Entrevista

Diálogo ou repressão? Como lidar com as guerrilhas deve decidir segundo turno da eleição colombiana, diz analista

Segundo a internacionalista Amanda Harumy, a eleição vai além da avaliação do atual governo

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Iván Cepeda e Abelardo de La Espriella, candidatos à presidência da Colômbia
Iván Cepeda e Abelardo de La Espriella, candidatos à presidência da Colômbia | Crédito: Luis Acosta; Raul Arboleda/AFP

A Colômbia terá um segundo turno da eleição presidencial marcado pela disputa entre o senador Iván Cepeda, aliado do presidente Gustavo Petro, e o empresário de extrema direita Abelardo de la Espriella. 

Segundo a internacionalista Amanda Harumy, doutora pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP), a eleição vai além da avaliação do atual governo e coloca em disputa a percepção da sociedade sobre o processo de paz conduzido pelo país nos últimos anos.

Com 98,7% das urnas apuradas, De la Espriella obteve 10,2 milhões de votos, o equivalente a 43,73% do total. Cepeda recebeu 9,5 milhões de votos, ou 40,91%, e avançou para o segundo turno, marcado para 21 de junho.

O resultado da primeira votação abriu uma crise política após Petro questionar os números divulgados pelo Registro Nacional Eleitoral. Em publicação nas redes sociais, o presidente argumentou que os dados divulgados correspondem a uma contagem rápida sem validade legal e criticou o uso de um software operado pela empresa Thomas Greg & Sons. Segundo Petro, a companhia pertence a empresários que mantêm relações de negócios com De la Espriella.

O presidente colombiano argumentou que “apesar de os algoritmos do software de contagem e apuração deverem permanecer estáticos, foram alterados três vezes na última semana, adicionando 800 mil títulos de eleitor pertencentes a pessoas não incluídas no censo oficial”.

“As seções eleitorais que já foram contestadas demonstram que centenas de milhares de votos foram adicionados sem a existência de eleitores registrados”, acrescentou o mandatário.

Para Harumy, a reação de Petro é resultado de um processo eleitoral marcado por tensão e surpresa para os setores progressistas. A pesquisadora afirma que havia expectativa de que a esquerda terminasse o primeiro turno como principal força política ou até mesmo conquistasse a vitória sem necessidade de nova votação.

“O argumento do Gustavo Petro é exatamente sobre essa contagem, essa apuração dos votos, que realmente a gente precisa esclarecer, ver o resultado final”, afirma. “O questionamento se deve a uma surpresa do campo progressista e da esquerda de não uma derrota, mas eles esperavam que poderiam sair pelo menos como a primeira força dessa disputa do primeiro turno e chegaram até mesmo a acreditar que poderiam já sair vitoriosos.”

A pesquisadora avalia que o desempenho da extrema direita foi impulsionado pela concentração de votos em torno de De la Espriella nos dias finais da campanha. Segundo Harumy, pesquisas indicavam vantagem do campo governista enquanto diferentes candidaturas da direita disputavam espaço entre si.

“O resultado foi diferente porque essa extrema direita aglutinou no Rodolfo Hernández. Então, votos que eram da Paloma [Valencia, outra candidata da direita] foram para ele e nós temos um resultado, mais uma vez, polarizado“, diz, ao analisar o movimento de unificação do eleitorado conservador observado ao longo da campanha.

Harumy afirma ainda que a eleição representa uma disputa sobre os rumos do processo de paz iniciado nos últimos anos. Segundo a internacionalista, o governo Petro está associado à proposta de aprofundar negociações, promover reformas e buscar o desarmamento de grupos armados. “Hoje e nas últimas eleições da Colômbia, o que está em disputa é a sua percepção sobre o processo de paz”, afirma.

De acordo com a pesquisadora, o campo da esquerda defende a continuidade desse processo, enquanto a extrema direita aposta em uma política de segurança baseada na militarização e no combate direto aos grupos armados. Ela avalia que a polarização entre esses projetos deve se intensificar até a votação de junho.

Harumy também aponta que fatores internacionais influenciam a disputa eleitoral na América Latina. Segundo ela, denúncias recentes sobre campanhas de comunicação voltadas a desgastar forças progressistas na região reforçam o debate sobre interferência externa em processos eleitorais.

Na avaliação da especialista, a contestação dos resultados apresentada por Petro deve aumentar a tensão política nas próximas semanas. Ela destaca que a denúncia envolve cerca de 150 mil votos que ainda precisariam ser esclarecidos dentro do processo de apuração. “A denúncia que o Petro faz é bem grave, porque ela questionou 150 mil votos ainda de uma defasagem, de uma contagem rápida”, afirma.

A pesquisadora ressalta que a participação eleitoral será um dos fatores centrais do segundo turno. Segundo ela, cerca de 43% dos eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, o que mantém aberta a disputa pelos votos que podem definir o próximo presidente colombiano.

Editado por: Rafaella Coury

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