PELA CIDADE BAIXA

Festa de Santo Antônio no dia 13 de junho une toda a comunidade e os devotos do bairro gaúcho

Capela do ‘O Pão dos Pobres’ é histórica, tem histórias fantásticas e já superou duas enchentes e um incêndio

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Não é festa exclusiva, afinal Santo Antônio tem devotos pobres, ricos, quem quer casar ou namorar. É o santo do povo. E ali está uma capela histórica, de 1929
Não é festa exclusiva, afinal Santo Antônio tem devotos pobres, ricos, quem quer casar ou namorar. É o santo do povo. E ali está uma capela histórica, de 1929 | Crédito: Rafael Rosa

A Cidade Baixa é um bairro de Porto Alegre de muitas festas. De todos os tipos. A mais tradicional, a mais comunitária, a que reúne uma verdadeira multidão, é a de Santo Antônio. Tem também o Carnaval, sempre muito frequentado, e tantas outras. No dia 13 de junho, sábado, das 9h às 19h, a Fundação O Pão dos Pobres (República, 801) promove a Festa de Santo Antônio.

Será uma grande quermesse com atrações para todos os gostos. A comunidade está convidada. Vai ser um grande encontro de católicos, espíritas, negros, quilombolas e integrantes de religiões de matriz africana. Enfim, de todos os credos. Não é festa exclusiva, afinal Santo Antônio tem devotos pobres, ricos, quem quer casar ou namorar. É o santo do povo. E ali está uma capela histórica, de 1929.

O psicólogo e psicopedagogo William Rios Branchart, responsável pela Pastoral do Pão dos Pobres, diz que a festa é a maior ação realizada nos pátios e ginásio da fundação, “é a nossa grande interação com a comunidade”. Durante todo o dia serão realizadas quatro missas (10h, 14h, 16h e 18h), ministradas pelo padre Charles Kermaunar, vigário do Santuário de Santo Antônio.

O psicólogo e psicopedagogo William Rios Branchart é o responsável pela Pastoral do Pão dos Pobres | Crédito: Rafael Rosa

“Nossas portas estarão abertas para toda a população”, diz, entusiasmado. Vai ter um almoço com a venda de apenas 200 ingressos ao preço de R$ 40,00 – carreteiro com feijão campeiro e saladas. “Não colocamos mais ingressos à venda para não faltar e para não sobrar, queremos que saia tudo direitinho”, afirma. Toda a arrecadação será destinada a obras, atividades e projetos do local.

Ao final das missas será distribuído o pãozinho de Santo Antônio – uma tradição da fundação que se repete todas as terças-feiras do ano. Durante o dia, serão oferecidas várias atrações. Um Mega Brechó, com preços bem acessíveis, bancas de artesanato e comércio, além de opções gastronômicas variadas, como cachorro-quente, quentão, pipoca, bolos, tortas, pão de queijo e refrigerantes. “Será um dia de acolhimento e solidariedade”, reforça William. Até o dia 13 serão vendidos tickets de segundas a sextas, das 8h30 às 12h e das 13h30 às 17h.

Capela supera enchentes e incêndio 

A Capela de Santo Antônio é uma história à parte. Ali, as águas das enchentes, de 1941 e 2024 chegaram a quase dois metros. Os bancos ficaram engavetados, uns em cima dos outros, nas proximidades do altar. Alguns foram trocados, outros ficaram inaproveitáveis. Os vitrais, todos doados pela comunidade por pessoas com letra inicial “A’ do frade protetor, ficaram incólumes. Nenhum foi quebrado.

No incêndio de 12 de janeiro de 2014, alguém deixou o velário com velas acesas. Dali, as chamas se espalharam para o altar e depois para o telhado. Parte do santuário do orfanato foi destruído. Nenhum vitral se quebrou também. Reaberto em 2016, depois de uma reforma geral, do altar e do teto, principalmente, alguns bancos da capela foram restaurados, outros reaproveitados. Outros bens do local – confessionário, oratório, imagens de santos – foram também aproveitados, conforme as necessidades.

Dois anos após o incêndio, o local foi reaberto. Foi no dia 7 de junho de 2016. O valor do seguro cobriu parte dos custos para recuperar o prédio. Verbas da Fundação O Pão dos Pobres e doações da comunidade ajudaram a recuperar o pequeno templo. Em cerimônias, só são admitidas no interior 100 pessoas, conforme alerta um aviso na porta de acesso, por questões de segurança e pelas novas normas de combate a incêndios. William admite que o espaço comporta mais pessoas. Isso é visível, mas em nome da segurança, a redução é saudável.

