Os colombianos vão às urnas neste domingo começar a escolher quem governará o país entre agosto deste ano e 2030. Iván Cepeda, candidato da esquerda, é o líder nas pesquisas de intenção de voto, com chances reais de vencer a disputa já no primeiro turno, caso conquiste mais da metade dos votos válidos.
O senador, filósofo e defensor dos direitos humanos lidera as pesquisas, com 44% da preferência do eleitorado para suceder ao primeiro presidente de esquerda da história do país, Gustavo Petro. Cepeda foi um dos arquitetos da “paz total”, política com a qual o governo tentou, sem sucesso, negociar o desarmamento de todos os grupos armados.
Ele concorre com dois candidatos da direita, o excêntrico advogado milionário que encarna a linha dura da direita contra o crime, Abelardo de la Espriella, ou “El Tigre”, que tem cerca de 31% das intenções de voto; e a senadora Paloma Valencia, autodenominada uribista, por ter como mentor o ex-presidente de direita Álvaro Uribe (2022-10), com cerca de 16% do eleitorado.
Na Colômbia, a reeleição é proibida, e muitos enxergam este pleito como um tipo de plebicito a respeito dos quatro anos de governo Petro. Ele começou desacreditado, com baixo índice de aprovação, mas conquistou apoio popular ao radicalizar seu projeto, mais à esquerda.
O analista político e historiador Miguel Stédile disse durante o podcast O Estrangeiro, da Rádio Brasil de Fato, que Petro “sabia do tempo limitado que ele tinha e das oportunidades, e foi comprando as brigas, porque talvez não tivesse outra oportunidade de comprar essas brigas”.
“Nos momentos em que essa correlação estava desfavorável, em especial, eu sempre lembro a discussão da reforma trabalhista, que acabou com uma demanda reprimida de anos, de décadas, na Colômbia, de reconhecimento de profissões tipo empregada doméstica, trabalhador de aplicativo, avançou em direitos das mulheres, tudo isso numa tacada só, numa única lei, que ficou aí em disputas com o Congresso durante um ano, um ano e meio, e o Petro usou o 1º de maio para mobilizar a população para isso”, explica.
Mudança de rota com Petro
Historicamente, a Colômbia foi o principal aliado estratégico e militar dos Estados Unidos na América Latina, ocupando uma posição geográfica crucial, por sua fronteira com a Venezuela e presença na Amazônia. Mas, nos últimos quatro anos, sob Petro, o país passou por uma mudança estrutural, adotando uma postura de soberania e alinhamento com governos progressistas da região (como Brasil e México).
A perda dessa influência gerou forte preocupação em Washington, culminando em denúncias de interferência externa, como o Hondurasgate. O escândalo revelou uma articulação da extrema direita continental, com suposto apoio dos EUA, e a criação de uma “unidade digital” para desestabilizar governos progressistas, como o de Petro.
A Colômbia de Petro se destacou globalmente pela firme defesa dos Direitos Humanos, chegando a denunciar formalmente o Estado de Israel e os EUA por genocídio contra o povo palestino. Indiscutivelmente, o governo do Pacto Histórico, que se encerra em agosto de 2026, representou uma ruptura com a antiga oligarquia colombiana.
Entre seus principais feitos, pode-se mencionar a Reforma Agrária, com mais de 2 milhões de hectares formalizados e entregues a comunidades rurais. O desemprego caiu para 9,2%, o menor do século, 1,6 milhão de pessoas saíram da pobreza monetária e o salário mínimo acumulou alta de 23,4%.
Neste período, a geração de energia solar superou a de carvão e o desmatamento nacional foi reduzido em 39%. Foi também registrado o recorde mundial de apreensão de cocaína (3.417 toneladas) e pagamento integral da dívida com o FMI.
Propostas para o futuro
As eleições presidenciais de 31 de maio de 2026 decidirão a continuidade desse projeto e “de tudo o que simboliza”, afirma Stédile.
“A vitória do Petro já tinha sido bastante difícil, como têm sido todas as eleições na Colômbia, inclusive aquelas vencidas por candidatos de direita, por todo esse contexto complexo que é a política colombiana há quase 100 anos. Não tem vitória simples na Colômbia”, diz ele.
Cepeda tem como candidata à vice Aida Quilcué, liderança indígena e senadora. Seu programa de governo da chapa propõe Três Revoluções:
- Revolução Ética: Transformação radical na cultura política e combate à corrupção e à violência.
- Revolução Econômica e Social: Foco na superação da pobreza e redistribuição de terras.
- Revolução Política e Democrática: Ampliação da participação popular e busca pela paz com justiça social.
Um das marcas desta campanha eleitoral é o chamado Projeto Júpiter, uma estratégia digital massiva montada por think tanks e empresários de direita para semear medo e incerteza na população, visando desestabilizar a candidatura de Cepeda.
“A direita tem um modus operandi, faz atentados, mata muita gente, transforma isso num clima de guerra, numa insegurança que questiona os acordos de paz defendidos pelo presidente Petro e pelo candidato Iván Cepeda, questiona a candidata à vice-presidenta. É um roteiro ensaiado para tentar jogar para a população um clima que não existe”, disse ao Brasil de Fato o jornalista Leonardo Wexell Severo, da Agência ComunicaSul, em Bogotá para a cobertura do pleito.
O desfecho da eleição é visto como um marco decisivo não apenas para o futuro da Colômbia, mas para o equilíbrio de forças em toda a América Latina.
