mais escândalo

ONG da produtora de ‘Dark Horse’ cedeu dados ilegais para agência de marketing durante eleições de 2024

Compartilhamento de informações viola contrato firmado com a prefeitura e indica possível propaganda irregular

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capa do filme dark horse
Reprodução capa do filme Dark Horse | Crédito: Reprodução

Novas denúncias publicadas pelo Intercept apontam o uso ilegal de dados de pessoas que acessaram o Wi-fi gratuito na cidade de São Paulo (SP) pela produtora do filme “Dark Horse”, inspirado no ex-presidente Jair Bolsonaro. O site levantou indícios de que as informações desses usuários teriam alimentado uma base para envio de e-mails e mensagens de WhatsApp, com possibilidade de disparo de propaganda política.

A informação se soma a uma série de escândalos envolvendo a produtora, Karina Ferreira da Gama. Nesta semana, uma operação policial tornou pública uma investigação relacionada ao acordo assinado por uma empresa de Gama, o Instituto Conhecer Brasil, com a gestão Ricardo Nunes. O valor contratado supera R$ 108 milhões para instalação de pontos de internet gratuito em regiões de São Paulo.

A nova investigação do Intercept aponta que o Instituto Conhecer Brasil teria coletado de forma ilegal números de celulares de quem acessava o sinal de Wi-fi da prefeitura e repassado para outra empresa privada. A Talk Communications, beneficiária dos cerca de R$ 2,7 milhões, seria responsável por marketing digital. A época dos disparos contratados corresponde à campanha das eleições municipais de 2024, quando Ricardo Nunes foi reeleito.

Resolução de 2019 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe uso de disparos em massa de mensagens instantâneas em campanhas eleitorais sem o consentimento da pessoa destinatária.

Procurada, a empresa comandada por Karina Ferreira da Gama não respondeu. Já a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, da prefeitura de São Paulo, disse que “desconhece qualquer compartilhamento de dados pessoais” dos usuários do Wi-Fi Livre para “finalidade externa à própria utilização do serviço” e que “eventuais análises sobre conformidade contratual dependem da apuração de fatos concretos”.

Mar de lama da família Bolsonaro

Em paralelo, o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, defendeu nesta terça-feira (2), a abertura de um novo inquérito para para investigar o envio de recursos de Daniel Vorcaro aos Estados Unidos sob a justificativa de financiar o filme “Dark Horse”. A declaração foi dada em entrevista à GloboNews.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, Luciana Santana, professora de Ciência Política da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), afirma que todos os recentes desdobramentos formam um “mar de lama”.

“A gente está diante de um quadro de denúncias extremamente graves. Isso acaba nos colocando diante de questões, e uma delas é entender como as redes de apoio financeiras se articulam para financiar projetos da extrema direita. Até que ponto iniciativas culturais, midiáticas e eleitorais podem funcionar como instrumento de uma construção política. E se esses indícios forem mesmo confirmados, a gente não está falando de uma militância espontânea que a gente achou que viu durante muito tempo se propagar. A gente vê que tem uma estrutura profissionalizada, que envolve recursos volumosos e tem uma capacidade de articulação com empresários, e que não opera apenas no Brasil como também nos Estados Unidos”, analisa.

“E agora a gente vê essa questao do Wi-fi público de São Paulo que estaria coletando dados desses usuários. Isso tudo é grave. Eu estou falando do uso de dados pessoais e também de influenciar o processo eleitoral. Tem respingos sobre a integridade do debate público. A gente não pode achar que o que está acontecendo em São Paulo é uma questão meramente tecnológica”, critica.

O tarifaço de Trump

As entidades e associações ligadas ao sistema financeiro e econômico do Brasil se manifestaram contrários ao anúncio do governo dos Estados Unidos da possibilidade de aplicar tarifas de 25% dos produtos brasileiros. O governo federal atribuiu à articulação da família Bolsonaro o anúncio de um eventual novo tarifaço e declarou que, caso seja necessário, vai aplicar a chamada Lei da Reciprocidade.

Para Santana, essas ações não podem ser encaradas apenas como barreiras comerciais, e o governo federal precisa ter racionalidade para lidar com a atual situação.

“Eu me preocupo mais com a dimensão política, porque a gente sabe que essas medidas têm como objetivo ser mais uma pressão diplomática contra o outro país. Então acredito que o Brasil precisa responder com nacionalidade institucional e não jogar na mesma moeda que tem sido jogada do outro lado. Desde o anúncio das tarifas, o governo tem feito propagandas e defendendo a soberania, políticas de Estado. Acho que a gente precisa tentar responder sem que isso se vire no sentido contrário aos interesses e acho que o Brasil tem, acertado nesse sentido”, avalia.

A analista considera que, à exemplo do que aconteceu no tarifaço do ano passado, Lula deve insistir no caminho da articulação interna e de diplomacia.

“Lula vai precisar fazer o mesmo que fez no ano passado, que é uma mobilização interna, reunir o empresariado, pessoas estratégicas dentro da população que serão afetadas diretamente. E ele vai ter que buscar o diálogo direto com os Estados Unidos outra vez e, claro, olhar para outros mercados, como já vem fazendo”, afirma.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Gia Matheus Almeida

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