O imóvel está na lista de bens inventariados pela Equipe do Patrimônio Histórico e Cultural (EPAHC) de Porto Alegre e, por isso, a reforma deveria preservar as características originais.

Três relíquias de três santos

Santa Teresinha das Rosas, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus, é uma das santas mais populares do Catolicismo | Crédito: Rafael Rosa

Com as mudanças, o velário passou para a parte externa, em área protegida, para evitar novas surpresas. “É significativo o número de pessoas que vêm aqui acender velas para o nosso santo”, explica William. “São devotos de várias idades e de muitos anos, que pedem algumas graças ou simplesmente porque têm um apreço especial por Santo Antônio.”

A capela não faz batismos, crismas, casamentos ou catequeses para a primeira comunhão. Mas tem um oratório, órgão para músicas religiosas, confessionário, os 14 quadros da Via-Sacra – eles representam o caminho de Jesus desde a condenação até o sepultamento. No entanto, por recomendação do Papa São João Paulo II, muitos fiéis rezam hoje a 15ª estação, dedicada à Ressurreição de Jesus.

Um grande patrimônio da capela são as três relíquias que ela apresenta aos visitantes: a primeira é a de Santo Antônio, considerada de 1º grau do santo, que consiste em um fragmento de sua massa corporal, trazida de Lisboa e utilizada pelos padres para conceder a bênção da saúde aos fiéis; a segunda é de São João Batista de La Salle (1651-1719), padroeiro universal dos professores, sacerdote e pedagogo francês, pioneiro na educação popular, fundador dos Irmãos das Escolas Lassalistas; e a de Santa Teresinha das Rosas, conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus,  uma das santas mais populares do Catolicismo, famosa pela “Pequena Via” (fazer pequenas coisas com grande amor) e pela promessa de fazer cair uma “chuva de rosas” (sinais de graças e milagres).

Restos mortais do fundador do O Pão dos Pobres, Cônego José Marcelino de Souza Bittencourt (1847-1911), também estão na capela | Crédito: Rafael Rosa

Interessante também no interior da capela é que ali estão os restos mortais do fundador do O Pão dos Pobres, Cônego José Marcelino de Souza Bittencourt (1847-1911). Outra curiosidade é que a doação do oratório foi feita pelo jornalista Archimedes Fortini (1887-1973), ex-Correio do Povo, ex-provedor da Santa Casa e tantas outras coisas, e devoto de Santo Antônio.

“Nossa capela é um lugar de aproximação e de conexão permanente com todos os devotos de Santo Antônio, um espaço de vertente humanista, onde todos são bem recebidos. Aqui mostramos a dimensão humana, uma ligação permanente com a vida”, reafirma William.

Nascimento em Portugal e morte na Itália

No dia 13 de junho de 1231, Santo Antônio recebeu os últimos sacramentos nos aposentos do capelão das Pobres Clarissas de Arcella, onde morreu | Crédito: Rafael Rosa

Santo Antônio nasceu em Lisboa, Portugal, em 1195, e morreu em Pádua, Itália, em 1231. O ano de nascimento não é muito preciso, há divergências. Português de nascimento e natural de Lisboa, Santo Antônio recebeu seu sobrenome da cidade italiana de Pádua, onde teve sua última residência e onde suas relíquias são ainda veneradas. É um dos santos do mundo católico mais conhecidos e mais queridos, até por outras religiões – espíritas, religiões de matriz africana e comunidade negra. Tem devoto em todos os cantos.

Nasceu com o nome de Fernando, logo trocado por Antônio, quando ingressou na Ordem dos Frades Menores, por devoção ao grande patriarca dos monges, Santo Antão, que era titular da capela onde recebeu o hábito franciscano. 

Aos 15 anos, entrou para os cônegos regulares de Santo Agostinho, que se estabeleceram perto da cidade. Depois se mudou para Coimbra, onde se fixou no priorado local, então capital de Portugal, a fim de evitar as distrações que lhe causavam as numerosas visitas de seus amigos. Naquela casa dedicou-se à oração e aos estudos. 

A Capela de Santo Antônio é histórica, de 1929 | Crédito: Rafael Rosa

Foi admitido na ordem dos franciscanos em 1221, impressionado com o massacre de frades missionários no Marrocos. Foi para o Marrocos pregar o Evangelho aos mouros, mas voltou para Portugal, em função de uma grave doença. O navio em que embarcara foi desviado de sua rota por ventos contrários e ele acabou na Itália – na Sicília. Depois foi para Assis, participou de atividade com a presença de São Francisco sentado aos seus pés. 

