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Guerra, vistos, protestos: por que o Irã é o país que mais desperta atenção na Copa do Mundo dos EUA

Não há nem garantias de que os jogos vão acontecer

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Equipe iraniana antes de amistoso para a Copa do Mundo em março deste ano
Equipe iraniana antes de amistoso para a Copa do Mundo em março deste ano | Crédito: Oner San/AFP

Alguns (poucos) países já disputaram uma Copa do Mundo enquanto travavam guerras, como a Argentina em 1982 e o Iraque em 1986. No entanto, quando o Irã entrar em campo no próximo dia 15 contra a Nova Zelândia, será a primeira vez que um país atacado jogará o torneio que é sediado pelo país que o ataca.

Só isso já torna os jogos do Irã um dos mais aguardados da Copa 2026, mas não é só. A poucos dias da estreia, não há garantia oficial de que os jogadores vão poder sequer entrar nos Estados Unidos para os jogos, vindos da concentração em Tijuana, fronteira entre México e EUA. Todos os jogos da primeira fase do Irã serão nos Estados Unidos, mas a seleção ficará hospedada no México.

Além disso, o jogo do dia 27 com o Egito em Seattle coincide com as celebrações do Dia do Orgulho LGBT+ na cidade, o que gerou protestos dos dois países onde a homossexualidade é proibida.

Desde o início da guerra iniciada por Israel e EUA contra o Irã no dia 28 de fevereiro, o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, afirmou que os iranianos farão os jogos da fase de grupos nos Estados Unidos. A decisão foi tomada apesar de a Federação de Futebol do Irã (FFIRI) ter pedido para jogar no México, que, assim como o Canadá, é também sede da Copa.

Antes, em março, o Irã havia dito que não participaria do torneio, poucos dias após o início dos bombardeios de Israel e EUA. O país mudou de posição posteriormente, aceitando se hospedar no México e solicitando que seus jogos fossem transferidos para fora do país agressor.

Vai ter visto?

Dos EUA, os sinais enviados foram, no mínimo, confusos. Em abril, o enviado especial estadunidense para Negócios Globais sugeriu rasgar o regulamento do torneio e permitir a troca do Irã pela Itália, que não se classificou para a Copa. A sugestão estapafúrdia foi devidamente rejeitada tanto pela Itália como pela Fifa.

Já o presidente estadunidense, Donald Trump, depois de dizer que a seleção iraniana não deveria ir aos EUA “pela sua própria segurança”, finalmente permitiu a entrada dos atletas. No entanto, alguns membros da delegação não conseguiriam realizar a viagem devido aos seus vínculos com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI), braço ideológico das forças armadas iranianas, classificado como grupo terrorista por Washington.

A FFIRI, convidada para uma reunião na sede da Fifa em Zurique antes do dia 20 de maio, pediu “garantias concretas” para poder jogar. Após o encontro, a federação iraniana disse estar confiante de que a Fifa auxiliará na obtenção de vistos de “múltiplas entradas” para os Estados Unidos.

“A Fifa deve garantir a emissão de um visto de múltiplas entradas para que os jogadores possam entrar nos Estados Unidos e retornar ao México”, afirmou o presidente da Federação Iraniana de Futebol, Mehdi Taj, em vídeo divulgado pela mídia local.

Ausência ilustre

Taj declarou ainda que não estava “a par da situação referente a Sardar Azmoun”, o atacante estrela da seleção que ficou de fora da lista de convocados anunciada pelo técnico. Azmoun, que marcou 57 gols pelo Irã e atuou por clubes como Bayer Leverkusen e AS Roma, entre outros, expressou seu apoio aos manifestantes contra o governo iraniano em dezembro.

Na segunda-feira, um vice-presidente iraniano pediu o retorno de Sardar Azmoun à seleção, enquanto alguns veículos da mídia esportiva especulavam sobre sua possível inclusão no elenco antes do prazo final para a definição das listas de convocados para a Copa.

O jogador havia enfrentado críticas da mídia estatal iraniana, parte da qual o acusou de “traição”, após a publicação, em março, de uma foto que o mostrava ao lado do emir de Dubai. Azmoun joga e reside em Dubai, cidade situada em um contexto de relações tensas entre Teerã e Abu Dhabi, decorrentes do conflito no Oriente Médio.

