Censura

Museu da Língua Portuguesa não explica fim antecipado de mostra sobre funk, após ataque de deputado do PL

Deputado fala em 'narcocultura' e 'apologia ao tráfico de drogas e conotação sexual'; MPSP investiga

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A mostra destacava a influência do gênero musical sobre a língua, as artes visuais e a moda.
A mostra destacava a influência do gênero musical sobre a língua, as artes visuais e a moda. | Crédito: Museu da Língua Portuguesa

A exposição Funk: Um Grito de Ousadia e Liberdade, que estava em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, foi encerrada com quase dois meses de antecedência após o deputado estadual Tenente Coimbra (PL-SP) acionar o Ministério Público de São Paulo (MPSP). 

Na peça jurídica, o parlamentar se referiu ao conteúdo da mostra como um enaltecimento à “narcocultura”. O deputado, que visitou o local, diz que identificou “o uso apelativo de imagens de jovens em bailes funk, apologia ao tráfico de drogas e conotação sexual”.  

Em texto publicado no portal da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), Coimbra alega que a exposição “normaliza as organizações criminosas e o uso de entorpecentes, e sexualiza jovens”. 

O parlamentar ainda alegou que a mostra demoniza a Polícia Militar (PM) e “normaliza o uso de armas em favelas”. Ele chegou a acionar o IDBrasil, gestora do museu, para prestar esclarecimentos à Comissão de Educação e Cultura da Alesp.

O prazo original de permanência da exposição, que se iniciou em novembro de 2025, era até agosto de 2026, porém foi encerrada neste domingo, dia 31 de maio. 

Em nota, o Museu da Língua Portuguesa confirmou que a exposição foi encerrada em 31 de maio a fim de possibilitar a “realização de duas novas mostras ainda este ano no Museu da Língua Portuguesa. ‘Funk’ ficou em cartaz por seis meses, tempo médio de exibição das mostras temporárias da instituição”, disse.

De acordo com o MPSP, há um procedimento sobre o tema, em fase preliminar de apuração, que tem por objeto verificar a possível “exposição de crianças e adolescentes a conteúdo eventualmente incompatível com a classificação indicativa atribuída à mostra, especialmente diante da informação de realização de visitas escolares.”

De acordo com o órgão, até o momento, a providência adotada pelo MPSP foi a expedição de ofícios ao Museu da Língua Portuguesa, à Secretaria Municipal de Educação e à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo, para solicitação de informações sobre o conteúdo da exposição, os critérios de classificação indicativa, as medidas de controle de acesso, a eventual realização de visitas escolares, as advertências ao público e a orientação de monitores.

A mostra reúne mais de 470 obras, entre pinturas, fotografias, vídeos e registros audiovisuais sobre a trajetória do funk nas periferias brasileiras. A primeira edição ocorreu no Museu de Arte do Rio (MAR), onde ficou um ano e meio em cartaz e bateu recorde de público, trazendo uma perspectiva cultural sobre o funk do Rio de Janeiro, tendo como curadores Taísa Machado, Dom Filó, Amanda Bonan, Marcelo Campos, e consultoria de Tamiris Coutinho, Deize Tigrona, Celly IDD, Glau Tavares, Sir Dema, GG Albuquerque, Marcelo B Groove, Leo Moraes, Zulu TR. 

Além disso, a exposição chegou a passar pela França antes de vir a São Paulo. Já em São Paulo, ela teve curadoria assinada pela pedagoga e pesquisadora do funk há mais de uma década, Renata Prado.

Mecanismo de ódio à esquerda

Tamiris Coutinho é doutoranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense, autora do livro ‘Cai de Boca’ e pesquisa as manifestações culturais do Funk e Trap no Brasil, com ênfase no Rio de Janeiro pontua que o funk acaba ocupando o centro de uma guerra cultural. “Então o funk está sempre, por parte da direita, sendo usado como um mecanismo de ódio à esquerda nesse cenário e como tem acontecido isso pelas redes sociais de forma muito evidente.”

Ela lamenta o fim antecipado da exposição, uma vez que a mostra representa uma grande iniciativa de o funk estar ocupando um dos principais museus da América Latina, sendo ela feita por pessoas que vivem, entendem, pesquisam e sabem da importância dessa manifestação cultural. “Entenderam a exposição e reverberaram toda a riqueza dela dentro do contexto que a gente tem de sociedade brasileira e de cultura popular aqui no país.”

Ela explica a ação do deputado como uma tentativa de criminalizar o funk no Brasil, que perpassa a história do país. “O ódio à expressão musical popular não termina. Então, se a gente tinha nos anos 1990 essa criminalização sendo exposta de certa maneira em veículos de comunicação como o Jornal do Brasil e a gente via leitores que mandavam cartas para o jornal.”

Coutinho afirma ainda que se choca ao perceber que questões importantes que às vezes permeiam até o funk, não são debatidas, como a segurança pública e a educação, por exemplo. “Mas usam o funk de maneira totalmente maldosa e leviana para incitar ódio de uma maneira geral, sem estar realmente interessado em debater, em discutir, em resolver questões sociais e problemas sociais de modo geral.”

Por meio da rede Instagram, a historiadora Lilian Schwarcz se manifestou sobre o fim antecipado da exposição, ela classificou o ato como uma “censura descarada”. 

“Eu vi a exposição e a crítica não procede. É censura mesmo. Aliás, 12 de julho é o dia nacional do funk e a mostra dialogaria com essa data — se não tivesse sido proibida. Por sinal, a mostra que permaneceu aberta no Rio sem maiores problemas, por aqui virou cavalo de pau da extrema direita. Não há nenhum crime nela. Ao contrário, trata-se de uma celebração histórica acerca do funk que é uma das mais vigorosas expressões culturais brasileiras contemporâneas”, denunciou a historiadora.

Schwarcz ressaltou a expressão artística como uma “poderosa plataforma de criação coletiva, afirmação identitária e ocupação do espaço público por grupos historicamente marginalizados”. 

A pesquisadora se posicionou a favor da reabertura da mostra. “É preciso dizer não à censura e ao fascismo e pressionar para que a exposição seja reaberta. Essa é a velha guerra cultural, o obscurantismo, que setores retrógrados de nossa população adoram defender. Que liberdade de expressão é essa? Autoritarismo na veia.”

Em nota, o MPSP alegou que o procedimento em curso não envolve juízo artístico, curatorial, político ou cultural sobre a exposição e que verifica o cumprimento das normas de proteção integral de crianças e adolescentes e de classificação indicativa, sem prejuízo da liberdade de expressão artística e da vedação constitucional à censura. 

“Qualquer pessoa pode encaminhar notícia de possível violação de direitos de crianças e adolescentes. Cabe ao MPSP analisar tecnicamente os fatos, com impessoalidade, dentro de suas atribuições constitucionais e legais.”

Ademais, até o momento a instituição declarou que não há determinação para “alteração, interrupção, censura ou encerramento da exposição. O procedimento encontra-se em fase inicial, voltada à colheita de informações.”

Editado por: Luís Indriunas

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