Pressão total

Rússia aumenta pressão sobre Kiev: entenda a nova escalada da guerra da Ucrânia

Analista aponta que a Rússia pressiona para tentar fazer com que as autoridades ucranianas mudem estratégia ou negociem

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Fumaça sobe de diferentes locais danificados durante ataques com mísseis e drones russos em Kiev, em 2 de junho de 2026
Fumaça sobe de diferentes locais danificados durante ataques com mísseis e drones russos em Kiev, em 2 de junho de 2026 | Crédito: Roman Pilipey/AFP

O ataque massivo realizado pela Rússia contra regiões ucranianas na madrugada desta terça-feira (2) reforça o cenário de uma grave escalada da guerra. Após a Ucrânia ter bombardeado um dormitório estudantil na cidade de Starobelsk, em 22 de maio, Moscou anunciou que iria realizar uma retaliação continuada sobre Kiev. As ações russas, no entanto, vão além de uma mera reação ao ataque ucraniano e revelam uma inflexão na estratégia do conflito como um todo.

No ataque da última madrugada, de acordo com a Força Aérea Ucraniana, foram utilizados 73 mísseis e 656 drones de diversos tipos contra cidades ucranianas. Foram registradas ao menos 20 mortes e mais de 70 feridos.

O Ministério da Defesa russo, por sua vez, em comunicado divulgado nesta terça-feira (2), confirmou o ataque desta madrugada, classificando as ações militares como uma retaliação. A pasta não mencionou as vítimas civis e afirmou que os bombardeios foram realizados contra instalações do complexo militar-industrial ucraniano.

O último grande ataque deste porte, em diversas regiões simultaneamente, e ultrapassando o total de 600 drones usados, aconteceu em 24 de maio, dois dias após o bombardeio ucraniano em Starobelsk, que matou 22 jovens em um dormitório estudantil.

Em seguida, na segunda-feira (25), o Ministério das Relações Exteriores da Rússia anunciou que as Forças Armadas da Rússia iriam realizar ataques sistemáticos contra a capital ucraniana de Kiev em resposta ao ataque realizado.

A comprovação de que o anúncio da diplomacia russa não era mera retórica veio na madrugada desta terça-feira, mas as autoridades russas já haviam dado sinais claros de que o momento da guerra passaria por uma mudança.

Este agravamento do conflito ucraniano deu o tom do Fórum Internacional de Segurança, realizado na semana passada em Moscou, entre 26 e 29 de maio. O evento, que reuniu 140 delegações de 120 países para discutir os principais dilemas de segurança no sistema internacional, com foco na perspectiva dos países em desenvolvimento, do grupo Brics e do Sul Global, teve sua dinâmica alterada pelos acontecimentos da guerra da Ucrânia. O fórum acabou virando uma plataforma para a Rússia expor a sua visão atualizada do conflito. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Fabiano Mielniczuk, que participou do fórum em Moscou como palestrante, observou que o evento refletiu a mudança de perspectiva das autoridades russas em relação aos acontecimentos no campo de batalha.

“De certo modo, o que eu notei aqui é que o conflito na Ucrânia está começando a tomar uma outra dimensão.” Segundo ele, esta inflexão também acontece, não por acaso, após intensas negociações envolvendo a visita de Donald Trump, e depois de Vladimir Putin, à China.

“Pelo tom do que os russos estão falando, parece que há, sim, uma inflexão. Eles vão começar algum tipo de escalada atacando Kiev para pressionar inclusive a própria população da Ucrânia a tentar fazer com que as autoridades ucranianas mudem a sua estratégia ou negociem. Então me parece que sim, que há uma mudança na perspectiva da Rússia. Agora, essa mudança, volto a insistir, não deve ser considerada como sendo apenas da Rússia. Exatamente depois que os russos se encontram com os chineses, depois que os chineses tinham se encontrado com os americanos, é que essas atitudes estão sendo tomadas. Então me parece que sim. Tem algum desenho aí entre as grandes potências a respeito disso”, afirma.

Outro ponto que gera preocupação em relação a uma ampliação do conflito diz respeito à fronteira entre Rússia e os países bálticos. Recentemente, foram identificados diversos incidentes de drones ucranianos que estariam se aproveitando do espaço aéreo de países como a Letônia para atingir regiões russas. Em resposta, o presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que “todos os locais e territórios que representam uma ameaça militar direta à Rússia são alvos legítimos”. Ao mesmo tempo, ele rechaçou a ideia de que Moscou representa uma ameaça para a Europa.

Recentemente o presidente russo reforçou que a situação no campo de batalha está se desenvolvendo de tal forma que pode estar se desenhando a busca de uma resolução do conflito.  

Nesta terça-feira (2), o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que o conflito na Ucrânia pode ser encerrado “até o final do dia”. “A guerra pode terminar até o final do dia […]. Para isso, [Volodymyr] Zelenskyy precisa ordenar que suas forças armadas deixem o território das regiões russas”, explicou.

Para o professor Fabiano Mielniczuk, essa posição reflete a atual estratégia russa de escalar os ataques em Kiev para forçar uma resolução sob os seus termos.

“Se os russos escalarem a ponto de começarem a atacar insistentemente Kiev e causar um transtorno gigantesco em termos do poder de decisão do poder político e tomarem o centro de tomada de decisão na Ucrânia. O que vai acontecer? Vai ser uma rendição, não uma negociação. Ou, antecipando uma possível rendição, pode haver uma negociação e uma resolução do conflito, mas sempre à base da pressão da Rússia”, afirmou.

“Então, ou você vai ter uma rendição por conta desse tipo de uso da força, num nível que não foi visto ainda até agora no conflito ou você vai ter esse tipo de atitude levando a uma negociação e a negociação sendo favorável aos interesses russos. Eu não vejo outra alternativa. Agora, é óbvio, se a Europa quisesse defender a Ucrânia, aí nós vamos ter um problema muito maior”, completou.

Editado por: Luís Indriunas

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