O Irã suspendeu as negociações com os Estados Unidos para o fim da guerra após o avanço de ataques de Israel no Líbano. O fim da ofensiva contra o Hezbollah é considerado um ponto importante para os países alcançarem um acordo com relação aos rumos do conflito.
Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma que o cenário continua sendo de indefinição e os EUA têm muito pouco a fazer, ao contrário do que o presidente Donald Trump busca, publicamente, passar.
“O Trump está numa sinuca de bico porque precisa negociar com o Irã e, ao fazer isso, ele precisa convencer seus eleitores que ele saiu bem dessa guerra. Por causa disso, por vezes, durante esse processo, ele faz alguns rompantes. Até agora, as negociações não avançaram para uma conclusão final. Há sempre boatos de avanços e um dos pontos complicados é realmente essa questão do Líbano”, destaca.
O principal obstáculo é que a questão do Líbano está sob poder de decisão unilateral de Israel, que continua atacando o país por apresentar um projeto de governo definido e com apoio popular. “Infelizmente, a grande maioria da população de Israel apoia as ações do governo de Benjamin Netanyahu no Líbano, assim como apoia as ações na Palestina, no Irã. Tudo isso se transformou em uma ação bélica. É outra variável complicada de ser resolvida”, avalia.
Nasser brinca que nenhum analista internacional no mundo é capaz de dizer com toda certeza o que acontecerá com relação ao desenho de forças no Oriente Médio e o Estreito de Ormuz, que segue sendo um ponto de disputa. Mas, segundo ele, há algumas tendências.
“A gente sempre costuma pensar as monarquias do Golfo como uma unidade e isso vem do final da década de 1970, com a crise do petróleo, em que o mundo entrou em recessão, e esses países são aliados de Israel e Estados Unidos. [Esse bloco] Rachou completamente. Emirados Árabes estão em pé de guerra com Arábia Saudita e ela está hesitando, talvez se aproxime do Irã. Está claro que não ficará ao lado dos Emirados que estão alinhados aos EUA-Israel. É um outro Oriente Médio, muito diferente do que era dois anos atrás. A Rússia e a China estão se aproximando por questões econômicas, mas não se aventuraram em questões políticas. Há portanto uma indefinição”, analisa.
Reginaldo Nasser ressalta a falta de habilidade diplomática de Trump. Recentemente, o presidente dos EUA se insurgiu contra Omã, que se aproximou do Irã e sinalizou possíveis acordos relacionados ao Estreito de Ormuz. “O Trump esbravejou em vez de tentar uma ação mais diplomática. Com isso, os EUA vêm afastando aliados na região ao mesmo tempo em que o Irã vai ganhando aliados diplomaticamente.”
Por outro lado, Nasser reforça que Israel não parece ter qualquer intenção de cessar os ataques no Oriente Médio. “Israel arrasa o Líbano, mas não consegue ocupar o território, que é o sonho deles. Essa linha de ação existe desde a fundação do Estado de Israel. E Israel está em eleições e, por incrível que pareça, é ponto para Netanyahu mostrar que Israel é forte, que derrota os inimigos, que ocupa o Líbano. Eu vi, um dia desses, em um canal oficial de Israel o âncora estava comemorando que Israel havia tomado uma montanha ao sul do Líbano depois de intenso bombardeio e mortes de pessoas. A gente vê isso na imprensa de Israel”, relata o analista.
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