufrgs teve dois processos de expurgo, nos quais foram expulsos inúmeros docentes, estudantes e técnicos, além de adotada a aposentadoria compulsória de vários profissionais.

O trabalho da CMV envolve um canal de escuta, pesquisa em documentos da época e testemunhos, entre outras estratégias. No final deste ano, a Comissão deve apresentar seu relatório final sobre os arbítrios que aconteceram na Ufrgs durante a ditadura instaurada no Brasil.

O nome da Comissão é uma homenagem ao professor Enrique Serra Padrós, que atuou no Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Ufrgs. Padrós, que morreu em 2021, dedicou sua trajetória acadêmica à pesquisa sobre regimes autoritários na América Latina.

Editado por: Vivian Virissimo

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