Não falava de sua doença e rezava em qualquer lugar. Morou em uma caverna, ajudou outros frades, lavando panelas e pratos depois das refeições em comum. Na localidade de Forli, em encontro entre dominicanos e franciscanos, Santo Antônio acabou falando o que tinha no seu coração ou “tudo que o Espírito lhe pusesse na boca”. Pronunciou um sermão que causou comoção geral. 

Impressionados, os comandantes franciscanos o levaram para pregar na região da Lombardia. Ficou conhecido por suas orações, seus discursos de convencimento aos chamados hereges, convertendo-os ao Catolicismo. Pregador de grande talento, foi nomeado também professor de Teologia, mas sua missão estava no púlpito: saber, eloquência, grande poder de persuasão, zelo ardente pelas almas e uma voz sonora que chegava longe. A qualquer lugar que fosse, as multidões acorriam para ouvi-lo. Pregava nas praças públicas e nos mercados. As mulheres eram especiais. Elas gostavam das suas prédicas.

Nessa ocasião, Antônio conseguiu que o Papa Gregório o dispensasse do seu cargo, a fim de poder dedicar-se à pregação. A partir dessa época, Antônio residiu em Pádua, cidade na qual havia trabalhado anteriormente, onde era muito popular e na qual – mais do que em qualquer outra – lhe foi dada a graça de ver os frutos de seu ministério. De fato, seus sermões não eram apenas escutados por multidões enormes, mas provocavam uma reforma geral dos costumes. 

Querelas antigas se resolviam amigavelmente, libertavam-se encarcerados e os que possuíam bens mal adquiridos muitas vezes os restituíam em público, colocando-os aos pés de Santo Antônio. Em defesa dos pobres, denunciava ele o vício predominante da usura, fazendo com que o Estado promulgasse uma lei que isentava da prisão os devedores dispostos a largar mão de seus bens, para pagar a seus credores.

Depois de pregar uma série de sermões na primavera de 1231, as forças de Santo Antônio cederam, e ele se recolheu, em companhia de dois frades, a um lugar retirado, cheio de árvores, em Camposampiero. Logo percebeu que seus dias estavam contados, e ele pediu que o levassem de volta a Pádua.

Não conseguiu mais alcançar a cidade, mas apenas seus arredores. No dia 13 de junho de 1231, recebeu os últimos sacramentos nos aposentos do capelão das Pobres Clarissas de Arcella, onde morreu. Não há precisão de quantos anos tinha. Uns falam em 33 anos, outros em 41.

Por que ele é santo casamenteiro?

A fama de “casamenteiro” de Santo Antônio, ainda em vida, é que ele ajudava mulheres humildes a conseguirem o dote necessário para se casarem | Crédito: Rafael Rosa

A fama de “casamenteiro” de Santo Antônio, ainda em vida, é que ele ajudava mulheres humildes a conseguirem o dote necessário para se casarem. Em uma época onde o matrimônio muitas vezes dependia de negociações financeiras, ele defendia o amor verdadeiro, o que gerou profunda devoção popular.

A forte associação do santo ao matrimônio consolidou-se por três pilares: ajuda às noivas pobres, defesa do amor e forte oposição aos casamentos arranjados por puro interesse financeiro e simpatias populares – ao longo dos séculos criou-se diversos rituais, como colocar a imagem do santo de cabeça para baixo ou retirar o Menino Jesus do seu colo, com a promessa de só devolver quando um amor fosse encontrado.

Fundação Pão dos Pobres

Criada em 1895, o Pão dos Pobres é uma das mais antigas organizações da Sociedade Civil do país | Crédito: Rafael Rosa

Criada em 1895, a Fundação O Pão dos Pobres é uma das mais antigas organizações da Sociedade Civil do país. Inicialmente voltada ao acolhimento de famílias atingidas pela Revolução Federalista, atualmente atende cerca de 1.170 crianças, adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade social.

A instituição atua por meio de três frentes principais. Acolhimento Institucional, Aprendizagem Profissional e Serviço de Convivência e Educação Integral. Mensalmente, são servidas aproximadamente 57 mil refeições, além da oferta de 15 cursos profissionalizantes em parceria com empresas.

A manutenção das atividades ocorre por meio de recursos do Funcriança, cotas de aprendizagem, convênios públicos, doações e contribuições via PIX (CNPJ 92.666.015/0001-01). Para apoiar ou obter mais informações, também é possível entrar em contato pelo whats da Captação de Recursos (51) 98971-9615.

Editado por: Katia Marko

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