O Fórum Global para Redução da Pobreza e Desenvolvimento foi realizado em Pequim no dia 27 de maio como uma iniciativa da China e reuniu representantes de 53 países e nove organizações internacionais, além de agências multilaterais e especialistas em desenvolvimento. O encontro ocorreu em um contexto de persistência da pobreza global e buscou fortalecer a cooperação internacional no enfrentamento das desigualdades, com foco no intercâmbio de experiências entre países do Sul Global.
A iniciativa chinesa marcou ainda o lançamento da Parceria Global para a Redução da Pobreza e o Desenvolvimento, uma plataforma voltada à ampliação da cooperação em áreas como formulação de políticas públicas, transferência de tecnologia, capacitação técnica e projetos de desenvolvimento, reforçando a aposta em estratégias conjuntas entre países em desenvolvimento.
Mais do que um espaço técnico, o fórum evidenciou a projeção de diferentes experiências nacionais como referência no enfrentamento da pobreza, com destaque para China e Brasil, que apresentam modelos distintos de atuação estatal e organização das políticas sociais.
O Brasil de Fato esteve presente no encontro e entrevistou dois expoentes para explicar as experiências da China e do Brasil no combate à pobreza, apresentadas como exemplos de diferentes caminhos de enfrentamento das desigualdades sociais.
No caso chinês, o debate apresentado pelo professor Li Xiaoyun parte da compreensão de que a pobreza não pode ser medida apenas por indicadores de renda, mas por transformações estruturais nas condições de vida da população rural ao longo do tempo.
“Infraestrutura, provisão de bens públicos, serviços sociais, níveis de renda e até mesmo o senso de felicidade das pessoas melhoraram consideravelmente. Em termos acadêmicos, isso é chamado de convergência, ou seja, a redução da distância entre áreas urbanas e rurais”, afirmou o acadêmico chinês.
Para ele, o processo chinês de redução da pobreza está diretamente ligado à transformação do mundo rural e à integração econômica da população ao desenvolvimento nacional. Segundo dados oficiais amplamente citados por instituições internacionais, a China retirou cerca de 800 milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas, consolidando o que o governo define como a eliminação da pobreza extrema em 2020.
Já no caso brasileiro, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social, Osmar Júnior, destacou a centralidade das políticas de proteção social na estratégia de enfrentamento da pobreza e da fome no país.
“O governo do presidente Lula tem como foco combater a pobreza e tirar o Brasil do Mapa da Fome, algo que já conseguimos. Para isso, contamos com um conjunto de políticas sociais que têm produzido resultados positivos para a população brasileira”, afirmou.
Ele ressaltou ainda o papel do Cadastro Único como base da política social brasileira, a partir do qual são estruturados programas como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Dados de estudos sobre o programa Bolsa Família indicam impactos significativos na redução da pobreza e da desigualdade. Entre 2004 e 2014, estimativas do Banco Mundial apontam que cerca de 50% da queda da extrema pobreza no país esteve relacionada ao aumento de transferências sociais, especialmente via programas de renda, além de contribuições importantes para a redução do índice de Gini no período.

China: transformação estrutural do mundo rural
Ao explicar a experiência chinesa de erradicação da pobreza, o professor Li Xiaoyun, reitor do Instituto da China para Cooperação Sul-Sul em Agricultura (CISSCA), lembra que o ponto de partida do país, na década de 1980, era um nível de desenvolvimento ainda baixo, o que limitava a adoção de padrões mais elevados de combate à pobreza.
Ele destaca que a própria definição de pobreza evoluiu ao longo do tempo e não pode ser reduzida a uma única métrica internacional. “A linha de pobreza do Banco Mundial é baseada na paridade do poder de compra (PPC). Trata-se de um indicador comparativo internacional. Ele não define como cada país deve medir a pobreza com base em suas próprias condições econômicas e sociais”, afirmou.
Segundo ele, cada país opera com dois referenciais: um para comparação internacional e outro para formulação de políticas internas e alocação de recursos. No caso chinês, esse padrão foi se elevando gradualmente ao longo das décadas, especialmente na fase final da campanha de erradicação da pobreza, quando ainda havia cerca de 80 milhões de pessoas em situação de pobreza.
Nesse período, os critérios já se aproximavam de referências internacionais, situando-se entre 1,65 e 1,95 dólares em PPC. Mas, para Li Xiaoyun, o elemento central da estratégia chinesa não foi apenas a renda.
Durante a fase de erradicação direcionada da pobreza, o país adotou o marco das chamadas “Duas Garantias e Três Seguranças”, que asseguram alimentação e vestuário adequados, além de acesso a serviços básicos de saúde, moradia e educação obrigatória. “Quando convertido em equivalência de renda, trata-se de um padrão multidimensional e relativamente elevado”, explicou.