Recentemente, o jogador escreveu no Instagram que, antes de sua primeira convocação, havia recusado “uma oferta financeira muito substancial de outro país”, descrevendo-se como “um filho do Irã” ansioso por representar sua nação.

Pessoas seguram retratos do líder supremo do Irã, o aiatolá Mojtaba Khamenei, durante a cerimônia de despedida da seleção iraniana de futebol, antes de sua partida para a Copa do Mundo da FIFA de 2026, em Teerã, em 13 de maio de 2026.
Pessoas seguram retratos do líder supremo Mojtaba Khamenei, durante a cerimônia de despedida da seleção iraniana rumo à Copa do Mundo de 2026. | Crédito: Atta Kenare/AFP

Choque cultural

As federações de futebol do Egito e do Irã solicitaram formalmente à Fifa que intervenha e impeça as celebrações do Orgulho LGBT+ planejadas para a partida entre as duas seleções na Copa do Mundo de 2026, em Seattle. O jogo, marcado para 26 de junho de 2026, já havia sido designado pelos organizadores locais como o “Jogo do Orgulho” antes mesmo do sorteio dos grupos, visando coincidir com o fim de semana do Orgulho LGBT+ em Seattle.

A Federação Egípcia de Futebol (EFA) enviou uma carta à Fifa alegando que os eventos e manifestações planejados entram em conflito direto com os valores culturais, religiosos e sociais das sociedades árabes e islâmicas, podendo gerar tensões entre os torcedores. Cairo baseia seu pedido no Artigo 4º dos estatutos da Fifa, que exige neutralidade política e social durante as competições.

Em ambos os países, a homossexualidade é severamente criminalizada (com risco de pena de morte no Irã e processos por leis de moralidade no Egito). Além disso, o texto menciona que o presidente da Fifa, Gianni Infantino, enfrenta críticas por conceder um “Prêmio da Paz” ao presidente Donald Trump durante o sorteio do torneio.

E a torcida?

A estreia do Irã está marcada para 15 de junho contra a Nova Zelândia, no SoFi Stadium, em Los Angeles — cidade que abriga a maior comunidade iraniana nos Estados Unidos. A mídia local afirma que a comunidade iraniana lá está profundamente dividida. Enquanto alguns enxergam a Copa como uma oportunidade de união e celebração do futebol, outros têm dificuldades em apoiar o time, considerando-o um representante do atual regime opressor do Irã, já que muitos deixaram o país após a Revolução Islâmica de 1979.

Especialistas e moradores locais afirmam que manifestações nos estádios são inevitáveis. Esperam-se conflitos simbólicos, especialmente devido ao uso da bandeira do “Leão e do Sol” (símbolo pré-revolução e anti-regime), que a Fifa planeja proibir dentro dos estádios.

No Irã, entretanto, apesar dos bombardeios estadunidenses, milhares foram à Praça Enqelab, em Teerã se despedir da equipe antes da partida para o México. Os jogadores foram ovacionados pela multidão enquanto faziam declarações patrióticas em um palco na quarta-feira.

“Esta é a melhor despedida das últimas quatro Copas do Mundo”, disse Mehdi Taj, presidente da Federação Islâmica de Futebol do Irã (FFIRI), à TV estatal.

“Os jogadores estão com o povo, e a torcida apoia a dignidade, a honra e a força do país. Seja qual for o resultado, que a bandeira do Irã seja hasteada lá e defendida.”

Histórico

O confronto político entre Irã e Estados Unidos já se refletiu no futebol em outras edições. Em 1998, na França, o Irã venceu os EUA por 2 a 1 sob forte clima político, embora os jogadores tenham trocado rosas brancas antes da partida.

No Catar, em 2022, o Irã jogou em meio a protestos massivos no país (movimento “Mulher, Vida, Liberdade”) e parte da diáspora chegou a pedir o boicote da seleção. Na ocasião, os EUA venceram por 1 a 0.

Caso ambas as seleções passem da primeira fase em segundo lugar nos seus grupos, os EUA e o Irã poderão se enfrentar novamente em solo americano, no dia 3 de julho, em Dallas.

Editado por: Luís Indriunas

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