A política de combate à pobreza esteve fortemente associada a um conjunto de intervenções estruturais no meio rural, com ampliação de infraestrutura, acesso a serviços públicos, eletrificação, saneamento e expansão da conectividade digital em áreas antes isoladas. Esses investimentos foram considerados centrais para reduzir desigualdades históricas entre campo e cidade.
Para o pesquisador, os resultados só podem ser compreendidos a partir da transformação concreta das áreas rurais. “Infraestrutura, provisão de bens públicos, serviços sociais, níveis de renda e até mesmo o senso de felicidade das pessoas melhoraram consideravelmente. Em termos acadêmicos, isso é chamado de convergência, ou seja, a redução da diferença entre áreas urbanas e rurais”, disse.
Esse processo se intensificou ao longo de mais de uma década e culminou na eliminação da pobreza extrema em 2020, segundo dados oficiais amplamente citados por instituições internacionais, com cerca de 800 milhões de pessoas retiradas da pobreza nas últimas décadas.
Após essa fase, a China passou a implementar a estratégia de revitalização rural, voltada a evitar o retorno da pobreza e consolidar o desenvolvimento do campo, com foco em modernização agrícola, fortalecimento da economia local e continuidade da melhoria da infraestrutura e dos serviços públicos.
O pesquisador descreve esse processo em três etapas: a campanha de erradicação da pobreza, a transição para a revitalização rural e, por fim, a normalização das políticas de desenvolvimento com foco na redução de desigualdades.
“Nesse modelo, o desenvolvimento deve ser desde o início mais justo e inclusivo. Isso inclui renda, equilíbrio regional, proteção ambiental e desenvolvimento verde, tudo integrado sob uma lógica coordenada”, afirmou.
Ele também destaca que, nas fases iniciais, o país adotou uma abordagem baseada na geração de renda e na participação produtiva da população, já que não seria possível garantir bem-estar universal de forma imediata diante de recursos limitados.
Nesse processo, os trabalhadores migrantes rurais tiveram papel central na expansão econômica do país, ainda que com sacrifícios em termos de acesso a benefícios sociais.

Brasil: reconstrução das políticas sociais e combate à fome
O Brasil organiza seu enfrentamento da pobreza a partir de um sistema nacional de proteção social, baseado no fortalecimento de políticas públicas voltadas à garantia de renda, segurança alimentar e inclusão social.
No governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, essa estratégia tem como eixo central a reconstrução e ampliação das políticas sociais, com a retomada de programas voltados ao combate à fome e à redução da pobreza, além da meta de retirar novamente o país do Mapa da Fome.
O secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Social, Osmar Júnior, explica que a base desse sistema é o Cadastro Único, instrumento que reúne informações de famílias em situação de vulnerabilidade em todo o país e orienta a execução das políticas sociais.
“A principal delas é o Cadastro Único, um registro nacional onde estão cadastradas pessoas em situação de vulnerabilidade social. É a partir desse cadastro que são definidas as políticas sociais”, afirmou.
A partir dessa estrutura, são organizadas políticas como o Bolsa Família, principal programa de transferência de renda do país, e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), voltado a idosos e pessoas com deficiência sem renda, além de ações complementares desenvolvidas por estados e municípios.
Esse conjunto forma o principal sistema de proteção social do país, com impacto direto na redução da pobreza e da desigualdade.
Dados do Banco Mundial indicam que o Brasil reduziu significativamente a pobreza nas primeiras décadas dos anos 2000, período marcado pela expansão das políticas sociais. A extrema pobreza caiu de cerca de 13,6% da população em 2001 para aproximadamente 3,7% em 2014, acompanhando a ampliação das transferências de renda, o aumento do emprego formal e a valorização do salário mínimo.
No plano internacional, Osmar Júnior destaca a importância da cooperação entre países e do intercâmbio de experiências como elemento central das estratégias de enfrentamento da pobreza.
Ao comparar experiências, ele ressalta dois aspectos fundamentais da política chinesa: planejamento de longo prazo e continuidade das ações do Estado.
“A China realizou um planejamento minucioso e o executou de forma consistente ao longo dos anos. Planejar e executar com continuidade é fundamental para alcançar resultados consistentes”, afirmou.
Ele também destaca o foco na geração de renda e na inclusão econômica das famílias como elemento estruturante da experiência chinesa.
Nesse contexto, avalia que o cenário internacional ainda é marcado por tensões geopolíticas e pelo aumento dos gastos militares em diversos países, em contraste com iniciativas voltadas ao fortalecimento das políticas sociais.
“O outro caminho é o da cooperação. Cooperação é a palavra-chave para enfrentar os desafios da humanidade hoje”, disse.
Ao analisar a realidade brasileira, o secretário aponta que a pobreza tem forte relação com fatores estruturais, especialmente no meio rural, onde a concentração fundiária segue como um dos principais desafios históricos.

